Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de março de 2012

Roteiro para um sarau

Algumas vezes estou lendo uma poesia e ela me faz lembrar uma música, ou vice-versa. Daí surgiu a idéia de organizar um sarau combinando músicas com poesias, no estilo dos shows de Maria Betânia.  
É impossível pra mim, por exemplo, ouvir a belíssima música "Socorro", com letra de Alice Ruiz, e não lembrar da poesia "Parada Cardíaca", de...Paulo Leminski!  Casamento perfeito, não??


PARADA CARDÍACA 
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Por onde andará Sasha?


O que ela terá feito da vida? Onde estará morando, por onde andará no dia do show? 
Essa foi a pergunta que Alex e Bennie Salazar fizeram no último capítulo do livro “A visita cruel do tempo” (não, isso não é um Spoiler). Tal pergunta provavelmente irá conduzir o leitor a refletir, com um leve sorriso, sobre a sua própria vida, e talvez ele tente imaginar por onde andará aquele garoto/garota que era seu melhor amigo nos tempos da escola, ou ainda aquela moça/rapaz (como era mesmo o nome?) que namorou no verão de dez ou quinze anos atrás. 
Essa evocação de pensamentos é, em minha opinião, um dos maiores méritos do livro “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan. 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Algo de novo no front

“No hay felicidad mas pura que la felicidad de cantar"
(Gabriel Garcia Marquez, na introdução do disco Pablo Querido, de Pablo Milanes)

Quando eu era pequena, sonhava ser cantora. Como não nasci dotada dos equipamentos vocais adequados (ou seja, não canto porcaria nenhuma), desisti da idéia, por mim e pelos potenciais ouvintes. Então só me restou ouvir. O que, aliás, não é pouco, pois, complementando a frase de Garcia Marquez, citada logo acima,  poucas felicidades são também tão puras quanto a de escutar uma boa música. 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Para além de Roberta Sá e Marina Elali

Aqui em Natal muitas vezes as discussões sobre cantores/músicos locais é polarizada entre Marina Elali e Roberta Sá. Houve um tempo em que existiam quase que torcidas organizadas, com comparações e até xingamentos. Confesso que fazia parte da torcida organizada de Roberta Sá, primeiro porque gosto bastante do repertório dela, da postura no palco e da voz. Roberta Sá é linda, elegante e muito talentosa. “Lavoura”, cantada com Ney Matogrosso, é qualquer coisa muito perto da perfeição:

Amar é ter um pássaro pousado no dedo

Certa manhã tive de súbito a lembrança de ter passeado por uma rua  com minha akita e de ter visto, na calçada, uma árvore totalmente desfolhada e repleta de pássaros.  Fiquei sem saber ao certo se era uma lembrança falsa (resquícios de um sonho, talvez) ou se eu realmente havia passado nesse local. No dia seguinte fui tirar a dúvida, e lá estava ela: imponente, apesar da ausência das folhas. Galhos e mais galhos retorcidos. Parecia serena, transmitia uma estranha sensação de perenidade. E nos galhos, dezenas de passarinhos.  A árvore, então, não havia sido sonhada. Ela existe e fica numa rua por trás da minha casa.  Eu adoro passar por lá no finalzinho da tarde, quando os pássaros estão alvoroçados, cantando e se movendo bastante, indo e voltando, pousando e voando. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um cara gente fina

Antigamente eu tinha certo preconceito com biografias; achava que eram um gênero “menor”, uma perda de tempo, e, além disso, achava que eram livros muito chatos. Esse preconceito foi nocauteado pela leitura de “O bandido que sabia latim”, a biografia de Paulo Leminski. Depois veio "Tête à Tetê", de Hazel Rowley, espécie de biografia da famosa relação amorosa e intelectual de Jean Paul Sartre com Simone de Beauvoir. Em seguida me encantei com o maravilhoso trabalho de Benjamin Moser: "Clarice, uma biografia". Um livro de mais de seiscentas páginas que você quer ler de um fôlego só, e que traz luzes e mais luzes para a compreensão da obra de  Clarice Lispector.  Depois li a biografia de Sérgio Sampaio, sobre a qual já falei logo abaixo. E eis que acabei agora “Minha fama de mau”, a biografia do Tremendão Erasmo Carlos. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Don't give up the fight

(Carta para uma garota qualquer, que poderia ser eu mesma)

