terça-feira, 14 de setembro de 2010

Eu te amo

- Eu te amo.
Ela disse, mordendo os lábios. Depois, pergunta-lâmina:
 - Você me ama?
Os olhos pareciam um punhal, a expressão era de desafio.
 Amor.  Amor?
Eu a vi pela primeira vez andando pelas ruas do centro, carregando os livros com uma expressão meio perdida, espreitando as vitrines com olhar de cobiça. Criança que não tinha dinheiro para comprar os brinquedos. Meus olhos iam muito lentamente do dedo dos pés, das unhas pintadas com um esmalte vermelho sangue, aos limites das coxas que o vento, complacente, ofertava ao mundo cada vez que levantava suas saias. 
Depois minhas pupilas delineavam a cintura, fina cintura, acompanhavam a curva ascendente,  pairavam pelos seios escondidos sob a blusa, brincavam com o pescoço, faziam cócegas pelo rosto, circundavam a boca, deslizavam para as orelhas. Aí penetravam em cada onda dos cabelos, giravam, tontas, e depois, cansadas, pegavam um atalho pelas sobrancelhas e chegavam aos olhos. E como num assalto, os meus olhos ficavam sem reação diante dos olhos dela. Acovardados. Essa dança leve e descompassada desde o princípio foi meu maior vício.
Era 1999. Era maio e a cidade ganhava um ar ao mesmo tempo aconchegante e deprimente por causa da chuva fina que caía no fim da tarde. E eu achava que ela ficava perfeita nesse clima. Não, ela decididamente não combinava com o calor. A pele muito branca, os cabelos negros, os olhos grandes e escuros. Os lábios densos, abertos, de um vermelho antigo. Aqueles lábios em outra encarnação tinham sido uma ameixa fresca. E as curvas suaves, intocadas por essa parafernália das academiais, que deixa as mulheres com um ar de quem está sempre perguntando: “e aí, vai encarar?”.  Ela, não. Sua provocação era suave e agridoce.
E eu adorava fingir que não a conhecia, ficar esperando a sua passagem, sentado em algum boteco do centro, aquele centro de antigamente, bebericando cachaça, só pra brincar de sermos desconhecidos. Ela aceitava o jogo. Fazia de conta que não me via, e andava devagar, deixando-se acariciar pelos meus olhos, um sorriso mal contido, meio de lado, que mostrava uma pequena parte dos lindos dentinhos brancos e miúdos. Depois, sem dizer uma palavra, eu parava diante dela, que fingia não me olhar, virava para o lado, o meio sorriso sempre ali. Num cortejo mudo, eu lhe beijava as mãos.  E então brincávamos de dois estranhos terrível e subitamente atraídos um pelo outro, que entravam na primeira pousada que encontrassem. Não nos chamávamos pelos nomes. Apenas entrávamos, e eu segurava seus cabelos e acariciava a nuca, conduzindo-a para a cama. Ela  deixava, obedecia. Entregue. E depois de tudo caíamos nas maiores gargalhadas e saíamos para jantar pelas padarias, conversando besteira, falando de música, cantando juntos e rindo como crianças.
As nossas melhores tardes tinham sido assim, nesse jogo alucinante pelas ruas de Natal, e essas tardes vinham sendo também as melhores da minha vida. Mas não falávamos de amor, esse recurso literário.
Até que um dia veio a  pergunta, o desafio. 
Após a inquisição, os olhos dela resistiram firmes durante todo o silêncio das minhas divagações. Não respondi. Peguei-a pelos ombros, coloquei o corpo dela de frente para o meu. Beijei-lhe o rosto, acariciei os cabelos, coloquei-a de volta na cama e, sem uma palavra, lentamente, adormecemos.
Depois desse dia, nunca mais nos vimos.

(2006, depois de ler "O jogo da Amarelinha", de Cortazar)

Um comentário:

Nira disse...

Mas como é que uma criatura diz te amo esperando ouvir o mesmo de volta? Não há garantia alguma de que quem ama vai necessariamente ser correspondido. Se uma pessoa só ama se for amada, sinto muito mas isso não é amor: é troca de favores. O amor nasce e se dá sem pedir nada em troca. Ele simplesmente acontece e se ele n]ão é cporrespondido, é necessário entender que não dá pra "querer" amar alguém. Não é possível comandar os sentimentos. Ou você ama, ou não ama. E na maioria das vezes quem ama, não é correspondido. O mundo é duro...