Insidioso como uma serpente venenosa, letal para a saúde psíquica dos que estão à sua volta, grave elemento de perturbação da ordem, o celular que toca músicas vem se infiltrando no cotidiano das pessoas. Esse tipo de equipamento precisa urgentemente ter o seu uso regulamentado. As pessoas deveriam se candidatar a ter um celular tocador, entrar numa fila de espera e para adquirir teriam antes que fazer um curso no qual seriam obrigadas a assistir no mínimo três vezes a palestras com os seguintes temas:
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segunda-feira, 25 de abril de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
Para além de Roberta Sá e Marina Elali
Aqui em Natal muitas vezes as discussões sobre cantores/músicos locais é polarizada entre Marina Elali e Roberta Sá. Houve um tempo em que existiam quase que torcidas organizadas, com comparações e até xingamentos. Confesso que fazia parte da torcida organizada de Roberta Sá, primeiro porque gosto bastante do repertório dela, da postura no palco e da voz. Roberta Sá é linda, elegante e muito talentosa. “Lavoura”, cantada com Ney Matogrosso, é qualquer coisa muito perto da perfeição:
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Os akitas e o silêncio
" ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo"
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo"
(Leminski)
Cachorro é assunto para iniciados. Quem nunca teve a alegria de chegar em casa e ser recebido com uma verdadeira festa (ainda que tenha saído só pra ir à padaria da esquina) não entende o motivo de tanto nhenhenhem com os bichinhos.
Com nhenhenhem", que fique bem claro, eu não quero falar de fazer aniversário de cachorro, encher o bicho de roupinhas, pulseiras e afins, que isso eu acho uma grande bobagem. Falo do nhenhenhem emocional, da dor que a gente sente quando vai viajar e ficar longe deles, da loucura e da preocupação quando eles ficam doentinhos, enfim, do amor que eles são capazes de despertar e mais, da sensação que eles nos transmitem, contra toda a racionalidade possível, de que também nos amam. Clarice Lispector disse certa vez, sobre o seu cão Dilermando, que ela encontrou nas ruas de Nápoles:
| Filhotes de akita |
domingo, 19 de dezembro de 2010
Então é natal
E Simone te persegue nos supermercados, padarias e shoppings cantando com aquela voz horrorosa, te fazendo lembrar não da morte de Jesus Cristo, e sim dos inúmeros assassinatos de músicas cometidos por intérpretes brasileiros e suas infames versões. Você tem vontade de mandar uma carta pra ela explicando que se o "nataaaalll é a festa cristãããããã", ficar mencionando mantras Hare Krishna na música não tem nada a ver. Ao diabo Simone com seu "Harehama", e também com "Hiroshima e Nagasaki".
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Detalhes nem tão pequenos assim
No dia 10 de dezembro haverá show de Roberto Carlos para marcar a inauguração do teatro Riachuelo aqui em Natal. Ingenuamente eu pensava em levar a minha mãe e o meu pai. Mas como é mesmo aquela música...?
Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Pois é. Foi muita ilusão.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Elogio da inutilidade
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. (...) Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. À duração de existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.
(Clarice Lispector)
Crianças adoram coisas inúteis. Brincar, gastar o tempo à toa. São horas correndo para lá e para cá, horas ninando bonecas, ou simplesmente cantarolando uma musiquinha enquanto se balançam numa rede ou num pneu velho. Ouvem “estorinhas” dos pais pelo mero prazer de ouvir; algumas até escrevem sua própria estórias, não para vender livros, mas para se divertir. Quando aprendem a ler, começam a soletrar o que vêem pela frente: placas, letreiros. O prazer de saber, de descobrir. Depois começam a ler gibis e livros. Não lêem para aprender; lêem para mergulhar na história. Mas à medida que vão crescendo, o utilitarismo vai dominando suas vidas. Não brincam mais; lêem quando precisam estudar; estudam para passar de ano; entram na universidade pensando em se formar, e se formam pensando em trabalhar. Já trabalhando, passam a ouvir música apenas no caminho para o trabalho, enquanto enfrentam um ônibus lotado ou um trânsito estagnado. Casam para constituir família, ou para driblar a solidão; lutam para manter o casamento; vão morar nas suas casas ou apartamentos de "arquitetura funcional"; controlam com rigor o próprio tempo; desdobram-se para alcançar metas na vida profissional e também na pessoal. Rezam para ter o conforto de uma outra vida; e sempre se esforçam para acreditar que tudo isso tem um sentido.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Sobre brincar e viver
Rir é uma das melhores coisas da vida, mas parece que às vezes entramos em um ciclo de pressão, responsabilidades, exigências e tristeza que nos retira temporariamente essa capacidade. Eu mesma às vezes fico tão séria, imprimo tanta gravidade às coisas, que esqueço que quase nada é tão importante quanto parece.
Quando somos crianças, rir é bem mais fácil. Porque nessa fase, brincar é um ato natural, e a brincadeira é mãe do riso. Mas à medida que crescemos vamos também esquecendo o que significa brincar.
Eu não gostava muito de ninar bonecas, preferia cortar o cabelo delas (houve uma época em que pensava em ser cabeleireira). Também gostava de maquiá-las, e meu sonho de consumo era uma que tinha só a cabeça e a brincadeira consistia em pintar o rosto todo. Adorava, também, trocar a roupa delas, mesmo que a roupa "nova" fosse um paninho qualquer e não caísse tão bem. Enfim, eu não me conformava com o brinquedo original. No fim das contas, até onde me lembro minhas bonecas eram sempre meio sujas, mutiladas, de cabelo curto...
Hoje, adulta, muitas vezes tenho o desejo de, de vez em quando, simplesmente parar tudo, repensar, desfazer, reconstruir. Fico pensando que esse desejo pode ser uma continuação da minha vocação para cabeleireira de bonecas. Minha insubordinação íntima com certas regras e convenções da vida pode ter começado no exato momento em que tosei a primeira cabecinha!
Quebrar o brinquedo
é mais divertido.
As peças são outros jogos:
construiremos outro segredo.
Os cacos são outros reais
antes ocultos pela forma
e o jogo estraçalhado
se multiplica ao infinito
e é mais real que a integridade: mais lúcido.