Esqueça o que você aprendeu ao longo dos anos.  Nada é como te disseram. O mundo não é justo, as coisas não são fáceis, os méritos não são reconhecidos, os sonhos nem sempre se realizam, a verdade nem sempre prevalece, a amizade verdadeira não sobrevive a toda e qualquer adversidade, o amor não é eterno. Veja quantas pessoas infelizes à sua volta: aquele casal que está junto há trinta anos e se alimenta das brigas e picuinhas; o que os une é simplesmente a satisfação em importunar o outro, em tornar a vida dele miserável. Veja aquela mulher do interior que sempre acreditou que o casamento é o que há de mais importante na vida de uma mulher...e ELA não se casou.  Aquele homem que nunca soube fazer nada a não ser trabalhar, que ao final da carreira se aposenta e é totalmente esquecido e não sabe mais o que fazer com essa coisa chamada tempo.  Aquela empresária que passou dos 40, tem grana sobrando, só anda impecável, vive fazendo tratamentos estéticos e parece sempre entusiasmada e de bem com o mundo, mas que não suporta um único minuto de solidão e é incapaz de gerenciar a própria dor.  E aquelas pessoas que remoem o ódio. As que não suportam ver a alegria alheia. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um dom de causar conseqüências

Um amigo e “fornecedor cultural” me deu ano passado um MP3 com alguns discos de Sérgio Sampaio, cantor/compositor que eu não conhecia. Eu simplesmente parei ao ouvir ”Roda Morta - reflexões de um executivo”. 
“Esse cara leu a minha mente”. Foi o que pensei. A melodia, a voz envolvente e a letra que parecia ter sido criada para mim; na realidade, acredito que a letra pode ser consagrada como o Hino Oficial dos Servidores Públicos e outros trabalhadores que se encontrem com o saco lotado: “a sordidez do conteúdo desses dias maquinais”, isso define boa parte dos dias.
Então fiquei fascinada e quis saber tudo sobre Sampaio. E eis que me chega às mãos, pelas mãos de outro amigo, o livro “Eu quero é botar meu bloco na rua – A biografia de Sérgio Sampaio”. Acabei de ler ontem à noite.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Viva!!!

O REM está com disco novo: Collapse Into Now.
Em 2009 fui para o show do disco Accelerate, de longe um dos melhores shows que vi nos últimos tempos. 
Ok, o REM continuar produzindo coisas boas não é novidade; eles SÃO bons! Novidade é o Michael Stipe aparecer nesse clipe de divulgação assim...assim, charmosão e quase bonito!
Uns quilinhos a mais fizeram um bem danado a ele!


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

The show must go on

Caros e parcos (eu disse pArcos) amigos que freqüentam este blog. 
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Não acreditem. Eu sou a prova de que isso não é verdade. Desde o ano passado que raios e mais raios têm incidido sobre a minha pobre cabecinha. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

A leve impressão de que já vou tarde

Guia musical - nacional - para o fim de um relacionamento

Existe um grande preconceito com o que se chama de "brega", seja o gênero musical em si, sejam as músicas melosas, que são adjetivadas de modo pejorativo. Porém muitas músicas são classificadas como bregas apenas porque falam do sentimento de modo simples, sem muitos refinamentos, e levam o sofrimento às últimas conseqüências. E a verdade é que algumas são muito bonitas, e embalam o choro como poucas:

The joke was on me

(guia musical para o fim de um relacionamento)

As músicas definitivamente fazem parte da vida, de um modo muito especial e marcante. Algumas lembram a infância, outros são a cara de algum amigo ou amiga. Casais costumam ter a sua música. E algumas marcam indelevelmente o fim dos relacionamentos.
Todo final é doloroso. E a duração desse processo vai depender de uma série de fatores: a sua idade, a sua experiência com a própria dor, o nível de desgaste da relação, os motivos pelos quais ela chegou ao fim e, claro, o quanto você gostava dele ou dela. Com o tempo você vai aprendendo a respeitar cada fase, e se não tiver tanto medo assim da solidão e de si mesmo, vai aprender quase que a contemplar o luto. 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma pausa de mil compassos

