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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Joana e o pescador

 Os coqueiros se sucediam, e o pano de fundo era o mar. Da janela do carro, qualquer pessoa que não morasse em cidade litorânea olharia aquele mar. Mas não Joana. Não naquele estado em que se encontrava. Fora tomada. Tomada por um turbilhão de pensamentos, de suposições, de ...de desejo? Não, de desejo não. Não podia ser desejo. Desejo, tesão, não era assim que se sentia. Foi só a surpresa de conhecer uma pessoa diferente das outras com as quais convivia. Uma pessoa com um sorriso tão diferente...ninguém tem tesão por sorriso. Pode haver tesão por um corpo, por uma carícia, mas onde já se viu ter tesão por um sorriso? Como era mesmo aquela música?...ah, lembrou: “sorriso ingênuo e franco de um rapaz moço encantado com vinte anos de amor”. Esse era o sorriso dele.  Teria ele só vinte anos? Talvez vinte e dois, vinte e três no máximo. Ainda por cima isso. Ora, de vinte e oito para vinte e três, cinco anos a menos, é uma diferença considerável para uma mulher namorar um homem. Ah, mas que falta de noção,  quem falou em namorar? Como é que ia catar um pescador do Riacho Doce, periferia de Maceió, e namorar? Trocar um noivo advogado por um pescador!?! Mesmo que cometesse essa insanidade, jamais teria coragem de apresentá-lo às amigas. Tudo bem que elas iriam enlouquecer por aqueles olhos e aqueles músculos, mas certamente diriam que ele só servia para diversão. E pior: o que ela, Joana, iria conversar com o pescador? Sobre quais assuntos discutiriam? Como iria dizer a ele que gosta de Drummond, de Chico Buarque e de cinema francês?  Joana sabia que não existe isso de amor à primeira vista; para existir amor tem que haver afinidade. A coleção de CD´s e de livros tem que combinar. Bom, ao menos era isso que pensava até conhecer o maldito pescador. Mas será que existe neste mundo  um amor puro, desvinculado das afinidades, das condições econômicas, culturais? Existirá um amor dado, pronto? Amor é algo que se sente, ou se constrói, se inventa? Drummond encerra um de seus poemas assim: “a vida, apenas, sem mistificação”. Existirá em algum lugar um amor sem mistificação? E amor precisa ter continuação? Ai, que bobagem, pensou Joana, quantas bobagens cabem nesse percurso até o hotel? Se não tem continuação não é amor, é paixão ou só tesão. Mas peraí. Por que o “só”? Quem inventou essa gradação, dizendo que tesão é o nível mais baixo, depois vem a paixão e por fim, no mais alto degrau, o amor? Quem criou esses conceitos? 
É melhor deixar de devaneios. É preciso ser prática:  esquecer isso de uma vez. Esquecer o sorriso, os braços...braços forjados no trabalho, no remo, são tão diferentes de braços moldados em academia...por que será? 
Joana, decididamente, é melhor você se concentrar em outras coisas. A viagem de volta, por exemplo.  Amanhã, às sete da manhã já deverá estar no aeroporto. É bom combinar com o taxista para vir pegá-la às seis. E então, São Paulo, apartamento, escritório, noivo. À noite irão  sair para jantar, depois dançar, depois...
O solavanco do carro interrompeu os pensamentos. Olhou de lado e viu que a paisagem fora substituída pela portaria do hotel. Joana falou ao taxista, num fluxo só:
- Então o senhor me pega aqui amanhã às seis em ponto. Quero chegar cedinho na praia do Riacho Doce. 


(pequena história imaginada quando o guia turístico em Maceió falava sobre o livro Riacho Doce, de José Lins do Rego – que não li – e da minissérie Riacho Doce – que não assisti. A frase em negrito foi roubada de um amigo!)


