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segunda-feira, 19 de março de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin


“Nós jamais vamos ter certeza. Nós não fazemos a menor ideia do que é ter um filho. E só existe uma forma de descobrir.” 


Existem livros dos quais a gente gosta. Apenas gosta. E existem outros que simplesmente nos infernizam; não conseguimos fazer nada até terminar de ler, e depois que terminamos precisamos desesperadamente contar os detalhes para mais alguém, ou quem sabe escrever resenhas metidas a besta em blogs que ninguém lê. “Precisamos falar sobre o Kevin” fez isso comigo e mais um pouco: rendeu-me pesadelos e uma noite agitada que terminou por me causar uma baita dor no pescoço (torcicolo, desconfio eu). Melhor impossível. Amo livros que me abalam. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Plínio Marcos, o tempo todo.



Um camelô. Camelô dos seus próprios livros, que vendia nas portas dos teatros. E tão simpático e prestativo que prometia morrer logo para valorizar os autógrafos.  Mas tão antipático e irascível que agrediu verbalmente um garoto que chegou para cumprimentá-lo e...pedir um autógrafo. Um dramaturgo fantástico. Um inculto, que conhecia vinte palavrões e escrevia peças. Um grande admirador da sua esposa, a atriz Walderez   de Barros. Admirador das mulheres em geral, capaz de se meter numa briga de desconhecidos para evitar que batessem em mulher. Um briguento, aliás. Um machista meio cômico, que acreditava estar ofendendo uma mulher se não se lhe desse uma cantada e não convidasse para “dar uma chegadinha” ao seu apartamento. Nunca se filiou a partidos ou instituições. Um anarquista. Mas um anarquista extremamente amoroso com os amigos, capaz de gestos grandiosos. E mais estranho ainda: um anarquista que acreditava nas cartas do tarô. Um crente, um religioso? Não, um bandido.  Foi preso algumas vezes, e o engraçado é que os guardas o adoravam (onde já se viu isso?). Um barbudo meio desdentado e mal vestido, que foi amigo de Cobrinha, um morador de rua que morreu de tuberculose.  Um pai que usou fraque para levar a filha ao altar. Um escritor na feira do livro em  Paris,  posando para fotos ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Chico Buarque. 



Este foi Plínio Marcos, cuja biografia, "Bendito Maldito", escrita por Oswaldo Mendes, encanta pelo inusitado. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Por onde andará Sasha?


O que ela terá feito da vida? Onde estará morando, por onde andará no dia do show? 
Essa foi a pergunta que Alex e Bennie Salazar fizeram no último capítulo do livro “A visita cruel do tempo” (não, isso não é um Spoiler). Tal pergunta provavelmente irá conduzir o leitor a refletir, com um leve sorriso, sobre a sua própria vida, e talvez ele tente imaginar por onde andará aquele garoto/garota que era seu melhor amigo nos tempos da escola, ou ainda aquela moça/rapaz (como era mesmo o nome?) que namorou no verão de dez ou quinze anos atrás. 
Essa evocação de pensamentos é, em minha opinião, um dos maiores méritos do livro “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Boa idéia para 2012

"Escreva, minha filha, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas, experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos, descreva como exercício o degrau da escada do seu edifício (saiu verso sem querer), escreva sempre, mesmo para não publicar e principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas, que de há muito eu já perdi, se que algum dia a tive, mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontra em si próprio sua justificação"

(Drummond, em carta para a sua filha Maria Julieta)

domingo, 31 de julho de 2011

Museu de sensações

"No tempo da maldade acho que a gente nem era nascido” 
 (Chico Buarque)

Pedimos ao amor , que nos dê um pedaço de vida verdadeira, de morte verdadeira. Não lhe pedimos a felicidade,  nem o repouso, mas um instante de vida plena  em que os contrários se fundam  e vida e morte, tempo e eternidade, compactuem." 
(Octavio Paz)

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornaria indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? 
(Marcel Proust)


Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse, se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno de quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo. 
(Orhan Pamuk)



segunda-feira, 14 de março de 2011

In cold blood

Com febre, olhos lacrimejantes e um pouco de dor de cabeça terminei de ler, há pouco tempo, “A sangue frio”, de Truman Capote.