Mundos frágeis adquiridos
no despedaçamento de um só.
E o saber do real múltiplo
e o sabor dos reais possíveis
e o livre jogo instituído
contra a limitação das coisas
contra a forma anterior do espelho
E a vertigem das novas formas
multiplicando a consciência
e a consciência que se cria
em jogos múltiplos e lúcidos
até gerar-se totalmente:
no exercício do jogo
esgotando os níveis do ser.
Quebrar o brinquedo ainda
é mais brincar.
(Orides Fontela)
Quebrar o brinquedo, construir novos segredos, tudo isso, evidentemente, é uma metáfora do viver. No fundo, a bela poesia de Orides Fontela diz assim (e eu assino embaixo) : romper as regras é muito mais viver.
Sobre morar e brincar
Quando eu era pequena, morava em uma casa de primeiro andar, com um quintal enorme. Havia muitas árvores (uma mangueira bem grande, bananeiras, goiabeira, coqueiros...) e também um galinheiro. Já nessa época meu “espírito libertário” se manifestava: eu abria a porta e soltava todas as galinhas, o que deixava minha mãe doida. Depois ela passou a amarrá-las com cordões, as pobrezinhas, e então eu ia escondida com uma faca e cortava esses cordões, e lá iam as galinhas, felizes, leves e soltas. Era uma missão importantíssima para mim, e muito emocionante.
Dentro da casa, a escada que dava acesso ao primeiro andar era um tanto sinistra, meio escura, e fechada por paredes dos dois lados (era uma espécie de corredor-escada). Aí houve uma época em que passava uma novela na TV Globo em que um personagem morria mas continuava vindo se balançar numa daquelas cadeiras de palhinha, que a gente chamava de cadeira-da-vovó. Havia uma cadeira dessas no andar de cima, e sempre que eu ia lá sozinha ela balançava terrivelmente, e eu disparava feito doida escada abaixo, certa de que alguma alma penada estava sentada lá, só me aguardando. Cheguei a sofrer umas quedinhas, mas nada grave. Lembro também que depois de assistir ao filme “Poltergeist – o fenômeno”, subir sozinha se transformou em ato de suprema coragem. Além disso, passei a ter a nítida sensação de que sob um dos canteiros de plantas lá do quintal havia um cemitério, tal qual acontecia no filme. E assim minha infância foi povoada de cadeiras e redes que balançavam sozinhas, portas que se fechavam sem que ninguém empurrasse, ímpeto libertador de galinhas e um quintal que escondia ossadas de gente morta há muito tempo.
Todas essas lembranças foram despertadas quando li uma maravilhosa poesia de Mario Quintana, que diz assim:
Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas?)
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas...)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!
Da mesma forma que o poeta, adoro casas antigas e espaçosas, com algum toque de mistério. Não gosto da idéia dos arquitetos de aproveitar cada mínimo espaço para torná-lo funcional. A funcionalidade total retira a graça. Anula a alma. Não suporto que cada coisa esteja sempre no seu lugar. Há uma parte de mim que clama por um pouco de desordem. Uma casa arrumada demais me dá receio: sinto como se estivesse andando em campo minado. Espaços “inúteis”, uma boa varanda, um lugar para armar uma rede, um cantinho que tenha um ar de displicência. Um quartinho escuro, um corredor assustador. Sombras, possibilidades.
Porque talvez eu ainda queira brincar. Talvez esse meu jeito de adulta séria e “respeitável” seja um disfarce e eu ainda seja a criança que morre de medo de fantasmas e adora sonhar.
Oba
Dilma venceu, e meu lado palpiteira em matéria política entra em recesso, mas só até a posse! Agora é hora de assistir aos pronunciamentos, entrevistas, e sobretudo de registrar as propostas. Estou apostando pra ver. E estou com fé, apostando alto.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Sobre olhinhos infantis e programas sociais
Não vou fazer nenhuma análise sobre os programas sociais criados e/ou intensificados no governo Lula, pois não tenho cacife para tanto. Além disso, existem muitos artigos disponíveis na internet, com dados econômicos, indicativos, estatísticas, enfim.
Vou apenas contar uma história que me fez refletir sobre o assunto.
Morei uns anos em Recife, que é a nossa São Paulo nordestina, nossa “cidade grande”. Lá, eu tinha uma faxineira muito espirituosa, de quem gostava bastante. O nome dela era Célia. E um dia Célia me chamou para ir conhecer o filhinho recém-nascido de uma parente/amiga. Aceitei o convite, e saímos rumo a um bairro muito pobre do Recife, no qual, confesso, não entraria sozinha, sem as orientações e a proteção de Célia. Chegando lá, nos dirigimos a um barraco. A amiga dela estava sentada na cama, com o filhinho ao lado. Ela parecia ter de quarenta e três a quarenta e cinco anos. Mas eu sou capaz de jurar que ela teria apenas entre 32 e 33. Intuição. Porque aprendi que, enquanto algumas pessoas aparentam ser bem mais jovens do que realmente são, outras (e essas a gente conhece também pelo olhar) têm tracejadas no rosto linhas que foram resultado não só da passagem dos anos, mas sobretudo da passagem do sofrimento. Sem os cuidados pós-gestação, ela parecia ainda ter uns dois meninos na barriga. Falou das dificuldades, mas sem ressentimento. Mencionou a despensa vazia, sem mantimentos, mas estava feliz porque tinha leite e ia garantir a alimentação do bebê com a amamentação.
E então reparei no bebê. Vi os olhos dele. Azuis. E bem vivos. Soube que ele havia nascido há oito dias e ainda não tinha nome.
“Diga aí um nome pra ele”.
Eu? Dizer um nome? Eu, uma estranha, sugerir uma marca que iria acompanhá-lo por toda a vida? Aquela criança ali, com apenas oito dias e com aqueles olhos tão vivos inibiu toda a minha criatividade. Nenhum nome me pareceu bom o suficiente.