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Eu te amo

- Eu te amo.
Ela disse, mordendo os lábios. Depois, pergunta-lâmina:
 - Você me ama?
Os olhos pareciam um punhal, a expressão era de desafio.
 Amor.  Amor?
Eu a vi pela primeira vez andando pelas ruas do centro, carregando os livros com uma expressão meio perdida, espreitando as vitrines com olhar de cobiça. Criança que não tinha dinheiro para comprar os brinquedos. Meus olhos iam muito lentamente do dedo dos pés, das unhas pintadas com um esmalte vermelho sangue, aos limites das coxas que o vento, complacente, ofertava ao mundo cada vez que levantava suas saias. 
Depois minhas pupilas delineavam a cintura, fina cintura, acompanhavam a curva ascendente,  pairavam pelos seios escondidos sob a blusa, brincavam com o pescoço, faziam cócegas pelo rosto, circundavam a boca, deslizavam para as orelhas. Aí penetravam em cada onda dos cabelos, giravam, tontas, e depois, cansadas, pegavam um atalho pelas sobrancelhas e chegavam aos olhos. E como num assalto, os meus olhos ficavam sem reação diante dos olhos dela. Acovardados. Essa dança leve e descompassada desde o princípio foi meu maior vício.
Era 1999. Era maio e a cidade ganhava um ar ao mesmo tempo aconchegante e deprimente por causa da chuva fina que caía no fim da tarde. E eu achava que ela ficava perfeita nesse clima. Não, ela decididamente não combinava com o calor. A pele muito branca, os cabelos negros, os olhos grandes e escuros. Os lábios densos, abertos, de um vermelho antigo. Aqueles lábios em outra encarnação tinham sido uma ameixa fresca. E as curvas suaves, intocadas por essa parafernália das academiais, que deixa as mulheres com um ar de quem está sempre perguntando: “e aí, vai encarar?”.  Ela, não. Sua provocação era suave e agridoce.
E eu adorava fingir que não a conhecia, ficar esperando a sua passagem, sentado em algum boteco do centro, aquele centro de antigamente, bebericando cachaça, só pra brincar de sermos desconhecidos. Ela aceitava o jogo. Fazia de conta que não me via, e andava devagar, deixando-se acariciar pelos meus olhos, um sorriso mal contido, meio de lado, que mostrava uma pequena parte dos lindos dentinhos brancos e miúdos. Depois, sem dizer uma palavra, eu parava diante dela, que fingia não me olhar, virava para o lado, o meio sorriso sempre ali. Num cortejo mudo, eu lhe beijava as mãos.  E então brincávamos de dois estranhos terrível e subitamente atraídos um pelo outro, que entravam na primeira pousada que encontrassem. Não nos chamávamos pelos nomes. Apenas entrávamos, e eu segurava seus cabelos e acariciava a nuca, conduzindo-a para a cama. Ela  deixava, obedecia. Entregue. E depois de tudo caíamos nas maiores gargalhadas e saíamos para jantar pelas padarias, conversando besteira, falando de música, cantando juntos e rindo como crianças.
As nossas melhores tardes tinham sido assim, nesse jogo alucinante pelas ruas de Natal, e essas tardes vinham sendo também as melhores da minha vida. Mas não falávamos de amor, esse recurso literário.
Até que um dia veio a  pergunta, o desafio. 
Após a inquisição, os olhos dela resistiram firmes durante todo o silêncio das minhas divagações. Não respondi. Peguei-a pelos ombros, coloquei o corpo dela de frente para o meu. Beijei-lhe o rosto, acariciei os cabelos, coloquei-a de volta na cama e, sem uma palavra, lentamente, adormecemos.
Depois desse dia, nunca mais nos vimos.

(2006, depois de ler "O jogo da Amarelinha", de Cortazar)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu vou invadir minha praia

