terça-feira, 27 de julho de 2010

A viagem de Agenor

Quando o despertador tocou às cinco e meia, ele acordou. Abriu o olho direito (para dar sorte. Sempre abria primeiro o direito). Depois o esquerdo.  Mexeu os dedos do pé direito. Do esquerdo. Sentou na cama. Calçou os chinelos. Levantou. Pé direito, depois o esquerdo.  Lembrou que hoje não iria trabalhar. Férias. Mais do que férias: viagem.   Caminhou em direção ao banheiro e iniciou com prazer o ritual já conhecido. Mas, dessa vez, ao invés da repartição, era o avião que o aguardava. 
 Sorriu satisfeito. Não que não gostasse do trabalho. Não, não era isso. Ele amava o  trabalho. Mesmo que sua chefe fosse uma mulherzinha sem competência, mulherzinha ridícula, que ficava fazendo charme (sim, ele percebia) para aos homens que ia atender no balcão.  Atendia primeiro os homens, deixava as mulheres esperando. A fêmea nojenta. A meretriz. E ainda chegava atrasada, sempre atrasada. Desorganizada, o gabinete dela é um horror.  Ele não.  Ele, Agenor, é outra história. Um primor.  Cada cadeira em seu lugar. Na mesinha, um porta-retratos com a foto da  mãe. Canetas no porta-lápis.  Arquivos rigorosamente arrumados, primeiro por assunto, e em seguida, dentro de cada assunto, em ordem alfabética. Trabalho é método. Vida é método.
Terminou o banho com esses pensamentos. Vestiu cuidadosamente a calça social, depois a camisa, abotoou até o colarinho, fechou os botões do punho. Cinto. Meias. Sapatos.
Sapatos. Sapatos são peças essenciais. A não ser que esteja na segurança de seu quarto, não os tira nem mesmo para dormir.
Saiu do quarto. Apagou a luz. Encostou a porta. Caminhou até a cozinha. Dona Maria das Dores já o esperava, colocando a mesa com um café de aroma sem igual.  Aliás, qualquer comida que ela preparasse adquiria esse cheiro característico, cheiro de esmero, de limpeza.  Tomou café, despediu-se da mãe com um beijo na mão e saiu em direção ao aeroporto carregando sua bagagem. Destino:  Manaus.
O vôo transcorreu sem maiores desarranjos.  As aeromoças ofereceram balas, refrigerante e suco ( as viagens de avião não são mais como antigamente!).   
Ao desembarcar, dirigiu-se ao hotel.  Instalou-se, passou a tarde vendo TV. Veio a noite, e a ansiedade lhe tocava os nervos.  Rezou de joelhos, pediu perdão antecipadamente ao seu bom deus e tomou a decisão. Como sempre. Era assim que as coisas aconteciam quando viajava de férias.
Pegou o jornal comprado ainda no aeroporto e começou a pesquisar:

Ronaldo – “Realizo suas mais secretas fantasias
James – “Companhia agradável e muito quente
Lover boy - "Sou alto, moreno, musculoso...o resto só conto pessoalmente"
Vanny – “Boneca que gosta de levar, mas também tem pra meter

