quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O mundo está ao contrário e ninguém reparou...

Na revista "Isto é" desta semana saiu o trecho de uma entrevista com o antropólogo Roberto DaMatta, sobre seu mais novo livro, que trata do comportamento do brasileiro no trânsito. O antropólogo é conhecido por analisar e desvendar o país com base no estudo de temas como carnaval, futebol e o famoso “Você sabe com quem está falando?”. Vale a pena ler:

"...nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da nossa incapacidade de sermos uma sociedade igualitária; de instituirmos a igualdade como um guia para a nossa conduta. Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, no qual alguns podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. Em casa, nós somos ensinados que somos únicos, especiais. Aprendemos que nossas vontades sempre podem ser atendidas. É o espaço do acolhimento, do tudo é possível por meio da mamãe.  Daí a pessoa chega na rua e não consegue entender aquele espaço onde todos são juridicamente iguais. Ir para a rua, no Brasil, ainda é um ato dramático, porque significa abandonar a teia de laços sociais onde todos se conhecem e ir para um espaço onde ninguém é de ninguém. E o trânsito é o lado mais negativo desse mundo da rua. É doentio, desumano e vergonhoso notar que 40 mil pessoas morrem por ano no trânsito de um país que se acredita cordial, hospitaleiro e carnavalesco. No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. Ou superior a outro motorista porque tem um carro mais moderno ou mais caro. O motorista não consegue entender que ele não é diferente de outro motorista, do pedestre, do motorista de ônibus. Que ele não tem um salvo-conduto para transgredir as leis. No Brasil, obedecer à lei é uma babaquice, um sintoma de inferioridade. Quem obedece é subordinado porque a hierarquia que permeia nossas relações sociais jamais foi politizada. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em que não houve investimento sério no transporte coletivo e onde ainda impera o “Você sabe com quem está falando?”.

O texto é de uma precisão fantástica. E seus princípios se aplicam não só ao trânsito, mas à vida cotidiana como um todo. Igualdade e cordialidade (a autêntica, não a de conveniência) realmente não são o nosso forte. Oscilamos entre a subserviência com os que podem mais do que nós e o massacre dos que podem menos. Acho que já disse isso aqui, mas eu não vejo a vida melhor no futuro; o muro que nos rodeia não é baixo e não é só de hipocrisia. É de falta de educação, falta de valores, princípios, respeito e, por que não dizer, de noção. Ultimamente tenho tido a impressão de que quase tudo está ao contrário do que deveria ser. As pessoas esbarram em você e não pedem desculpa, não pedem por favor, com licença, não dizem obrigado. Isso quando não são truculentas e francamente desagradáveis. E, claro, acreditam que tudo se resolve com dinheiro (quem pode pagar pode tudo).
Nesse feriado, por exemplo, um rapaz que tinha encontrado um cãozinho perdido na rua falou comigo e com meu marido (já que temos cachorro) para saber se não conhecíamos o dono. Não conhecíamos, mas colocamos anúncio na internet, e avisamos a alguns veterinários. Eis que uma mulher me liga dizendo-se a dona. Na hora de devolver o pobre do cãozinho, ele não se mostrou nada feliz em ver a dona – o que não é um bom sinal- e ela também pouco ligou pra ele. Pior: ainda foi grosseira com o rapaz, não disse nem obrigado e virou e perguntou, como imagino que um cliente pergunte a uma prostituta, com as calças na mão, levantando da cama: “e aí, quanto foi o serviço?”. E mandou que a filha (suponho que fosse filha) “acertasse" o preço conosco. 
Como minha atividade profissional não é exatamente a de caçar cães perdidos para receber alguma recompensa, disse que não era nada, que não havia serviço nenhum; a mesma coisa disse o rapaz que havia levado o cachorro pra casa e até aquele momento tinha estado  passeando com ele na praça, com o maior carinho. 
No maravilhoso mundo mágico de Lisandra (a terra do Sempre) é permitido não gostar de cachorro, mas é presumido que quem se dispõe a criar o faz porque gosta do bichinho; e nesse mundo, quando alguém perde seu cãozinho, fica feliz se ele é recuperado intacto e diz um emocionado “obrigado” a quem o salvou de atropelamento, cuidou dele e se preocupou em anunciar para encontrar o dono. 
E nesse maravilhoso mundo mágico de Lisandra o que Roberto Damatta falou seria ficção,  seria parte de um livro que poderia se chamar “Adeus à terra do nunca”

PS: o título é trecho da letra da música "Relicário", de Nando Reis

Um comentário:

Nira disse...

Linda a história....