Nesse mesmo momento lembrei que estava prestes a ser tia. Minha irmã tinha acabado de saber o sexo do bebê: seria menino, e antes de nascer já tinha um nome, um quartinho todo arrumado, uma guarda-roupa cheinho e uma tia irremediavelmente apaixonada e coruja. Mas aquela criaturinha, já nascida, não tinha sequer um nome. Durante muito tempo fiquei com a imagem daqueles olhinhos na cabeça, tão ativos, de um lado para o outro, atentos, mas sem ter consciência de nada. Sem suspeitar que ali já havia um destino traçado. Mal nascido, e já sem nome. Já sem esperança. O bebê, claro, não sabia ainda o que era não ter esperança, e como me doeu saber aquilo por ele.
Naquele momento tive a consciência aguda do que é a verdadeira injustiça social. Como as pessoas podem nascer tão diferentes? Quem pode explicar porque duas crianças, esse bebê e o meu sobrinho, que não fizeram nada, simplesmente "aconteceram", foram concebidos, podem desde já ser tão diferentes? Podem ter perspectivas tão diversas? Creio que só haveria explicação se partíssemos para premissas religiosas, que têm seu valor, mas apenas no campo da fé. Racionalmente não dá para entender e muito menos para aceitar.
E no Brasil são milhões de olhinhos, azuis, negros, castanhos, espertos, sem nome, sem comida no armário. Qual a opção deles?
Aqui entram os programas sociais. Nosso país ainda tem um longo caminho a percorrer, e existem pessoas que simplesmente não têm como sair do lugar, como sobreviver, sem o apoio de tais programas. Existem pessoas que já nasceram sem o mínimo necessário, que vão crescer subnutridas, que não vão ter estímulo para estudar, que vão tentar ganhar dinheiro nos sinais, e que precisam, sim, de ajuda do governo.
Às vezes é muito fácil para quem é de classe média e teve pais pobres, estudou com alguma dificuldade e, como diz a linguagem comum, “venceu na vida”, dizer que quem quer, vence, que quem tem vontade, tudo alcança. Mas para mim isso é literatura barata de auto-ajuda ou coisa de quem assistiu a muito programa da Xuxa (querer é poder, baixinhos!). Eu mesma não estudei sem algum esforço, não vivi sem dificuldades. Mas é radicalmente diferente o ter alguma coisa do não ter absolutamente nada.
É impossível que o dono dos olhinhos azuis um dia faça uma universidade, consiga um bom trabalho, saia do bairro miserável em que nasceu e tenha uma vida boa e confortável? Não, não é impossível. Só que se não tiver incentivo, se não tiver ajuda, para isso ele terá que fazer um esforço grande demais, ele terá que ser quase um super herói. E à medida que a gente vai crescendo, vai deixando de acreditar em super herói, não é mesmo?
Então o Brasil precisa, sim, de programas sociais. Precisa, sim, dar dinheiro aos pobres. Há o risco de desvios? Sim, claro. Há o risco de acomodar quem recebe o dinheiro? Sim, existe. Mas isso é motivo para acabar ou reduzir a extensão desses programas? Não creio. Em primeiro lugar, o valor que cada pessoa recebe pela inclusão não é nenhuma fortuna; não há o risco de criar marajás com o bolsa-familia, podemos ficar tranqüilos. Em segundo lugar, a possibilidade de ajudar e incentivar quem realmente precisa supera o impacto da acomodação.
O Brasil é um país injusto, muito mais injusto do que supomos na maior parte do nosso dia, enquanto estamos envolvidos com nosso trabalho, nossas obrigações e nosso lazer. Muito mais injusto do que conseguimos sentir ao ver os noticiários. Só o impacto "ao vivo e a cores" é capaz de mostrar o fosso que existe entre as classes sociais. E esse fosso foi amenizado com o governo Lula, isso é fato. Não foi resolvido, Lula não salvou a pátria (heróis não freqüentam mais o nosso mundo de adultos, lembram?). Mas ele teve um governo em grande parte voltado para os mais necessitados. Claro que só a assistência não resolve, é preciso avançar. É preciso investir muito mais em educação. Ainda vale aquela antiga máxima de que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe, mas é preciso que o pescador tenha forças para poder lançar a sua isca mais longe, é preciso que ele não seja subnutrido e tenha condição de puxar o peixe, para não deixar que ele escape.
E nós, que somos privilegiados, porque tivemos educação formal, porque temos um trabalho, precisamos disso, precisamos que os pobres deixem de ser tão pobres, porque a redução de todos os problemas, inclusive da violência, passa pela melhoria das condições de vida da população. Eu adoraria reencontrar aqueles olhinhos azuis numa biblioteca, numa livraria, ou numa empresa, como vendedor, supervisor, quem sabe professor! Mesmo tendo a certeza de que obviamente não os reconheceria. Mas se o abismo não se retrai, se não lutamos pela sua redução, o risco bem maior é de encontrá-los nas páginas policiais, esbugalhados, ou que Deus me proteja e nos proteja a todos, de encontrá-los em alguma esquina, à espreita, marcados pelo ódio e refletindo a arma na mão.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Obrigada, José Serra
Sou uma pessoa meio antiquada. Nasci na década de 70. Gosto de músicas antigas, de filmes um tanto velhos, tenho hábitos meio arcaicos, tais como preferir uma boa conversa pessoal com os amigos, ao invés de email ou twitter. Então tenho um jeito de pensar e de sentir as coisas também um pouco, vamos dizer assim, ultrapassado. Nesse nosso tempo atual, individualista (e eu diria que até um tanto niilista), fico igual a Cazuza, sentindo falta de uma ideologia para viver, de um sonho no qual possa acreditar. Não suporto a apatia, a falta de motivação. Mas era assim que eu andava ultimamente, no que diz respeito à política.
E aí você me salvou dessa indolência em que eu estava mergulhada, você me mostrou que existe uma razão para lutar e para votar. Você, José Serra.
No primeiro turno eu estava achando que você e Dilma tinham idéias e projetos muito parecidos. Na verdade, confesso, não havia ainda despertado para a busca de informações, para o acompanhamento mais freqüente das discussões. Mas nessa campanha do segundo turno, você finalmente disse a que veio. Mostrou que é diferente, e muito. Então muito obrigada por ter mostrado a cara.