Paulinho da Viola, numa de suas belas canções, diz que quer uma pausa de mil compassos, porque vai fazer um “samba sobre o infinito”. Sempre que ouço essa música penso nos períodos sabáticos. A enorme pausa para investir em interesses pessoais, sair totalmente da rotina, fazer uma reavaliação geral. Acredito que isso é essencial, e um dia ainda vou fazer algo do tipo. Não são simples férias, não dá pra reavaliar sua vida em 30 dias. É algo mais profundo e com duração maior; é como sair de você, da pessoa que você está acostumado a ser, transportar-se para outra realidade e, assim, desvinculado dos costumeiros padrões, descobrir novas aptidões, recuperar sonhos, enfim, conhecer-se um pouco mais. Não é à toa que Paulinho da Viola quer essa pausa tão grande: para fazer um samba sobre o infinito, ele precisa de tempo e de paz. 
Um dia ainda saio pelo mundo para ter essa pausa. Dido tem uma música bem legal que também fala um pouco sobre isso, sobre essa sensação de “não-pertencimento” que vem de vez em quando, e essa necessidade de reencontro: life for rent. Seria muito interessante  poder “alugar” a vida, deixar um substituto trabalhando em seu lugar, cumprindo a rotina, encarando o cansaço, reclamando da falta de tempo.... E, claro, depois voltar e encontrar tudo certinho!
Enquanto meu período sabático não vem, fico muito feliz em tirar uma semana de férias, a partir de amanhã!
Não vai dar pra fazer um samba sobre o infinito, mas já está valendo!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Paulistanices em quatro tópicos

1. Simplesmente eu, Clarice Lispector. Tive a felicidade de assistir a essa peça, com textos de Clarice adaptados e interpretados por Beth Goulart, que ora encarna a própria escritora, no divã, em entrevistas e em meras citações, ora se transforma em algumas personagens de dois de seus livros, "Perto do coração selvagem" e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", além dos contos “Amor” e “Perdoando deus”. Pra quem não conhece Clarice Lispector a peça é  muito interessante e certamente estimula a leitura. Os textos falam de deus, de amor, de dúvida, contradição... enfim, são de uma riqueza capaz de deleitar  mesmo quem não tem familiaridade com a escritora. Pra quem já gosta dela, bem, aí eu diria que a peça é simplesmente perfeita. Os trechos foram muito bem escolhidos, a ligação entre a fala de Clarice e a de seus personagens é de uma precisão espantosa, formando um todo coerente e absolutamente encantador. A atriz, então, é um show à parte. A elegância, a expressão corporal, a voz (ela canta e dança na peça), a imitação da língua presa de Clarice...tudo diz que Beth Goulart mereceu os prêmios que já ganhou com essa apresentação. A propósito, lembrei-me dos atores que começam na rede “grobo”, geralmente em “Malhação”, achando que ser ator é decorar um texto e fazer caras e bocas diante da câmera. Quanta diferença que é ver uma atriz completa em ação. Já gostava dela, achava simpática ,  mas agora, decididamente, virei fã. 

2. Scorpions, a turnê de despedida. Não pude ir para o Sun Rock em João Pessoa, mas claro que não ia perder os sessentões pinotando no palco pela última vez. Estava um frio absurdo e só depois de uma hora e meia na fila (junto com milhares de pessoas) vieram avisar que...estávamos na fila errada! E só avisaram ao pessoal do final, e todos saíram correndo feito loucos, de modo que a entrada no Credicard hall foi totalmente atrapalhada. Mas o show fez com esses maus momentos fossem superados. Belíssima apresentação, os telões estavam perfeitos, mostrando a trajetória da banda, as capas dos discos, e até a queda do muro de Berlim, quando tocaram Wind of Change. Eu ouvi Wind of Change pela primeira vez quando tinha entre treze e catorze anos (haja tempo...) e até hoje essa música me emociona e me faz voltar àquela época. Lembro que eu estava sentada lendo "Capitães de Areia" e ouvindo rádio; a música começou a tocar, eu parei pra ouvir e passei minutos encantada, querendo segurar o tempo naquele momento exato, até porque era muito difícil comprar discos e de certo modo eu dependia das FM´s...Lembro também de um professor de inglês que deu a letra dessa música numa aula, e ouvimos e cantamos várias vezes, e pra mim foi um êxtase. 
E claro que eles tocaram Holiday, Rock you like a hurricane, Still loving you, dentre outras clássicas, mas um excelente momento foi também  com uma canção do disco novo: The best is yet to come. Enfim, uma super despedida, que vai deixar saudade. 