A cortina que não cerrei na noite anterior providenciou um jeito de me acordar às sete da manhã. O sol entrava pela janela com uma urgência desmedida, e gritava: “acorda, que hoje é dia de praia”. 
Não resisti ao chamado e corri para Ponta Negra, no meu costumeiro biquíni azul, por baixo do vestidinho azul , pisando o azul das minhas havaianas, porque quando o céu me brinda com o azul mais azul que possui, tenho vontade de sair assim, pra combinar com ele.  
E eu estava numa alegria exuberante. Era um daqueles dias em que você não sabe bem o porquê, mas você não cabe em si.  
Do alto da ladeira que desemboca no calçadão, olhei aquele mar imenso. O sorriso foi inevitável. Enchi o pulmão de ar e pensei: nada como um dia perfeito !   
 E nesse enlevo desci o calçadão, tirei as sandálias, pisei a terra... Mas tal qual uma música que vai baixando, baixando, até desaparecer num final desafinado, meu sorriso foi diminuindo quando dei de cara com a beira mar completamente ocupada por cadeiras vazias e guarda-sóis imensos. Os melhores lugares, todos ocupados! Ok, ok, isso não iria estragar meu dia. Decidi engolir a chateação e pagar dois reais para sentar numa cadeira. Cheguei para o dono-das-cadeiras:
- quanto custa sentar?
- na pequena é  cinco e na maior é oito. 
- cinco o quê, cinco reais? Eu não sou gringa não, ó. Sou branquela e avermelhada mas moro aqui em Natal. Deixa de conversa e diz quanto é.
-  é isso mesmo, moça, na pequena, cinco, na maior, oito.  
 Olhei pra ele com a cara mais idiota que consegui fazer. Minhas opções: me apertar entre uma cadeira e outra, no chão, ou pagar cinco reais (porque oito é impensável!)  
Mas nesse momento me veio a iluminação, aquela que gera as grandes e revolucionárias idéias, que só acomete certas pessoas que têm o dom de realizar feitos memoráveis. Com a certeza de estar dando um passo irreversível para a construção de uma praia mais democrática e mais natalense, peguei a cadeira e fiz  um arremesso à distância. A pobre da cadeira, de madeira roída e gasta, se quebrou num grande “crec”. Logo chegou o dono-das-cadeiras, perplexo, gritando:  “tá doida, é, moça?” 
E assim, de forma teatral, liberei MEU espaço na areia. Desenterrei o guarda-sol e girei com ele para arremessá-lo também, bem longe. A essa altura o dono-das-cadeiras se atracou comigo e o barraco estava armado.                    
Pois essa luta chamou a atenção de diversas pessoas. Puxa de lá, puxa de cá, e quando vi o público se formando larguei o guarda-sol e comecei um discurso inflamado, dizendo que tudo que eu queria era um lugar na praia. Ninguém comprou Ponta Negra, ela continua sendo pública, e se não quero pagar cinco reais para sentar à beira mar, posso muito bem tirar a cadeira e o guarda-sol e sentar naquele local. E prossegui, entusiasmada:
- Natal é nossa, não podemos mais admitir que nos espoliem dessa forma. Natalenses de todos os bairros, uni-vos. O morro do careca é nosso, Ponta negra é nossa. Chega de turismo sexual. Chega de exploração monetária. Chega de não poder andar no calçadão com medo de ser confundida com prostituta. Nosso salário é em real. Queremos comprar em real, não em euro. Queremos ter condições de comprar uma casinha aqui, ou pelo menos queremos sentar à beira mar de graça, ninguém pode nos tomar esse direito! Que venham os bons turistas, aqueles interessados no mar e nas belezas da nossa cidade, mas que se explodam os turistas predatórios.  Viva a liberdade, viva a nossa praia como era antigamente!!!
E todos se juntaram a mim, e começaram a atirar os guarda-sóis, e entre aplausos comovidos, cadeiras e guarda-sóis voadores, sentei dramaticamente no meu pedaço de chão, num momento apoteótico.  
 Acordei sorrindo, me remexendo e repetindo “obrigada, obrigada”.  Quando percebi o que ocorreu, dei grande uma risada. Eu e meus sonhos cinematográficos! 
 A essa altura, passava das sete, o calor já tomava conta do meu quarto.  A cortina aberta balançava. O despertador que não tocou me disse, com seu silêncio, que era domingo.  
Sentei na cama, acostumando os olhos com a claridade,  espreguicei gostoso, olhei o azul lá de fora e pensei, entusiasmada e diabolicamente premonitória:
“ Hoje é dia de praia…”   

(brincadeirinha escrita em 2006, depois de uma manhã em Ponta Negra e depois de muita indignação com o que vem ocorrendo com a praia...)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Feliz aniversário