Tudo começou quando exercitava meus dedos no controle remoto à procura de algo para ver na televisão.  Senti uma espécie de atração pela estética de um filme que passava no canal 06, e comecei a assistir. Fui gostando, e vi até o final. Devo ter começado mais ou menos na metade do filme, que se chamava  “Capote”, e abordava o período em que o escritor pesquisou, preparou e finalmente redigiu sua grande obra:  “A sangue frio”.  Quando o filme acabou, a primeira coisa que pensei foi: PRECISO ler esse livro. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um cara gente fina

Antigamente eu tinha certo preconceito com biografias; achava que eram um gênero “menor”, uma perda de tempo, e, além disso, achava que eram livros muito chatos. Esse preconceito foi nocauteado pela leitura de “O bandido que sabia latim”, a biografia de Paulo Leminski. Depois veio "Tête à Tetê", de Hazel Rowley, espécie de biografia da famosa relação amorosa e intelectual de Jean Paul Sartre com Simone de Beauvoir. Em seguida me encantei com o maravilhoso trabalho de Benjamin Moser: "Clarice, uma biografia". Um livro de mais de seiscentas páginas que você quer ler de um fôlego só, e que traz luzes e mais luzes para a compreensão da obra de  Clarice Lispector.  Depois li a biografia de Sérgio Sampaio, sobre a qual já falei logo abaixo. E eis que acabei agora “Minha fama de mau”, a biografia do Tremendão Erasmo Carlos. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

A reinvenção da vida (ou: o amor nos tempos da decrepitude)

"Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno" (Machado de Assis)

Sempre me causa uma certa “apreensão existencial” ver o elogio supremo da juventude que é feito o tempo inteiro na mídia, e que já foi incorporado ao nosso dia a dia. Claro que a velhice traz desconfortos, dores, indisposições, requer cuidados, mas tentar esquecer que ela existe é uma grande bobagem; como se diz por aí, as opções não são muito boas: é velhice ou morte precoce. O importante é aprender a envelhecer com dignidade, e eu creio que essa dignidade consiste no caminho do meio: é não se deixar consumir por achaques, rugas, aposentadoria e tédio, mas também não lutar desesperadamente para parecer adolescente, fazendo mil cirurgias e estripulias (vide muitas “celebridades” da TV e da revista Caras). É saber se adaptar, tentar sempre melhorar e cultivar sobretudo a serenidade, porém sem nunca perder a capacidade de se espantar. Mário Lago tem uma frase bem bacana sobre esse equilíbrio: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra”. 

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Paulistanices em quatro tópicos

1. Simplesmente eu, Clarice Lispector. Tive a felicidade de assistir a essa peça, com textos de Clarice adaptados e interpretados por Beth Goulart, que ora encarna a própria escritora, no divã, em entrevistas e em meras citações, ora se transforma em algumas personagens de dois de seus livros, "Perto do coração selvagem" e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", além dos contos “Amor” e “Perdoando deus”. Pra quem não conhece Clarice Lispector a peça é  muito interessante e certamente estimula a leitura. Os textos falam de deus, de amor, de dúvida, contradição... enfim, são de uma riqueza capaz de deleitar  mesmo quem não tem familiaridade com a escritora. Pra quem já gosta dela, bem, aí eu diria que a peça é simplesmente perfeita. Os trechos foram muito bem escolhidos, a ligação entre a fala de Clarice e a de seus personagens é de uma precisão espantosa, formando um todo coerente e absolutamente encantador. A atriz, então, é um show à parte. A elegância, a expressão corporal, a voz (ela canta e dança na peça), a imitação da língua presa de Clarice...tudo diz que Beth Goulart mereceu os prêmios que já ganhou com essa apresentação. A propósito, lembrei-me dos atores que começam na rede “grobo”, geralmente em “Malhação”, achando que ser ator é decorar um texto e fazer caras e bocas diante da câmera. Quanta diferença que é ver uma atriz completa em ação. Já gostava dela, achava simpática ,  mas agora, decididamente, virei fã. 