Sua campanha de difamação contra Dilma me fez pesquisar sobre a vida dela. Enxerguei a mentira por trás das alegações lançadas na internet de que ela era ou tinha sido terrorista. Mas não é só isso. Depois de conhecer a biografia de Dilma, a candidata que antes eu via como insípida e até um tanto forjada, hoje enxergo como uma mulher forte, que lutou com paixão e destemor pelas causas nas quais acreditava. As suas táticas sujas, José Serra, envolvendo uma discussão ridícula sobre aborto e posições religiosas me fez perceber o fundamentalismo por trás do seu sorriso, no qual, a propósito, nunca acreditei. Ah, ia esquecendo: obrigada também porque eu andava um pouco cansada e até meio triste (coisa pessoal, sabe?), mas a ridícula e fingida hipocondria em torno do "OVNI" que lhe atingiu na cabeça me fez rir.
Em um texto anterior, falei de política e de voto de modo um tanto tímido, quase justificando a mim mesma minha decisão de apostar no PT. Mas as suas manobras, a sua campanha suja, as desprezíveis táticas do medo, do terror e da mentira fizeram com que eu me aprofundasse nas informações e na reflexão sobre o quanto o país mudou nesses últimos anos. Obrigada, então, porque agora eu vejo com clareza o quanto de atraso a sua eleição iria representar.
Mas sou sentimental, leonina e apaixonada por tudo em que acredito, por isso meu agradecimento principal é por você por ter me livrado do receio de acreditar em Dilma, por ter me trazido de volta o gostinho da “ideologia”. Eu disse anteriormente que hoje não viajaria mais 600 km para votar em Dilma, como viajei para votar em Lula. Na época estava morando provisoriamente em outra cidade, a trabalho, e não havia transferido o título eleitoral. Pois agora voto aqui mesmo, na cidade em que moro. Não preciso viajar, mas a eleição é no meio de um feriadão. Então vou deixar de viajar. Não vou aproveitar o feriado porque QUERO votar. Faço questão, veja só. Voltei a fazer questão! Então muito obrigada, Serra, por ter proporcionado essa sensação de que estou politicamente viva de novo, obrigada porque, graças ao que descobri sobre Dilma (repito, instigada por você!), vou comparecer à urna com alegria, esperança e com o nome dela exposto do lado esquerdo do peito.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
A falta que ela nos faz
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman tem uma séria de livros abordando o que ele chama de “liquidez” do mundo moderno: “Modernidade líquida”, “Tempos líquidos”, “Vida líquida”, “Medo líquido” e “Amor líquido”.
Líquido, todos sabem, é algo que escapa entre os dedos, que flui, escorrega, não se firma, não tem solidez. De todos os livros, li apenas “Amor líquido”. Mas, com a pretensão peculiar a uma nativa do signo de leão, vou falar sobre o que decidi chamar de elegância líquida.
A idéia de liquidez do amor foi construída pelo sociólogo com base na análise das relações atuais, de modo que a liquidez, em princípio, não seria uma característica imanente. Já quanto à elegância, eu diria que ela, por sua própria natureza, já é um tanto líquida. Afinal de contas, quem é elegante? Quem usa bolsa Prada? Quem veste Coco Chanel? Quem usa sapatos Louboutin? Quem sabe manejar diferentes talheres à mesa? A elegância é um jeito de ser, ou um estar? Alguém pode estar elegante hoje, e amanhã não? Para ser elegante tem que ser inteligente? Elegância se constrói ou, como dizem alguns, vem “do berço”?
Trata-se de um conceito bastante fluido. Uma das definições mais interessantes que já encontrei foi no dicionário on line priberam:
1. Gosto delicado no trajar, no falar, no adorno da casa, etc.
2. Graça, airosidade, delicadeza e distinção aliada à simplicidade e clareza.
Vê-se, portanto, que ela não se define por um único critério. Eu que o diga. Já fui empurrada e ignorada por senhoras que tinham cada peça do vestuário de uma marca famosa diferente; já as vi falando em um tom excessivamente alto e ignorando outras pessoas. E já conversei com serventes de pedreiro que demonstraram uma delicadeza ímpar. Mas é claro que também já encontrei senhoras e senhores vestidos com perfeição, e com a graça, a delicadeza e a distinção mencionados no dicionário. Não estou querendo dizer que ter dinheiro já exclui a elegância; digo apenas que não é fator determinante. Do mesmo modo a questão da formação escolar. Convivo com pessoas que não sabem ler, com outras que têm curso superior, outras ainda com pós-graduação. E não é possível estabelecer, de antemão, quem é elegante e quem não é.
Acredito que se trata de uma característica até certo ponto inata, ou melhor, alcançada por alguns com naturalidade e facilidade. Mas é, também, algo que se pode trabalhar. Semana passada li uma entrevista com a escritora Patrícia Melo, que gosta de inserir nos seus livros reflexões sobre a maldade, e ela disse que a maldade é inerente ao homem, e que ser bom é um exercício, é algo que se conquista. Creio que também a elegância é algo que se conquista. Um dos seus componentes, a simplicidade, por incrível que pareça, é algo muito difícil de alcançar (Clarice Lispector já disse: “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”). A distinção e a clareza também. Se fizermos uma operação matemática podemos ter, se não uma definição, um outro conceito que em muito se aproxima do conceito de elegância. Somando delicadeza com simplicidade e clareza, podemos obter como resultado...a educação. Elegância é algo muito ligado à educação. Não educação como um saber formal, mas como o saber tratar o outro, saber dizer “obrigada”, “com licença”, "por favor", “posso?”, “pois não”.
Na realidade, toda essa divagação a propósito da elegância começou quando eu estava caminhando na rua, voltando da minha aulinha de Yoga, e fui parada por uma senhora que vinha num daqueles carros enormes, tão comuns em Natal. Não entendo muito de carro, mas é impossível não perceber o quanto as pessoas aqui usam uns veículos grandes e chamativos. Como foi dito pelo antropólogo Roberto Damatta, no Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. E se esse carro é grande e potente, então você é o rei. Então essa senhora me parou para pedir uma informação. Eu estava de tênis, visivelmente vinha de alguma academia ou estava praticando exercício ali mesmo, na rua, e quem vem nesse ritmo não gosta muito de parar. Mas parei. Ela queria saber o endereço de um buffet, que ficava naquela rua. Eu disse que não sabia, mas que deveria ser dali para a frente, porque mais atrás eu assegurava que não existia nenhum. Ia complementar que poderia ser numa casa dois quarteirões adiante, mas fui cortada por ela própria, que disse um impaciente “ta, tá”, e arrancou. Será que atraio gente grossa, ou será que é porque eles estão dominando o mundo, em especial esta minha pequena aldeia? Também, quem mandou? Quem mandou ser uma reles e invisível pedestre?