46 anos. Um marido, uma filha. E os penduricalhos: sogra, sogro. Nenhum amante, que o último já faz dois anos. 
Um marido, o meu marido. Desde menina já sabia que tinha que ser dona de um, só não esperava que fosse assim, essa coisa estranha, nojenta, essa barriga de cerveja, a careca espalhada na cabeça. E mais,  a agonia uma vez por semana, parecia uma humilhação, era uma humilhação, aquele jeito gordo de ficar respirando, babando em cima de mim, escorrendo um suor seboso, aquela coisa pesada. E a risada alta, escandalosa. As malditas camisas sem manga no fim de semana. 
Uma filha. Eu também sabia que ia ter uma.  Era com muito gosto que eu embalava as bonecas, cantava pra elas, trocava as roupinhas...Mas aquela menina...até que não era feia, não puxou ao pai, mas tem uma coisa longe, sei lá, de filha que não é minha. É uma menina meio besta, que eu crio, visto, dou de comer, mas é como se fosse filha dos outros.  Quando ela nasceu, não aconteceu nada do que eu tinha lido na revista Cláudia: “Amor incondicional”, “realização enquanto mulher”, palavreado, tudo palavreado. 
A minha sogra é uma velha insuportável, orgulhosa do filho professor, acha que ser professor é a coisa mais importante do mundo. Ela sabe que eu sei que as piadinhas sobre “não ter curso superior”, “não ter formação”, são todas pra mim. Ela sabe. Eu sei. Tudo dela é melhor, tudo é superior. O sogro, meu deus do céu, um panaca. Um manobrado. Vive com aquele olhar perdido no tempo, o jeitão embasbacado, e concorda com tudo que a mulher diz. Pelo menos não tem barriga, isso é verdade. Coroa enxuto, corre toda manhã, é conservado, o velho, apesar da idade.  Pensando bem, talvez a pasmaceira seja só disfarce, inda mais com essa historia de viagra, pode ser é que ele viva se esparramando nas outras mulheres, que mulher doida por homem é o que não falta. 
Homem é que tá difícil, ainda mais nessa idade, com os peitos caídos, sem dinheiro pra silicone nem pra botox. O último foi um rapaz de vinte e oito, ai meu deus, vinte e oito anos, dói de saudade só de pensar. Estudava na universidade, fazia filosofia e tinha essa história de que mulher mais velha é mais interessante...instigante, ele gostava de dizer “instigante”. Eu é que não ia contestar, ué...Tava era muito bom pra mim. Aquele corpo comprido, lisinho, aquele fogo...Mas veio outra e tirou. Ele me apareceu com uma lenga lenga danada, que eu era incrível, que isso e aquilo, mas é a velha história: começou a namorar com uma que é carne fresquinha, da faculdade também, quer noivar, fazer filho, e isso, meu amor, eu sei, eu sempre soube que ia acontecer. Homem é assim, pode estudar a filosofia do mundo inteiro, mas quer mesmo de verdade é uma cinturinha fina, uma carne dura, um lugarzinho só dele, por onde ainda não passou menino. 
E agora essa bendita festa de aniversário, um churrasco, o povo se empanturrando de carne e lingüiça de porco, enchendo as fuças de cerveja e fingindo que é por mim. Grande bosta, completar 46 anos desse jeito.  Ah, se eu pudesse dizer um dia a cada um o que eles são de verdade. Claro que eles  iam me xingar também, falar o que eu já sei: que eu tô velha, não tenho curso superior, envergonho o marido professor porque costuro pra fora, essa lenga lenga toda. Mas se a velha soubesse como ela é ridícula, como enche o peito pra louvar ninharia, se o velho soubesse como é panaca, se a menina soubesse que quero mais é que ela vá logo embora cuidar da vida, se o nojento soubesse o quanto me dá vontade de vomitar quando tá perto do sábado, quando ele vem babar em cima de mim, ah, se soubessem. Um dia eu ainda digo. Mas agora com licença senão daqui a pouco essa corja acaba com a  lingüiça e não vai sobrar nada pra mim. 


(PS: estorinha nitidamente inspirada no conto homônimo de Clarice Lispector)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Plunct plact zum, autoritarismo e frustração.