Pronto. Vanny. Seu coração bateu apressado ao ler o anúncio. A afinidade foi instantânea. Ele sentiu o querer entrando,  infiltrando-se, passo a passo, no seu corpo. Boneca…multiuso, sim, multiuso, faz as duas coisas. “Aquelas” coisas.
Sobressalto no peito.  Mas o pedido de perdão já foi feito, e, além disso, ao retornar iria subir a escadaria da catedral de joelhos e passaria mais onze meses vivendo na virtude, ao lado da mãe. Esses pensamentos desanuviaram sua mente. 
Pegou o telefone.  Discou. Primeiro o três, depois o seis. Dois. Três de novo.  Lentamente.  Saboreando. Com um misto de satisfação e terror. Para sua alegria, quem atendeu foi a própria Vanny. Boneca. E que voz! Marcaram o encontro para dali a uma hora,  no apartamento dela.
Começou então um novo ritual. Banho demorado. Calça social. Camisa. Colarinho. Punhos. Meias. E sapatos. Ah, os sapatos…
Quando chegou, não se surpreendeu com o apartamento de sua boneca, por mais que não fosse de seu agrado um lugar como aquele.  Minúsculo. Sujo. Paredes nojentas. Roupas espalhadas. Cama desfeita. Cheiro de pecado.  Mas quando Vanny acariciou seu rosto, enquanto lentamente passava a língua pelos lábios, com um olhar insinuante que o media de cima a baixo, levantando as sobrancelhas num convite, todo o resto perdeu importância.  Os cabelos, muito loiros, pendiam sobre os ombros. Não, ultrapassavam os ombros, eram lindos e longos aqueles cabelos. Os olhos, muito pintados, davam-lhe um aspecto “noir”, deixavam-na parecida com uma entediada dama francesa.  Os seios, ah, os seios…Imensos e duros, duros como nenhuma daquelas meretrizes lá do trabalho era capaz de ter.  Saltando da blusa levemente transparente.  A saia curta,  rodada, aumentava ainda mais o mistério e alimentava seu ar de francesinha.
Beijaram-se, isso mesmo, beijaram-se. Porque para Agenor o beijo era sinal de amor, e como que purificava e elevava e purgava todo aquele nojo. E o beijo, claro, estava no acerto prévio que fizeram. Não podia faltar. Mas ele sentiu que, apesar de tudo, aquele não foi um beijo comprado. Vanny, sua boneca, ela também o amou desde o primeiro momento.
Depois do beijo, ele cuidadosa e lentamente desabotoou sua camisa. Tirou a calça. Sempre escolhia uma calça larga, que pudesse passar pelos sapatos. Pendurou a roupa no cabide, com cuidado para não amassar.  Caminhou com Vanny até a cama.  Sentou, pediu que ela ficasse de pé junto a ele. Queria olhá-la em silêncio, sem pressa.  Apreciou seus cabelos. Deixou que ela mordesse seus dedos. Deslizou a mão pelos seus seios. Desceu até a barriga. Depois, quadris.  E então parou. Queria conferir dramaticidade ao momento.  Respirou fundo. E lentamente, concentrado como quem faz uma oração, levantou a saia. Seu coração disparou. Como era lindo aquilo, como era lindo! Daquele corpo de mulher brotava, ereto, o segredo da sua boneca, da sua francesinha.  Só não quis morrer naquela mesma hora porque ainda precisava subir as escadarias da catedral, não poderia morrer em pecado. Mas felicidade como aquela, ah, felicidade como aquela não existia.
E se esbaldaram, exatamente como ela prometera no anúncio.  Seu único defeito era querer desamarrar os cadarços dos seus sapatos. Era a única coisa que fazia com que ele se zangasse um pouco com sua bonequinha, afinal só ia para a cama sem sapatos na segurança do seu quarto. Isso desde menino. O que sempre foi e é não se muda, não se deve tentar mudar.
Depois do amor, Agenor sustentava em seu ombro a cabeça adormecida de Vanny. Os sapatos desamarrados incomodavam um pouco, mas continuavam nos pés, então não havia problema.  Desfrutava dessa felicidade, dessa calma, quando a porta foi aberta de chofre e dois homens invadiram o apartamento, arma em punho. Antes de possibilitar qualquer reação, correram para a cama, acordaram Vanny puxando-a pelos cabelos.   
Traveco safado, paga essa porra agora ou vai comer formiga”. 
Sequer deram importância à sua presença, à sua cara de horror.  E começaram uma sessão de tapas no rosto (o lindo e francês rosto de sua bonequinha), empurrões, "só não arranco esse pau porque tenho nojo de pegar, seu traveco imundo”, socos.  
Agenor perguntou o que era, quanto ela devia, e a resposta: “fica na sua, coroa boiola”.
Quando tiraram uma tesoura e começaram a cortar o cabelo da sua Vanny, ele não suportou.  Num lance de coragem e falta de método, saltou da cama. Um dos sapatos caiu dos pés. O outro saiu também, logo depois dos primeiros passos. Avançou num dos homens, distribuiu pernadas, socos, pontapés, agarrou-se com um deles.
Aí sentiu o impacto. À queima-roupa. O projétil penetrou no seu corpo abriu um buraco enorme rasgou sua carne explodiu lá dentro saltou sangue suas vísceras se despedaçaram seu interior se desmanchava de forma caótica incontrolável estômago pulmão coração tudo era uma coisa só uma mesma massa sem forma definida sem padrão sem divisão sem ordem. Tombou. Caiu.
Os dois, assustados, saíram correndo, deixando a porta aberta, Vanny histérica e Agenor jogado no chão, sem sapatos. Feliz. Sua boneca francesa estava salva. 
Quando ligaram avisando, Dona Maria das Dores não acreditou. Entrou em desespero. Seu único filho, como podia? E tinha certeza de que o local em que encontraram o corpo foi uma armação, uma sórdida armação. Assaltaram seu bebê, mataram e depois o jogaram naquele apartamento imundo. Bandidos dos infernos! Este mundo está perdido, só há salvação no outro. Providenciaria para seu filho um enterro digno, limpo, austero, como ele merecia. Uma coisa, porém, Dona Maria das Dores nunca compreendeu e nunca teve coragem de comentar com ninguém: o sorriso lascivo, desordenado, torto, de Agenor, seu nonôzinho, seu santo menino, naquela foto de jornal.   

(2006)

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