2. Scorpions, a turnê de despedida. Não pude ir para o Sun Rock em João Pessoa, mas claro que não ia perder os sessentões pinotando no palco pela última vez. Estava um frio absurdo e só depois de uma hora e meia na fila (junto com milhares de pessoas) vieram avisar que...estávamos na fila errada! E só avisaram ao pessoal do final, e todos saíram correndo feito loucos, de modo que a entrada no Credicard hall foi totalmente atrapalhada. Mas o show fez com esses maus momentos fossem superados. Belíssima apresentação, os telões estavam perfeitos, mostrando a trajetória da banda, as capas dos discos, e até a queda do muro de Berlim, quando tocaram Wind of Change. Eu ouvi Wind of Change pela primeira vez quando tinha entre treze e catorze anos (haja tempo...) e até hoje essa música me emociona e me faz voltar àquela época. Lembro que eu estava sentada lendo "Capitães de Areia" e ouvindo rádio; a música começou a tocar, eu parei pra ouvir e passei minutos encantada, querendo segurar o tempo naquele momento exato, até porque era muito difícil comprar discos e de certo modo eu dependia das FM´s...Lembro também de um professor de inglês que deu a letra dessa música numa aula, e ouvimos e cantamos várias vezes, e pra mim foi um êxtase. 
E claro que eles tocaram Holiday, Rock you like a hurricane, Still loving you, dentre outras clássicas, mas um excelente momento foi também  com uma canção do disco novo: The best is yet to come. Enfim, uma super despedida, que vai deixar saudade. 

3. As paulistanas. Fez  um frio danado na cidade e as mulheres de São Paulo estavam muito bonitas. Uma explicação aos homens: como diz Rita Lee, mulher é bicho esquisito. Nós olhamos muito mais para outras mulheres do que para os homens, porque gostamos de analisar, medir, avaliar, comparar, invejar...é uma apreciação estética, analítica, entendem? Pois bem, olhei muuutio para as belas roupas que elas usavam nesse frio. Não sou ligada nessa coisa de moda, desfiles, acho um saco, mas gosto de ver as pessoas nas ruas, no metrô, e aqui em Natal não dá pra fazer isso, primeiro porque quase ninguém anda pelas ruas. Não temos o hábito de caminhar ao ar livre. Segundo porque não tem metrô! E depois porque esse calor acaba com qualquer produção.  E o que se vê nos shoppings é na maioria das vezes mera transposição do que estava nas capas de revistas e vitrines, sem muita criatividade. Uma coisa insossa, uma coisa bem...Natal!
Então, a avenida paulista é uma beleza para olhar as roupinhas e combinações. Acho que o modo de se vestir das paulistanas traduz muito a diversidade cultural que existe lá, essa coisa bem urbana e meio solitária. Vi  muitos trench-coats, casacos em geral, meia calça, sapatilhas fofas, botas, sobreposições, só roupa que eu adoro!  A verdade é que no frio as mulheres têm mais classe, mais elegância, ficam mais misteriosas e com um ar blasé, bem mais legal do que essa coisa oferecida do short super curto com sandália alta, hit aqui em Natal. 

4. Saudade. Se me dessem um saco gigante de pipoca, uns sanduíches e coca-cola eu passaria um dia inteiro no Museu da Língua Portuguesa, vendo filminhos, brincando de formar palavras e lendo Fernando Pessoa. São Paulo é o que há de bom!!! Queria mais...



segunda-feira, 16 de agosto de 2010

No tempo da delicadeza

(onde não diremos nada, nada aconteceu.
Apenas seguirei, como encantado ao lado teu).