O ano era, digamos, 2055. Alguns grupos haviam tomado o poder na terra e há tempos vinham doutrinando a população no sentido de que democracia era um sistema arcaico e falho. Desde 2040 um Super Rei governava o planeta, e cada país tinha seu sub-rei, que chamaremos aqui simplesmente de sub.
Em 2030 havia sido descoberto que Marte também eram habitado. Mas ao invés dos simpáticos homenzinhos verdes, ou ainda dos temíveis seres dominadores que nas histórias sempre exigiam conversar com o líder, foram encontrados nesse planeta seres muito semelhantes aos humanos, porém mais rudimentares, que viviam em tribos e se envolviam em sangrentas batalhas. Os recursos naturais eram escassos, e as lutas geralmente eram por comida. E não havia, lá, nenhum mediador, ninguém que se interessasse em dar fim a tais conflitos. Marte era o caos. 
A terra, por outro lado, era um lugar bastante pacífico. Guerras? Coisas do passado. Quem ousasse falar em conflito era sumariamente executado, e assim a boa e justa ordem era sempre mantida. Vários soldados estavam imiscuídos na população, nas lojas, nas repartições públicas, prontos a denunciar suspeitas de desobediência.  Além disso, para praticar qualquer ato o habitante tinha que preencher formulários e formulários. Ficou doente? Preenche um formulário. Vai casar? Dá-lhe  formulário. 
Nessa época, Zig, Art e Zen eram três amigos e todos trabalhavam para o sub do Brasil, numa pequena província chamada Natal. Funcionários dedicados, deixavam na repartição, diariamente, dez horas de suas vidas.  Acreditavam nos propósitos declarados na TV pelo sub: justiça, paz, ética, cumprimento de metas. Cumprimento do dever social. 
Porém tinham lá seus segredos...sim, os três eram sonhadores. Zig tinha conseguido esconder no seu capsulamento (ou apartamento-cápsula) alguns objetos do passado: um livro de história, que falava sobre a tal democracia, e um livro de poesia. Este último era especialmente intrigante, pois quando lia os versos sobre liberdade ele era invadido por estranhas sensações químicas e psicológicas...o livro era perigoso,  dava-lhe vontade de perder a razão e sair contestando e querendo viver em um mundo diferente. O horror! Por isso lia no máximo uns três versos de cada vez e depois fechava o livro, assombrado. Acreditava que havia alguma coisa misteriosa e proibida naquelas páginas.  Na escola tinha aprendido sobre os malefícios de umas  ervas alucinógenas que eram usadas pelos humanos na era da barbárie...eles fumavam essa erva, sofriam alterações da consciência e depois morriam. Zig desconfiava, temeroso, que as páginas do livro tivessem sido confeccionadas com a tal erva. Mas mesmo assim não conseguia deixar de ler. Na verdade, os três amigos se reuniam toda semana para ler e reler e reler e sonhar.  
E foi assim que nossos heróis, com a cabeça secretamente pervertida por história, sonhos e poesia, decidiram inovar e tiveram uma idéia: ora, por que não ajudar os companheiros de universo, os marcianos? Poderiam tentar levar um pouco de justiça e assistência para que eles parassem de se digladiar diariamente. E de sobra ainda poderiam viajar pelo espaço! Então tiveram um plano: partir em uma missão com a finalidade de criar núcleos de justiça e assistência aos necessitados em Marte. Batizaram a missão de “Plunct plact zum” . Não tiveram dúvidas de que iam ter todo o apoio do sub, até porque, além de a missão estar em consonância com os objetivos declarados do reinado, iria cair muito bem nas estatísticas e contar ponto junto ao Super Rei.  Então desenvolveram o projeto, analisaram os custos, os benefícios, e satisfeitos e certos do êxito agendaram uma visita ao sub. Um ano depois conseguiram ser atendidos. Quando o sub viu o projeto,  examinou distraidamente e disse que o foguete não iria a lugar nenhum, que eles jamais sairiam da terra, pois para isso precisavam de selo, registro e um carimbo do próprio sub autorizando a missão, a qual estava sendo sumariamente negada.  Timidamente nossos heróis perguntaram os motivos na negativa, e tiveram como resposta uma raivosa declaração de que as decisões do sub são soberanas e ele não precisa compartilhar os motivos com meros subordinados. 
Os três amigos ficaram bastante frustrados; pensaram, pensaram e não entenderam como um projeto tão bom poderia ser barrado, se tinha tudo a ver com os objetivos e a propaganda do reinado do sub. Depois de muito refletir concluíram, perplexos, que a única resposta possível é que a política e a propaganda do sub não coincidiam com seus atos. 
A partir daí, perderam toda a alegria com o trabalho e caíram num vazio existencial, numa grande falta de objetivos. Mas por outro lado não havia boas opções de emprego lá fora. Então Zig tentou se matar de overdose, fumando o seu livro de poesia. A idéia era ter a tal alteração de consciência e depois morrer, mas tudo que conseguiu foram umas queimaduras no rosto e a conseqüente obrigação de preencher três formulários explicando o ocorrido. Depois que se recuperou das queimaduras,  passou o resto da vida carimbando. Art envelheceu em frente ao seu computador. Zen, que parecia ser o mais calmo dos três,  não suportou a desilusão: sua pressão disparou, ele teve um AVC e foi aposentado por invalidez. 