E Natal é pródiga em gente assim. Felizmente escapam algumas pessoas, que sabem ser elegantes, e viva todas elas, que fazem desta cidade um lugar suportável.
Termino este texto/devaneio/desabafo cometendo, eu mesma, um ato de profunda deselegância com o maestro Tom Jobim, deturpando a letra de uma música dele para mandar um recado telepático para a motorista nervosinha que me abordou e que certamente jamais irá ler este texto: “se todos fossem iguais a você...que merda viver!!!”
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Um coração antes cheio de amor, hoje deserto (ou, menos poeticamente falando, por que, apesar de tudo, vou votar em Dilma).
Não, eu não esqueci dos escândalos do mensalão, Renan Calheiros etc, para citar dois dos mais recentes. Mas também lembro do Proer, do caixa 02 para reeleição de Fernando Henrique, da Sudene e de tantos outros escândalos da era FHC. Lembro ainda que nessa época tive dengue.
Uma das grandes diferenças é que o PSDB contava com Geraldo Brindeiro e depois com Gilmar Mendes, que ganharam o curioso apelido de “engavetadores-gerais” da república; ao contrário do que ocorre hoje, naquele período todas as falcatruas eram abafadas. Além disso, os tucanos sempre contaram com uma mídia bastante favorável, desde a TV até uma revista “clássica” e conhecida inclusive por muitos brasileiros que não sabem ler. Vale lembrar também que quando FHC assumiu a presidência, em 1995, foi logo extinguindo, por prevenção, a Comissão Especial de Investigação, instituída na época de Itamar Franco e que tinha como objetivo combater a corrupção.
Isso não justifica os desmandos do PT, mas mostra que a realidade não é tão simples, e não dá mais para separar sonhadoramente os bandidos dos mocinhos; a corrupção não foi criação do PT. O impacto de tudo que acontece é maior quando se trata do PT porque esse foi um partido que durante anos se arvorou no papel de defensor absoluto da ética, discurso que se revelou totalmente furado. Fui uma utópica defensora do PT durante alguns anos; hoje não o defendo mais com a confiança de antes, mas vejo que é preciso adotar uma espécie de política de redução de danos: entre o projeto político do PT e de Dilma e o do PSDB e Serra, qual devo escolher? Em qual deles posso acreditar ao menos um pouco?
Não é tarefa fácil. Dilma é antipática e sua candidatura no início me pareceu um tanto forçada. Já que Palocci, Dirceu e companhia ltda estavam queimados, era preciso encontrar um nome ainda intacto, e Dilma foi a saída pela tangente. Também não aprecio o vice, senhor Michel Temer, do PMDB, que na verdade já foi um grande articulador da campanha de FHC. Opa, mas como assim? Assim mesmo. Ele era do lado de lá. Pra mim, a escolha de Michel Temer foi uma costura política muito mal feita. Lula também não é mais “o cara”. Não o perdôo pela omissão, pelo sorriso ao lado de Renan Calheiros, pela defesa de Sarney, dentre tantas outras coisas.
Mas, apesar de tudo isso, decidi votar em Dilma neste segundo turno.
Porque Serra, com sua cruzada religiosa e familiar, não dá. Isso é baixaria e é chamar o eleitor de idiota. Porque, falando em vice, Serra tampouco se sai melhor (quem era mesmo Índio da Costa? Eu não conhecia, nunca tinha ouvido falar. É um rapazinho falante e conservador, que acha totalmente sem noção comparar a inocente “cervejinha”, que mata milhões ao volante, com outras drogas. Que adoraria chegar aos locais prendendo todo mundo). Porque Serrinha não é tão ficha limpa assim. Ele foi condenado por improbidade administrativa, mas seu amigo Gilmar Mendes (sempre ele) conseguiu arquivar o processo. Exatamente a mesma coisa que aconteceu com outro ex-ministro de FHC, Ronaldo Sardenberg. Porque Serra tem consciência de que o governo do PSDB foi ruim para o país, tanto que buscou durante a campanha dar a idéia de continuidade e silenciou sobre os “grandes feitos” de Fernando Henrique. Porque o governo dos tucanos é bastante favorável às privatizações. Porque FHC quis acabar com as escolas técnicas (e Serra, agora, em seu programa de campanha, incluiu a ampliação dessas escolas). Porque os tucanos sonhavam extinguir a justiça do trabalho (e com isso institucionalizar a servidão). Porque na era FHC grassou a flexibilização das relações de trabalho, nome bonito e “cool” para o que eu chamo de precarização. Porque Serra não convence quando fala em diminuir a terceirização (afirmação dele no último debate, na Band). Porque no governo FHC muitas causas sociais foram tratadas como questão de polícia, bem ao gosto do Sr. Índio da Costa.
É engraçado como partidários de Serra desqualificam o voto de pessoas que moram no nordeste e ganham o bolsa-familia, quando o próprio Serra é favorável em suas propostas à continuação do que se chama jocosamente de “bolsa-esmola”. Aliás, Serra reivindica a paternidade do benefício para o governo FHC. Quanto ao governo Lula, que Dilma promete continuar, os avanços sociais são inegáveis. Veja-se o que diz Ivo Patarra, no livro "O chefe" em que espinafra Lula e conta detalhes do mensalão:
Da mesma forma que não se pode deixar de reconhecer os avanços das políticas sociais responsáveis por tirar milhões de brasileiros da pobreza nos dois governos do presidente Lula, não há como minimizar o expressivo crescimento econômico e o incremento da inserção do Brasil no cenário mundial, também registrados no período.
Isso foi dito por um oposicionista ferrenho, um anti-Lula!
Serra, no debate da Band, mencionou a queda de 70% dos índices de homicídio em São Paulo, mas esqueceu de dizer que isso se deve em grande parte à geração de empregos e à redução do fluxo migratório, o nosso velho e conhecido "êxodo rural”. São Paulo, tradicional destino dos nordestinos sem esperança, não é mais a mesma, já não atrai tanto assim. A violência nas capitais se reduziu porque agora há perspectivas no interior.