Octavio Paz, pensador e escritor mexicano, no livro "O labirinto da solidão", diz que a experiência autêntica do amor é algo muito raro na nossa sociedade, praticamente inacessível, porque colocamos diversas balizas no sentimento. Em primeiro lugar, as nossas escolhas são todas baseadas em critérios como nível social, cultural e econômico, além da aparência física. É evidente que, até mesmo no plano biológico, a aparência é importante, porém a aparência capaz de despertar o desejo, que pode não ter nenhuma relação com os critérios socialmente construídos do belo em uma determinada época. No entanto são os critérios, e não a verdadeira atração, que na maioria das vezes determinam o peso da aparência.  Além disso, “a mulher...nunca é dona de si. Seu ser se divide entre o que é realmente e a imagem que faz de si. Uma imagem que lhe foi impressa por família, classe, escola, amigas, religião e amante. Sua feminilidade nunca se expressa, porque se manifesta por meio de formas inventadas pelo homem”.  Quanto aos homens, submetem seus gostos à imagem feminina imposta pelo círculo social. “Incapazes de escolher”, selecionam as esposas entre as mulheres “convenientes”. E assim o amor, que deveria ser a união radical de duas pessoas para juntas experimentarem a vida e sublimarem a solidão que significa estar vivo e consciente, e que segundo esse mesmo autor é “a profundeza última da  condição humana”, passa a ser um simples acerto de conveniência. Não é à toa que Octavio paz cita Proust, com uma famosa frase de  Swan: “E pensar que perdi os melhores anos da minha vida com uma mulher que não era sequer o meu tipo”. 
Assim, por causa  dessas restrições e artificialismos, o amor verdadeiro passa a ser um ato “anti-social”, um ato revolucionário, que surpreende e causa choque. 
Recentemente lembrei desse belo texto de Octavio Paz quando li uma entrevista com o compositor Marcelo Camelo. Eu tive, há algum tempo, uma séria antipatia pelo namoro dele com a cantora adolescente Mallu Magalhães. Tinha admiração por Camelo, achava as letras dele interessantes. E afinal ele era um cara, na época, com uns trinta anos. Então essa imagem desmoronou bastante quando o vi envolvido com uma garota que não falava coisa com coisa, e muito mais jovem. No entanto me surpreendi com algumas declarações dele nessa entrevista:

Repórter: O que mais te encantou nela?
Marcelo: É como se, quando ela tocasse, virasse eterna. Ela sai do universo mais óbvio de percepção que se teria dela e vira uma coisa maior, um universo inteiro. Quando ela tocava vinha uma força que eu achava estranha. Além disso adoro o modo como ela cria melodias. Foi uma ligação espiritual, imaterial.

Repórter: Como você sentiu a cobrança pelo fato de ela ser muito mais nova?
Marcelo: Quando você se apaixona, você se apaixona. O radical da palavra é o mesmo de passividade. Porque, quando acontece, tu fica meio passivo. Não tem questionamento. Nosso encontro foi algo muito especial.

Talvez sem saber, Camelo foi puro Octavio Paz. O radical do amor é mesmo a passividade. É ser escolhido, é ser levado por um desejo mais profundo, que vai além das regras de escolha que normalmente nos são ensinadas.  Talvez amar seja recuperar a delicadeza perdida, seja lançar sobre o outro um olhar puro, límpido.
Claro que a duração do relacionamento depende da existência de compatibilidades, mas a brevidade do encontro não significa efemeridade do sentimento, nem o contrário. E compatibilidade não significa necessariamente identidade cultural, social e financeira. Na verdade, somente livres das máscaras e dos condicionamentos as pessoas são capazes de vislumbrar uma experiência amorosa autêntica. 
 “E pedimos ao amor – que, sendo desejo, é fome de comunhão, fome de cair e morrer tanto quanto de renascer – que nos dê um pedaço de vida verdadeira. Não lhe pedimos a felicidade, nem o repouso, mas sim um instante, apenas um instante, e vida plena, em que os contrários se fundam, e vida e morte, tempo e eternidade, compactuem”.

Obs.:  A entrevista com Camelo é da revista Trip. O título e a primeira citação  (em itálico) fazem parte da belíssima música "Todo Sentimento", de Chico Buarque.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Para que servem os livros?