terça-feira, 29 de junho de 2010

Historinha desromântica

I. O NOME  
Não tinha dúvidas: nome era sina. E a mãe não se atualizava, até hoje enchia o saco com aquelas músicas velhas e chorosas, um tal de Cartola e a fulaninha, a Dolores Duran. Pronto. Porque gostava da fulaninha, a filha tinha que se chamar Dolores do Nascimento.
DOLORES
Origem: LATIM
Significado: LAMENTAÇÕES. 
Como se não bastasse, ainda era um nome totalmente fora de moda. Bem que podia se chamar Patrícia, Gisele, Adriana ou até mesmo Maria. Maria ainda era aceitável. Mas Dolores…ah, meu pai do céu! 

 II. A SINA 
Aquele Kitnet mais parecia uma casa de cachorro. Tinha todas as semelhanças: ficava no quintal de uma velha senhora - o conhecido “puxadinho” feito para alugar - era escuro, pequeno, escondido.  Micro sala, mini banheiro e quartinho. Quartinho da mãe, sala de Dolores. Dormia na sala.  Saía de casa às sete da manhã, corria para pegar o ônibus.  Servia café e água numa loja chique da Afonso Pena. Só conseguiu aquele emprego porque sua mãe trabalhou com dedicação absoluta durante vinte anos na casa da dona da loja. Uma dedicação que beirava a humilhação. Mas se não fosse por isso, não seria aceita em loja chique, mesmo para servir água e café. Tinha certeza. Ai, era feia, muito feia. Baixinha. Gordinha. Cabelos imprestáveis e sempre presos. Em tempos de escova definitiva, progressiva, escova de leite, morango e chocolate aquele cabelo era uma afronta. E o nariz? Nariz grosseiro, de lavrador. Pele áspera. Parecia mais uma bóia-fria, cortadora de cana.  
Mas qual era a sina mesmo, imposta por esse nome horrendo que significa “lamentações”? Não era só a de ser pobre e feia não. Era a de ser invisível. Davam-lhe ordens como quem fala com uma parede.  Ia servir água? Não passava de um veículo que transportava o copo. Mas terminou aceitando sua invisibilidade e, mais do que isso, aprendeu a exercitá-la. Um perfeito robô ao servir chazinhos e cafés, uma branca e inerte parede. 
Só que a noite era impiedosa. Quando deitava, exausta do trabalho e do cursinho, naquele colchão espremido entre a TV e o sofá, a invisibilidade lhe parecia insuportável. Um olhar, era tudo que desejava nessas horas.  Recitava mentalmente como se fosse um mantra: bastaria um olhar.  Um que fosse só seu. Já passava dos trinta e isso nunca tinha acontecido de verdade...

 III. UM OUTRO NOME   

“Incenso fosse corpo” 

Teu corpo, incensário
Insensato
Desprotegido
Nu
Aberto 

Rijo, me acendo
Te penetro, me consumo 
Me dissipo, te perfumo

Cinzas, o resultado
Dessa paixão insana e crua
E teu corpo, ali parado
Esperando, à luz da lua
Outro incenso, outro amor
Que em você se desconstrua

Terminou os versos e sorriu, satisfeito. Nem precisou do dicionário dessa vez. Ah, estava progredindo nas poesias. 
O nome era Carlos. Roberto Carlos, mas ele preferia pensar que era só Carlos, como o poeta que também era funcionário público. 