3. As paulistanas. Fez  um frio danado na cidade e as mulheres de São Paulo estavam muito bonitas. Uma explicação aos homens: como diz Rita Lee, mulher é bicho esquisito. Nós olhamos muito mais para outras mulheres do que para os homens, porque gostamos de analisar, medir, avaliar, comparar, invejar...é uma apreciação estética, analítica, entendem? Pois bem, olhei muuutio para as belas roupas que elas usavam nesse frio. Não sou ligada nessa coisa de moda, desfiles, acho um saco, mas gosto de ver as pessoas nas ruas, no metrô, e aqui em Natal não dá pra fazer isso, primeiro porque quase ninguém anda pelas ruas. Não temos o hábito de caminhar ao ar livre. Segundo porque não tem metrô! E depois porque esse calor acaba com qualquer produção.  E o que se vê nos shoppings é na maioria das vezes mera transposição do que estava nas capas de revistas e vitrines, sem muita criatividade. Uma coisa insossa, uma coisa bem...Natal!
Então, a avenida paulista é uma beleza para olhar as roupinhas e combinações. Acho que o modo de se vestir das paulistanas traduz muito a diversidade cultural que existe lá, essa coisa bem urbana e meio solitária. Vi  muitos trench-coats, casacos em geral, meia calça, sapatilhas fofas, botas, sobreposições, só roupa que eu adoro!  A verdade é que no frio as mulheres têm mais classe, mais elegância, ficam mais misteriosas e com um ar blasé, bem mais legal do que essa coisa oferecida do short super curto com sandália alta, hit aqui em Natal. 

4. Saudade. Se me dessem um saco gigante de pipoca, uns sanduíches e coca-cola eu passaria um dia inteiro no Museu da Língua Portuguesa, vendo filminhos, brincando de formar palavras e lendo Fernando Pessoa. São Paulo é o que há de bom!!! Queria mais...



terça-feira, 14 de setembro de 2010

The John Lennon time capsule

Como parte da comemorações dos 70 anos de Lennon, três cápsulas do tempo, devidamente lacradas, serão preservadas para serem abertas em  9 de outubro de 2040, data que marcará o centenário de Lennon. As cápsulas conterão álbuns da carreira solo, além de mensagens dos fãs. Uma delas ficará no  Museu do Rock de Cleveland, em Ohio, e não se decidiu ainda o destino das outras duas. O projeto conta com o apoio de Yoko Ono. O site do projeto está aqui.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Até minh'alma se sentir beijada

Qual o elogio supremo, inesquecível, que faria uma mulher prender involuntariamente a respiração?
“Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão”
(Chico Buarque)
Impressão minha ou são as vitrines que ficam olhando enquanto ela passa? Ela passa, e se multiplica, e entorna poesia pelo chão. Se alguém tivesse me dito isso alguma vez, eu jamais esqueceria. Entornar poesia pelo chão, ao passar. Não se esquece uma coisa tão linda. É um elogio de tirar o fôlego. 
Falar em Chico Buarque às vezes é meio incômodo, porque soa como clichê. Porque ele é praticamente unanimidade, é considerado o maior letrista deste país, desvenda a alma das mulheres, etc etc etc. Mas me rendo ao clichê, porque ele traduz a mais pura verdade. Sou fascinada por algumas músicas dele, de outras apenas gosto. Deve ter alguma que não me agrade, mas agora nenhuma desse tipo me vem à mente. O fato é que às vezes escuto com um pouco mais de atenção algumas dessas de que apenas gosto e me surpreendo vendo que também são perfeitas. Assim foi com “as vitrines” neste fim de semana. 
Fiquei imaginando a história: eles são amigos. Talvez até trabalhem juntos. Ele a ama, ela não sabe, ou, se sabe, finge que não. É sábado à tarde, ela vai ao cinema com as amigas. O clima está ameno, e é uma cidade que ainda tem um cinema fora do shopping,  ao lado de uma daquelas galerias comerciais, típicas dos velhos centros. Ela sai da sessão, leve, frouxa de rir. Ele está lá, sentado, observando, à distância, como um vigia, com inveja e ciúme do mundo inteiro, que também pode observá-la à vontade, impunemente. E ela passa, distraída. E a cada passo...é como se exalasse poesia através do riso, através do movimento do corpo. E ele sai catando essa poesia, um servo, um arauto, que faz sua aclamação silenciosamente. 
Ah...
Mas  não vamos deixar assim, tão desconsolado e apaixonado e sedento esse pobre vigia. 
Vamos supor que em um belo dia ela perceba a presença dele. Um dia ele chega, "diferente do seu jeito de sempre chegar...” e então é notado, e faz o convite, e ela aceita, e os dois vão juntos ao cinema, e se divertem, e riem, e  se beijam, e viram amantes. 
E ela se surpreende, e o relacionamento dos dois é pura emoção. Ela se apaixona. E certo dia vai falar sobre ele pra uma amiga, e diz assim:
“O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada”
Não queria interromper a história e estragar o clima com um palavrão, mas putaquepariu. Até a alma se sentir beijada. Essa é uma das músicas mais sensuais que eu conheço. A alma se sentir beijada é de uma fineza de sensações e de sentimentos muito difícil de ser alcançada. É delicado e avassalador ao mesmo tempo. É de arrepiar. 
E não sei dizer se esse amor entre o vigia-voyeur e a bela moça que entornava poesia durou, ou se acabou logo, mas só sei que foi de uma intensidade tão grande e tão bonita e tão luminosa, “que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.”