Ultimamente tenho visto discussões sobre internet e “emburrecimento”. 
Vim ter acesso à rede quando já estava na faculdade, por volta de 1997/1998, depois de comprar um computador com o dinheiro da bolsa de estágio. Se por um lado hoje não imagino a vida sem internet, por outro é indiscutível que ela está causando um tremendo mal para quem já nasceu com o “google” à disposição e se acostumou a um mundo restrito a 140 caracteres. 
A propósito desse assunto, saiu na revista “Isto é” desta semana uma reportagem intitulada “Torpedos literários”, falando de uma versão “supercondensada” de obras primas da literatura, que resume 90 livros, chamada de “Twitterature”. 
Transcrevo a seguir um trecho dessa reportagem: “o aparecimento desses livros aponta para dois fenômenos da atualidade. O primeiro é o reconhecimento de que os grandes livros pertencem definitivamente ao passado; o segundo é a sensação de que, nessa época de incessante informação on-line, as pessoas não estão encontrando tempo para conhecê-los”. 
É evidente que, hoje em dia, diante das múltiplas atividades de crianças, jovens e adultos, o tempo realmente é menor. Mas isso não significa que não exista tempo para os livros. Ora, se as pessoas podem passar duas/três horas por dia vendo “vídeos engraçados” no youtube, “imagens divertidas”, PPS recebidos por email, ou então digitando bobagens no twitter, enviando asneiras pelo orkut, facebook e afins, lendo cinco jornais on line (invariavelmente com as mesmas notícias) fica mesmo impossível conseguir ler.  Então se vê que tudo não passa de uma questão de prioridade. 
Não acho que um bom livro tenha que ser necessariamente grande; mas existem milhões de coisas que não podem ser ditas em apenas 140 caracteres. 
No Twitterature  “O estrangeiro”, de Camus,  é resumido assim:
“Mersault é um camarada existencial que não acredita em nada. Ele pode suar, mas não chora no funeral da mãe. Certo dia de sol, Mersault mata um árabe na praia inspirando uma música do Cure. Ele pega a pena de morte e fica consolado quando percebe que o universo não se importa com qualquer um de nós. Isso deixa a gente feliz.” 
Com perdão pela expressão, mas que porra é essa? Não é uma historinha linear que faz de “O Estrangeiro” um grande livro. São os diálogos, são as entrelinhas...às vezes cabem dezenas de reflexões em um único diálogo. Isso com Camus e com todos os bons autores. 
Segundo a reportagem, Alexander Aciman, co-autor do Twitterature, ainda diz: “existem pessoas que nunca vão conhecer Marcel Proust ou James Joyce e, nesse caso, nosso trabalho oferece uma pequena porção dos romances desses autores. É infinitamente melhor ter acesso a esse aperitivo do que nunca ter ouvido falar deles.”
Então o livro, segundo esse rapaz, serve apenas para dar um verniz cultural. Pra que o sujeito não fique boiando na conversa quando se falar em Proust. Eu nunca terminei de ler Proust, mas prefiro a dignidade da minha ignorância a esse tipo de engodo. 
Além disso, existe o prazer de ler, de descobrir estilos, de apreciar cada página. A leitura de um bom livro é uma viagem em que nem sempre o melhor é a chegada.  Como disse Paulinho Moska, “então me diz, qual é a graça de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada?”