Eu lamento bastante que o PT tenha destruído meus sonhos utópicos; já viajei quase 600 km para votar em Lula, vestida de vermelho, carregando uma mala vermelha e um coração cheio de amor. Hoje não faria isso, não faria esse sacrifício pra votar em Dilma. O coração está deserto. Mas o cérebro precisa funcionar. Como toda brasileira, tenho, sim, memória curta, por isso há dias ando pesquisando, lendo, prestando atenção, relembrando. E criando forças para finalmente poder dizer em alto e bom som: vou votar em Dilma.
E afinal de contas vamos combinar: Dilma é antipática, mas Serra é um chato. Foi ele quem sancionou a lei anti fumo em São Paulo, que proíbe o cidadão de fumar em qualquer ambiente fechado e estimula o denuncismo. Isso me lembra situações que não vivi, mas sobre as quais li bastante. A sentença do Juiz da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, que chegou a suspender os efeitos dessa lei, fala um pouco sobre isso:
"...Ressuscita-se a figura do “guarda de quarteirão”, característica dos regimes totalitários e de triste memória para a maioria de nós: sob invocação dessa famigerada lei, em todos os lugares (inclusive áreas de condomínio e sanitários) se encontram afixadas placas enormes não apenas informando a proibição, mas estimulando o denuncismo por telefonema gratuito; todas as pessoas, “amigos” e inimigos, sentem-se guardiães da moralidade e no dever de denunciar o fumante; as que detêm algum poder “ampliam” a restrição, a seu bel prazer, “por conta da lei”."
Como alguém com esse nível de conservadorismo, com posições falsamente religiosas sobre aborto, pode tratar abertamente de um dos mais sérios problemas de saúde pública do país, que é o uso de drogas, em especial o crack?
Não ao conservadorismo, à cruzada pseudo-religiosa, ao engavetamento, à precarização das relações de trabalho. Sim à esperança, um tanto estraçalhada, porém ainda existente, de um país mais justo.
PS: título inspirado em Fagner e Zeca Baleiro: "Meu coração vive cheio de amor e deserto..."
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Paulistanices em quatro tópicos
1. Simplesmente eu, Clarice Lispector. Tive a felicidade de assistir a essa peça, com textos de Clarice adaptados e interpretados por Beth Goulart, que ora encarna a própria escritora, no divã, em entrevistas e em meras citações, ora se transforma em algumas personagens de dois de seus livros, "Perto do coração selvagem" e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", além dos contos “Amor” e “Perdoando deus”. Pra quem não conhece Clarice Lispector a peça é muito interessante e certamente estimula a leitura. Os textos falam de deus, de amor, de dúvida, contradição... enfim, são de uma riqueza capaz de deleitar mesmo quem não tem familiaridade com a escritora. Pra quem já gosta dela, bem, aí eu diria que a peça é simplesmente perfeita. Os trechos foram muito bem escolhidos, a ligação entre a fala de Clarice e a de seus personagens é de uma precisão espantosa, formando um todo coerente e absolutamente encantador. A atriz, então, é um show à parte. A elegância, a expressão corporal, a voz (ela canta e dança na peça), a imitação da língua presa de Clarice...tudo diz que Beth Goulart mereceu os prêmios que já ganhou com essa apresentação. A propósito, lembrei-me dos atores que começam na rede “grobo”, geralmente em “Malhação”, achando que ser ator é decorar um texto e fazer caras e bocas diante da câmera. Quanta diferença que é ver uma atriz completa em ação. Já gostava dela, achava simpática , mas agora, decididamente, virei fã.
2. Scorpions, a turnê de despedida. Não pude ir para o Sun Rock em João Pessoa, mas claro que não ia perder os sessentões pinotando no palco pela última vez. Estava um frio absurdo e só depois de uma hora e meia na fila (junto com milhares de pessoas) vieram avisar que...estávamos na fila errada! E só avisaram ao pessoal do final, e todos saíram correndo feito loucos, de modo que a entrada no Credicard hall foi totalmente atrapalhada. Mas o show fez com esses maus momentos fossem superados. Belíssima apresentação, os telões estavam perfeitos, mostrando a trajetória da banda, as capas dos discos, e até a queda do muro de Berlim, quando tocaram Wind of Change. Eu ouvi Wind of Change pela primeira vez quando tinha entre treze e catorze anos (haja tempo...) e até hoje essa música me emociona e me faz voltar àquela época. Lembro que eu estava sentada lendo "Capitães de Areia" e ouvindo rádio; a música começou a tocar, eu parei pra ouvir e passei minutos encantada, querendo segurar o tempo naquele momento exato, até porque era muito difícil comprar discos e de certo modo eu dependia das FM´s...Lembro também de um professor de inglês que deu a letra dessa música numa aula, e ouvimos e cantamos várias vezes, e pra mim foi um êxtase.
E claro que eles tocaram Holiday, Rock you like a hurricane, Still loving you, dentre outras clássicas, mas um excelente momento foi também com uma canção do disco novo: The best is yet to come. Enfim, uma super despedida, que vai deixar saudade.
3. As paulistanas. Fez um frio danado na cidade e as mulheres de São Paulo estavam muito bonitas. Uma explicação aos homens: como diz Rita Lee, mulher é bicho esquisito. Nós olhamos muito mais para outras mulheres do que para os homens, porque gostamos de analisar, medir, avaliar, comparar, invejar...é uma apreciação estética, analítica, entendem? Pois bem, olhei muuutio para as belas roupas que elas usavam nesse frio. Não sou ligada nessa coisa de moda, desfiles, acho um saco, mas gosto de ver as pessoas nas ruas, no metrô, e aqui em Natal não dá pra fazer isso, primeiro porque quase ninguém anda pelas ruas. Não temos o hábito de caminhar ao ar livre. Segundo porque não tem metrô! E depois porque esse calor acaba com qualquer produção. E o que se vê nos shoppings é na maioria das vezes mera transposição do que estava nas capas de revistas e vitrines, sem muita criatividade. Uma coisa insossa, uma coisa bem...Natal!