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Odeio mesinhas

No fim do mês haverá show de Roberta Sá no Boulevard e eu não vou. É que gosto dela, mas odeio mesinhas.
Aqui em Natal existe essa moda de venda de mesas em todos os shows. Em primeiro lugar, é muito inconveniente: se você quiser ir ao show só, não dá. A não ser que queira pagar por quatro lugares e ficar lá com cara de tacho. Então tem que sair à cata de outras três pessoas ou outro casal para dividir. Mas o pior mesmo é ver, no meio do show, o povão enchendo o bucho de filé com fritas enquanto o artista se apresenta. Como se estivessem numa churrascaria, ouvindo seu Dedé dos teclados. Acho uma falta de respeito. Na última vez em que estive no Boulevard foi pra ver Ney Matogrosso, que eu adoro, mas um garçom ficava passando com bandejas o tempo inteiro na minha frente, até que eu montei uma barricada pra que ele não passasse mais. Tá, coitado do garçom, não tem culpa, estava só fazendo o serviço dele, mas eu é que não ia pagar por isso. Estava lá pra ver a performance (e que performance) de Ney, e não o vaivém de um prato de batata frita. Além disso, o Boulevard é terrível, não tem acústica. É casa de recepção, e não de shows. 
Recentemente houve show de uma banda cover dos beatles em outra casa de recepções, o La mouette, e  também só havia mesas. Não fui. Porque ou você é o primeiro a saber e consegue pegar a mesa em frente ao palco, pagando caro, ou fica lá no fundão, sem conseguir enxergar a banda, e nesse caso acho muito mais econômico ficar na minha casinha ouvindo Beatles – original. 
Outro dia fui também pra um festival de jazz, e lá estavam as malditas mesinhas e cadeiras de plástico brancas, ainda por cima todas vestidas com uma sainha, tipo aquelas usadas nos buffets, em casamentos. Parecia que eu tinha ido a uma recepção de casamento e não sabia. 
Não nego: sou radical. Pra mim, show em ambiente fechado só serve de duas maneiras: sentada confortavelmente na cadeira de um belo teatro, curtindo tranquila e comportada uma boa apresentação, ou de pé, na pista, tomando uma caipirinha ou uma dose de vodka (ou cerveja, vai do gosto do cliente), dançando bastante se o show for legal ou conversando e falando mal das bandas se estiver ruim (ehehe, como no recente Festival Mormaço). 
Odeio mesinha em show. Mesinha é pra restaurante, boteco, barzinho (com música ambiente ou mesmo com uma banda, dependendo do som)  e, claro, recepção de casamento. 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Medo, medo, medo.

Congresso internacional do medo
Provisoriamente não cantaremos o amor, 
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. 
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, 
não cantaremos o ódio porque esse não existe, 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, 
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, 
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, 
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, 
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, 
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. 
(Carlos Drummond de Andrade)

Temos muito medo. Medo do assalto na esquina, do seqüestro-relâmpago, do chefe, do envolvimento dos filhos com drogas, das brigas no trânsito. De perder o emprego, de ficar endividado. Medo do escândalo. Medos, digamos, sociais. Mas também temos medo da solidão, de não sermos aceitos, de sermos traídos e abandonados. Medo de mau-olhado. Medo terrível de câncer. Medo de morrer. E não só morrer, mas também de ir para o inferno. Medo de não ser uma boa pessoa. Medo dos próprios pensamentos. Medo do que os outros vão falar ou pensar. Medo de magoar. Medo de dizer “não”. De dizer “basta”. De contrariar. Vamos chamá-los de medos interpessoais.
O medo é essencial para a sobrevivência. Por força dele, o hipotálamo ativa as reações de luta ou fuga.  O problema é quando a reação de fuga é a única escolhida, por anos a fio. Torna-se um vício. 
Ter coragem não significa necessariamente agir com agressividade, nem falar o que bem entender quando bem entender. Não significa inconseqüência; ter coragem é dominar a arte de impor limites e exigir respeito. Isso é difícil, pois fomos alimentados com um pegajoso e falsamento nutritivo medo. Uma postura mais assertiva é a base de uma existência aberta e livre de amarras. Deveria ser  um dos propósitos, um dos objetivos da vida. Para que nos nossos túmulos nasçam flores vermelhas e alegres.