terça-feira, 23 de novembro de 2010

Elogio da inutilidade

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. (...)  Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. À duração de existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.
(Clarice Lispector)

Crianças adoram coisas inúteis. Brincar, gastar o tempo à toa. São horas correndo para lá e para cá, horas ninando bonecas, ou simplesmente cantarolando uma musiquinha enquanto se balançam numa rede ou num pneu velho.  Ouvem “estorinhas” dos pais pelo mero prazer de ouvir; algumas até escrevem sua própria estórias, não para vender livros, mas para se divertir. Quando aprendem a ler, começam a soletrar o que vêem pela frente: placas, letreiros. O prazer de saber, de descobrir. Depois começam a ler gibis e livros. Não lêem para aprender; lêem para mergulhar na história. Mas à medida que vão crescendo, o utilitarismo vai dominando suas vidas. Não brincam mais; lêem quando precisam estudar; estudam para passar de ano; entram na universidade pensando em se formar, e se formam pensando em trabalhar. Já trabalhando, passam a ouvir música apenas no caminho para o trabalho, enquanto enfrentam um ônibus lotado ou um trânsito estagnado. Casam para constituir família, ou para driblar a solidão; lutam para manter o casamento; vão morar nas suas casas ou apartamentos de "arquitetura funcional"; controlam com rigor o próprio tempo; desdobram-se para alcançar metas na vida profissional e também na pessoal. Rezam para ter o conforto de uma outra vida; e sempre se esforçam para acreditar que tudo isso tem um sentido.


Hoje diversos movimentos pregam a necessidade da pausa, do ócio, e até mesmo da preguiça. Alguns desses movimentos terminam tendo um viés utilitarista, pois procuram justificar suas afirmações: não pregamos o ócio pelo ócio, mas o ócio que, no fim das contas, vai aumentar a produtividade. 

Não é a esse ócio que faço aqui meu elogio: hoje eu quero elogiar é a preguiça mesmo, o tempo gasto “inutilmente”, com um livro que você jamais vai utilizar no trabalho, com um balanço na rede ao som de uma música que vai te lembrar a infância, com uma conversa nonsense  com o seu amigo mais maluco (se é que você tem algum). Uma pausa para contemplar o caos. 
Porque a nossa vida é permeada de inutilidade e de falta de sentido; Albert Camus fala sobre o absurdo de viver, sobre a repentina descoberta da “desnecessidade” e da estranheza do mundo:

“acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo”. Um belo dia, surge o “por quê”. 

E quando esse “por quê?” surge, é bom estar preparado para a possibilidade de não haver resposta clara e certa. Se nos dispusermos a sair da nossa zona de conforto psicológico, se deixarmos de lado o ritmo frenético da vida diária e lançarmos um olhar mais profundo sobre nós mesmos, podemos ver que fora da crença religiosa, da fé e da esperança, não há de fato um "porque". 

Os poetas, sempre na vanguarda da expressão dos sentimentos, sabem disso:

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
(Drummond)

Talvez não exista um sentido maior, presente em alguma grande meta ou algum grande feito. Mas isso não significa desespero ou desilusão. Significa que as crianças podem estar certas. A resposta ao “por quê” pode estar naquele sorriso banguelinha do filho ou do sobrinho pequeno, pode estar nas horas “perdidas” enquanto se ouve música, no tempo “gasto” conversando bobagem com um amigo ou simplesmente naquela pausa para ver o pôr do sol, por mais clichê que isso possa parecer. 


Obs: Pôr-do-sol em João Pessoa, na praia do Jacaré, em 20.11.2010. Acredite, é muito mais lindo ao vivo do que na foto!!!

2 comentários:

Nira disse...

Que post.... sem palavras!

Anônimo disse...

Gostei. Faz todo o "sentido"! :-)