IV. UMA OUTRA SINA 
Carimbos, papéis timbrados, impressoras, computadores, mesas, arquivos, papel, muito papel. E separava, carimbava, arquivava. Robô que durante quase todo o dia ficava vendo o passeio de letras frias diante dos olhos. 
Mas a noite, ah, a noite era outra coisa. Eram os versos, o erotismo, e tinha mesmo ocasiões em que ia às lágrimas lendo os próprios poemas. Quando tomava vinho, então, era um êxtase. Um dia haveria de mostrá-los a alguém, e ela ia ficar doidinha...
Enquanto esse dia não chegava, andava por aí, olhar baixo, sem muita coragem de encarar as mulheres. Ô povinho complicado, difícil...elas sempre têm essa história de idealizar demais, essa coisa infantil e fútil de ainda querer príncipes...ele sabia que não era um príncipe, tinha consciência disso.  Era apenas o vizinho sem rosto que não faz barulho, o funcionário pontual, cordial e inexpressivo. 

V. O ENCONTRO 
Fim de ano, véspera de natal, caos. Dolores teve que fazer três horas extras. Onze horas de trabalho, vejam só. Não tinha jeito, naquela noite não iria mais para o cursinho.  De qualquer modo, não ir para o cursinho era até bom, pois poderia dormir mais cedo.  Isso lhe deu uma animação que gerou um esboço de sorriso, e andava sorrindo distraída quando...
 Carlos voltava de uma loja com o presente da sua mãe, e com o encontrão o presente caiu. Constrangidos, ambos se abaixaram ao mesmo tempo para apanhar o pacote, como naquelas velhas cenas de novela.   Quando retornaram (foi ele quem pegou o pacote), o olhar de um penetrou no olhar do outro. 
- Você é bonita …
- Ta brincando!
- Claro que é...eu adoraria soltar seus cabelos!
- isso seria estranho…
- não, não seria. Seria ótimo. 
- Mas estou tão cansada…
- Posso desapertar tua roupa e te livrar do cansaço…
-  (…) ?
- não, não desvie os olhos. Experimente... 
Bom, mas o diálogo acima foi apenas imaginado pelo narrador. O que aconteceu de verdade foi uma troca muda de olhares e uma pequena flama de interesse mútuo. Mas os dois, na timidez forjada e maturada no fracasso, logo apagaram essa faísca e retomaram suas expressões habituais. Ele pediu desculpas a ela, como quem pede a uma parede inerte e branca. Ela pediu desculpas a ele, como quem cumprimenta o vizinho silencioso e sem rosto. 
Dolores tomou seu ônibus e se foi, definitivamente, para Lagoa Seca; Carlos se dirigiu para  Cidade da Esperança. Os dois nunca mais se viram. 


(2006. PS: O título do poema do personagem Carlos foi inspirado numa poesia de Leminski chamada "Incenso fosse música")

domingo, 27 de junho de 2010

Encontro (à moda de Julio Cortazar)


Meus olhos são armadeiras que lançam uma teia sobre você e te forçam a deitar, aprisionada. Me aproximo e dou início ao ritual. Percorro o seu corpo, como um lápis traça as linhas de um desenho para que ele possa existir.  Primeiro os pés, muito brancos.  Com um pincel imaginário, realço o vermelho sangue de suas unhas, enquanto você me olha, entre divertida e curiosa (assustada?).  Depois acompanho as curvas das suas pernas lisas e longas, que me conduzem às coxas. Coxas com curvas bailairinas, que dão voltas suaves, quase etéreas, que me deixam tonto quando desembocam na fina cintura.  Circundo a cintura, brinco de girar um cinto de rosas, as pétalas vermelhas numa guerra mortal com a alvura da sua pele. Com os dedos faço um “x”  invisível no seu ventre, e minha mão sobe delicada e quase imperceptivelmente. 
E sigo, porque minha missão é te finalizar, e encontro os teus seios,  redondos, pequenos, quase tímidos. O belo desenho pede um beijo, que pinta de rosa os mamilos.  Subo pelo pescoço, de lá vejo a linha do queixo, suave. Os cachos negros emolduram o rosto. Faço a tua boca rosada, um pouco trêmula.  Sobrancelhas espessas, testa delicada, pequeno nariz. Não esqueço nenhum detalhe. Por fim, os olhos. Eu os quero negros, grandes. E pinto neles uma sombra, um medo, uma súplica, um amor hesitante. Aí meus olhos penetram nos seus, e vão corroendo, dissolvendo a sua córnea, e é como se os meus fossem os raios de sol direcionados firmemente por uma lupa para uma frágil folha de papel em branco, que não resiste e se queima. E quando você já não pode ver mais nada, eu lentamente me levanto, aprecio, de longe, o belo quadro e, sem uma palavra, vou embora.