segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Felicidade clandestina


Uma das afirmações mais famosas de Simone de Beauvoir é a de que não se nasce mulher; torna-se mulher. Da mesma forma, uma mulher não fica grávida já com a fecundação. Ela vai se tornando grávida ao longo dos meses. Vai incorporando física e psicologicamente a nova realidade. Hoje, às 37 semanas de gestação, eu posso dizer que estou plenamente grávida de Clarice. 
No início era apenas o incômodo; enjôos, e a consciência de que havia uma coisa sem nome, uma espécie de grão na minha barriga, que me parasitava e ainda não significava nada. A gravidez foi planejada e desejada, mas bem no começo a sensação foi essa: não era uma pessoa, uma criança, e sim uma parte do meu próprio corpo, um carocinho incômodo. 
Depois foi crescendo, tomando forma, e durante as ultrassonografias eu me convencia de que realmente carregava um bebê. 


Em seguida começou a mexer, e não precisei mais das ultras...mas ainda era apenas um bebê, uma coisinha sem nome. Quer dizer, eu e meu marido já havíamos escolhido o nome, mas eu ainda não conseguia chamá-la de Clarice.
Aos poucos comecei a sonhar com ela e me habituei à ideia de uma Clarice na minha vida. Hoje respiro e sonho Clarice .
Foi um longo caminho, com muita leitura sobre um universo novo, o da gestação, do parto...antes essas coisas eram passadas naturalmente; ter filhos era algo banal, que acontecia com os parentes, com a vizinha, com a sua própria mãe...
Mas hoje em dia isso costuma ser uma realidade tão apartada da vida para as mulheres que moram numa capital e trabalham fora que é preciso toda uma preparação, incluindo “cursos de gestante”. Você tem que aprender o que é natural. 
E dentro desse contexto seguir tranquila mesmo com as pressões e preocupações dos outros. Porque todo mundo quer que nasça logo, quer uma data, e eu não quero. Quero esperar o início do trabalho de parto, mesmo que seja preciso fazer cesariana. Clarice está sentadinha, a danada.  Se  não virar, lá se vai meu desejo de sentir mil dores e de ajudá-la a nascer. Vou ter que entregar a missão aos médicos. Paciência!
Creio que a gravidez vem sendo uma das fases mais felizes da minha vida. Tudo transcorreu muito bem, exceto por um ou outro susto. E agora que o nascimento está pertinho, me sinto como a garota do conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, que finalmente conseguiu o livro pelo qual tanto ansiara, mas quer prolongar o momento, a expectativa, antes de começar a ler:

"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só pra depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."

É exatamente assim: fico querendo que ela demore a nascer, só pra continuar sentindo a alegria de tê-la aqui pertinho, pra viver a expectativa de não saber como é o rosto dela, com quem se parece, qual a cor dos seus olhos. Prolongar o momento em que sei que ela logo estará nos meus braços. É uma felicidade pura a de simplesmente esperar.  

3 comentários:

Carlos Augusto Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Augusto Costa disse...

Lindo texto!

Alan disse...

Seu último post foi em 2012... e desde então, você parou de escrever :/ Espero que um dia, volte sua inspiração e vc arranje um tempinho tbm :)