Então, a avenida paulista é uma beleza para olhar as roupinhas e combinações. Acho que o modo de se vestir das paulistanas traduz muito a diversidade cultural que existe lá, essa coisa bem urbana e meio solitária. Vi muitos trench-coats, casacos em geral, meia calça, sapatilhas fofas, botas, sobreposições, só roupa que eu adoro! A verdade é que no frio as mulheres têm mais classe, mais elegância, ficam mais misteriosas e com um ar blasé, bem mais legal do que essa coisa oferecida do short super curto com sandália alta, hit aqui em Natal.
4. Saudade. Se me dessem um saco gigante de pipoca, uns sanduíches e coca-cola eu passaria um dia inteiro no Museu da Língua Portuguesa, vendo filminhos, brincando de formar palavras e lendo Fernando Pessoa. São Paulo é o que há de bom!!! Queria mais...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
O mundo está ao contrário e ninguém reparou...
Na revista "Isto é" desta semana saiu o trecho de uma entrevista com o antropólogo Roberto DaMatta, sobre seu mais novo livro, que trata do comportamento do brasileiro no trânsito. O antropólogo é conhecido por analisar e desvendar o país com base no estudo de temas como carnaval, futebol e o famoso “Você sabe com quem está falando?”. Vale a pena ler:
"...nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da nossa incapacidade de sermos uma sociedade igualitária; de instituirmos a igualdade como um guia para a nossa conduta. Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, no qual alguns podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. Em casa, nós somos ensinados que somos únicos, especiais. Aprendemos que nossas vontades sempre podem ser atendidas. É o espaço do acolhimento, do tudo é possível por meio da mamãe. Daí a pessoa chega na rua e não consegue entender aquele espaço onde todos são juridicamente iguais. Ir para a rua, no Brasil, ainda é um ato dramático, porque significa abandonar a teia de laços sociais onde todos se conhecem e ir para um espaço onde ninguém é de ninguém. E o trânsito é o lado mais negativo desse mundo da rua. É doentio, desumano e vergonhoso notar que 40 mil pessoas morrem por ano no trânsito de um país que se acredita cordial, hospitaleiro e carnavalesco. No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. Ou superior a outro motorista porque tem um carro mais moderno ou mais caro. O motorista não consegue entender que ele não é diferente de outro motorista, do pedestre, do motorista de ônibus. Que ele não tem um salvo-conduto para transgredir as leis. No Brasil, obedecer à lei é uma babaquice, um sintoma de inferioridade. Quem obedece é subordinado porque a hierarquia que permeia nossas relações sociais jamais foi politizada. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em que não houve investimento sério no transporte coletivo e onde ainda impera o “Você sabe com quem está falando?”.
O texto é de uma precisão fantástica. E seus princípios se aplicam não só ao trânsito, mas à vida cotidiana como um todo. Igualdade e cordialidade (a autêntica, não a de conveniência) realmente não são o nosso forte. Oscilamos entre a subserviência com os que podem mais do que nós e o massacre dos que podem menos. Acho que já disse isso aqui, mas eu não vejo a vida melhor no futuro; o muro que nos rodeia não é baixo e não é só de hipocrisia. É de falta de educação, falta de valores, princípios, respeito e, por que não dizer, de noção. Ultimamente tenho tido a impressão de que quase tudo está ao contrário do que deveria ser. As pessoas esbarram em você e não pedem desculpa, não pedem por favor, com licença, não dizem obrigado. Isso quando não são truculentas e francamente desagradáveis. E, claro, acreditam que tudo se resolve com dinheiro (quem pode pagar pode tudo).
Nesse feriado, por exemplo, um rapaz que tinha encontrado um cãozinho perdido na rua falou comigo e com meu marido (já que temos cachorro) para saber se não conhecíamos o dono. Não conhecíamos, mas colocamos anúncio na internet, e avisamos a alguns veterinários. Eis que uma mulher me liga dizendo-se a dona. Na hora de devolver o pobre do cãozinho, ele não se mostrou nada feliz em ver a dona – o que não é um bom sinal- e ela também pouco ligou pra ele. Pior: ainda foi grosseira com o rapaz, não disse nem obrigado e virou e perguntou, como imagino que um cliente pergunte a uma prostituta, com as calças na mão, levantando da cama: “e aí, quanto foi o serviço?”. E mandou que a filha (suponho que fosse filha) “acertasse" o preço conosco.
Como minha atividade profissional não é exatamente a de caçar cães perdidos para receber alguma recompensa, disse que não era nada, que não havia serviço nenhum; a mesma coisa disse o rapaz que havia levado o cachorro pra casa e até aquele momento tinha estado passeando com ele na praça, com o maior carinho.
No maravilhoso mundo mágico de Lisandra (a terra do Sempre) é permitido não gostar de cachorro, mas é presumido que quem se dispõe a criar o faz porque gosta do bichinho; e nesse mundo, quando alguém perde seu cãozinho, fica feliz se ele é recuperado intacto e diz um emocionado “obrigado” a quem o salvou de atropelamento, cuidou dele e se preocupou em anunciar para encontrar o dono.
E nesse maravilhoso mundo mágico de Lisandra o que Roberto Damatta falou seria ficção, seria parte de um livro que poderia se chamar “Adeus à terra do nunca”
PS: o título é trecho da letra da música "Relicário", de Nando Reis
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A coisa mais fina do mundo
A mãe de Adélia Prado achava estudo a coisa mais fina do mundo, mas Adélia discordava:
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Eu também acho que o sentimento – um amor que transcende sua própria semântica - é uma coisa muito bonita e muito fina. Da mesma forma a bondade e o perdão. Mas pra mim a coisa mais fina do mundo é o respeito. O respeito e sua filha dileta, a tolerância.
Há cerca de 20 anos um professor de história do meu colégio escreveu no quadro negro uma frase mais ou menos assim: “Posso não concordar com uma só palavra do que disseres, mas lutarei a vida inteira pelo direito que tem de dizê-las”. Ele disse que essa frase era de Voltaire, filósofo iluminista. E isso faz vinte anos, mas eu nunca esqueci, porque foi uma das coisas mais bonitas que eu já li. Não concordar com o outro, achar que ele está errado, mas respeitar o direito que ele tem de se expressar. Respeitar é saber olhar para o outro, é saber enxergar essências. O respeito é a base de tudo, até mesmo do sentimento. Ele pode estar presente tanto num beijo quanto na discussão, numa crítica e num elogio. É uma coisa muito fina porque por definição é a base do amor e da amizade, mas pode existir até entre dois inimigos.
Houvesse mais respeito e teríamos menos violência, entre países e entre pessoas. Houvesse mais respeito e haveria mais sentimento.
Adélia Prado achava sentimento a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o respeito.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Odeio mesinhas
No fim do mês haverá show de Roberta Sá no Boulevard e eu não vou. É que gosto dela, mas odeio mesinhas.
Aqui em Natal existe essa moda de venda de mesas em todos os shows. Em primeiro lugar, é muito inconveniente: se você quiser ir ao show só, não dá. A não ser que queira pagar por quatro lugares e ficar lá com cara de tacho. Então tem que sair à cata de outras três pessoas ou outro casal para dividir. Mas o pior mesmo é ver, no meio do show, o povão enchendo o bucho de filé com fritas enquanto o artista se apresenta. Como se estivessem numa churrascaria, ouvindo seu Dedé dos teclados. Acho uma falta de respeito. Na última vez em que estive no Boulevard foi pra ver Ney Matogrosso, que eu adoro, mas um garçom ficava passando com bandejas o tempo inteiro na minha frente, até que eu montei uma barricada pra que ele não passasse mais. Tá, coitado do garçom, não tem culpa, estava só fazendo o serviço dele, mas eu é que não ia pagar por isso. Estava lá pra ver a performance (e que performance) de Ney, e não o vaivém de um prato de batata frita. Além disso, o Boulevard é terrível, não tem acústica. É casa de recepção, e não de shows.
Recentemente houve show de uma banda cover dos beatles em outra casa de recepções, o La mouette, e também só havia mesas. Não fui. Porque ou você é o primeiro a saber e consegue pegar a mesa em frente ao palco, pagando caro, ou fica lá no fundão, sem conseguir enxergar a banda, e nesse caso acho muito mais econômico ficar na minha casinha ouvindo Beatles – original.
Outro dia fui também pra um festival de jazz, e lá estavam as malditas mesinhas e cadeiras de plástico brancas, ainda por cima todas vestidas com uma sainha, tipo aquelas usadas nos buffets, em casamentos. Parecia que eu tinha ido a uma recepção de casamento e não sabia.
Não nego: sou radical. Pra mim, show em ambiente fechado só serve de duas maneiras: sentada confortavelmente na cadeira de um belo teatro, curtindo tranquila e comportada uma boa apresentação, ou de pé, na pista, tomando uma caipirinha ou uma dose de vodka (ou cerveja, vai do gosto do cliente), dançando bastante se o show for legal ou conversando e falando mal das bandas se estiver ruim (ehehe, como no recente Festival Mormaço).
Odeio mesinha em show. Mesinha é pra restaurante, boteco, barzinho (com música ambiente ou mesmo com uma banda, dependendo do som) e, claro, recepção de casamento.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Medo, medo, medo.
Congresso internacional do medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
(Carlos Drummond de Andrade)
Temos muito medo. Medo do assalto na esquina, do seqüestro-relâmpago, do chefe, do envolvimento dos filhos com drogas, das brigas no trânsito. De perder o emprego, de ficar endividado. Medo do escândalo. Medos, digamos, sociais. Mas também temos medo da solidão, de não sermos aceitos, de sermos traídos e abandonados. Medo de mau-olhado. Medo terrível de câncer. Medo de morrer. E não só morrer, mas também de ir para o inferno. Medo de não ser uma boa pessoa. Medo dos próprios pensamentos. Medo do que os outros vão falar ou pensar. Medo de magoar. Medo de dizer “não”. De dizer “basta”. De contrariar. Vamos chamá-los de medos interpessoais.
O medo é essencial para a sobrevivência. Por força dele, o hipotálamo ativa as reações de luta ou fuga. O problema é quando a reação de fuga é a única escolhida, por anos a fio. Torna-se um vício.
Ter coragem não significa necessariamente agir com agressividade, nem falar o que bem entender quando bem entender. Não significa inconseqüência; ter coragem é dominar a arte de impor limites e exigir respeito. Isso é difícil, pois fomos alimentados com um pegajoso e falsamento nutritivo medo. Uma postura mais assertiva é a base de uma existência aberta e livre de amarras. Deveria ser um dos propósitos, um dos objetivos da vida. Para que nos nossos túmulos nasçam flores vermelhas e alegres.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O gosto das coisas
Estava no supermercado ouvindo uma música do REM, uma de minhas bandas internacionais preferidas, e me controlando para não sair dançando em meio às frutas e verduras. Voltei pra casa ouvindo a mesma música, umas três vezes seguidas, numa alegria absolutamente estranha pra quem tem à frente a ingrata tarefa de guardar as compras, e então me dei conta do motivo: é que a música em questão tem gosto de um passeio a pé pela cidade, de férias...tem gosto de um encontro com os amigos, tem gosto de...liberdade!
E existem outras que têm gosto de praia (Winter in the Hamptons, de Josh Rouse), muitas que têm gosto de solidão, fossa e desespero (que tal... One Day The Sun Will Shine On You ou Still Got The Blues, de Gary Moore? Ou ainda Love Hurts, de Nazareth?)
Mas não só as músicas têm gosto. Noite fria tem gosto de vinho. Um bom livro tem gosto de viagem (e Paulo Leminski tem gosto de aventura). Tenho um quadro na minha casa que tem gosto de festa. Recife tem gosto de saudade. Natal tem gosto de axé e “forró elétrico” (afe...). Carnaval, pra mim, não tem jeito: ou tem gosto de frevo, ou de cinema e filminho com pipoca em casa. Certos perfumes têm gosto de beijo. Alguns cortes de cabelo têm um indefectível gosto de passado. Existem roupas que são impregnadas de um gostinho chato de trabalho. Peixe frito na peixada da comadre tem gosto de caipirinha. Domingo à noite tem gosto de preguiça. Sexta à tarde tem gosto de expectativa. E viver tem que ter um gostinho de leveza e descontração. :)
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