quarta-feira, 14 de julho de 2010

Meu próximo filósofo preferido

Será o francês Michel Onfray. Ontem, por acaso, chegou às minhas maõs uma revista antiga e não menos por acaso abri na página de uma entrevista com ele. Viva o acaso, que frequentemente está ao meu lado (e, como diria Paulo Leminski, ai dele se não estiver!)
Li a entrevista e procurei diversas outras informações sobre o autor, pois fiquei muito curiosa. Ele defende, dentre outras coisas, a substituição da religião pela filosofia e o que chama de hedonismo ético. Defende a liberdade no sentido mais complexo da palavra. Explico: muitos interpretam liberdade apenas como poder ir e vir e ter autonomia para pagar as próprias contas. Mas quase sempre se vêem presos à burocracia, a esquemas de vida que não foram livremente escolhidos, e sim  simplesmente seguidos por falta de questionamento. Em resumo, ele postula o "não ir com os outros" só por convenção. Na verdade, ter que definir o próprio destino é tarefa cansativa e muito difícil (quem sabe um dia eu consiga). Diz o filósofo em uma de suas entrevistas: "É preciso inventar novas possibilidades de existência". Esta é uma idéia que me vem à mente constantemente, mas poucas vezes tenho coragem de expressar, porque ou parece coisa de quem não tem mais nada de prático ou importante para pensar, ou parece coisa de doido. Mas quem foi que disse que temos que viver exatamente assim, desse modo linear, trabalhando oito horas por dia, casando, tendo filhos, nos aposentando  para, finalmente, sentar "no trono de um apartamento" para esperar a morte chegar? Trata-se de um modelo de vida eminentemente histórico, construído, mas desde sempre nos parece algo imutável, uma espécie de lei universal (ok, já houve época em que eram 14 horas de trabalho por dia, mas isso não vem ao caso agora).
Essas mesmas idéias, de construção do próprio destino, estão presentes em Camus, outro autor que eu adoro. 
Onfray critica também o sistema de ensino. Na verdade, ele considera que tal sistema é de adestramento, e não de educação. E afirma: Nietzsche dizia que um bom mestre é aquele que ensina os alunos a se desligarem dele. Então é preciso ensinar as pessoas a se desligarem de seus mestres, a serem mestres de si mesmas. É um estranho paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir. O que interessa é que as pessoas tenham uma relação direta com a filosofia, na qual eu serei apenas um mediador. Eu sou feito para desaparecer.
Outro ponto interessante é que Michel Onfray, pelo que pude ver, é bastante coerente...na piscina dele não existem ratos. Por não concordar com esse sistema de ensino, ele  pediu demissão das universidades francesas e fundou uma universidade Popular Gratuita, mas sem diplomas, onde o essencial é aprender. E vive hoje dos seus direitos autorais. Sobre quem afirma que ele repete idéias e argumentos antigos, sobretudo no que diz respeito às críticas à religão, ele responde: Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. 
Alguns livros dele em português: A política do rebelde; O ventre dos filósofos; Contra história da filosofia; Tratado de ateologia.
Ainda não li nenhum, mas ele está como prioridade na minha lista. 
Agora, para finalizar esse texto de modo não linear, bagunçando a linha de argumentação até agora empregada, que vinha sendo no sentido de salientar as prováveis qualidades do texto do Sr. Michel, devo dizer que, além de libertário e ético, ele é um "coroa" francês super charmoso, com aquela carinha fofa de intelectual abusado!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Confissões de uma mente perigosa

PRIMEIRA:
"Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida."
(James Joyce)

SEGUNDA:
- Não compreendo por que você vai embora, se está feliz aqui - dissera-lhe Catherine.
- Correria o risco de ser amado aqui, minha pequena Catherine, e isso me impediria de ser feliz.
Catherine, enroscada no sofá, com a cabeça um pouco baixa, olhava para Patrice com o seu belo olhar sem fundo. Sem se voltar, ele disse:
- Muitos homens complicam sua existência e inventam destinos para si mesmos.
(...) Nunca renuncie, Catherine. Você tem tantas coisas dentro de si, e a mais nobre de todas, a noção de felicidade.
(Albert Camus)

TERCEIRA:
Um jovem americano termina os estudos, praticamente entrega o diploma nas mãos dos pais e parte em uma viagem rumo ao Alasca. Livra-se do carro, queima (literalmente) o dinheiro. Ele não suporta a farsa da "felicidade" dos pais e da sociedade em geral. E quer encontrar um sentido através de uma jornada solitária e desapegada.
(breve sinopse do filme "Into the wild", dirigido por Sean Penn)

QUARTA: "Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada". (Oswaldo Montenegro)


...porque metade de mim é Hermógenes, mas a outra metade é Camus.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago e o precipício do pensar

Certos livros são perigosos. Você começa a ler,  como quem se aproxima da beirada de um precipício. De repente, se desequilibra, perde a velocidade da queda e depois não tem mais como voltar. Você caiu. O precipício (digo, o livro) mexeu com suas idéias e te deu uma pancada.
Foi assim com “O evangelho segundo Jesus cristo”, de Saramago. Eu devia ter uns trezes anos, era católica e “temente a Deus”, e esse livro plantou dúvidas , inquietações e até muita raiva do autor. Como ele ousava dizer tudo aquilo? 
E hoje todos os jornais anunciam que ele morreu e foi publicada uma nota afirmando que foi uma morte serena, em paz. Acho que morre serenamente quem viveu intensamente, quem viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Não sei se foi esse o caso de Saramago, pois não conheço detalhes da vida dele, mas a julgar por um poema belíssimo de seu livro “Provavelmente alegria”, ele experimentou e descobriu a vida de formas muito especiais: 

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste. 


Leminski e Clarice: a linha que nunca termina

Paulo Leminski e Clarice Lispector dificilmente aparecem juntos em artigos ou críticas literárias. Isso se deve a vários fatores. Por exemplo: em Clarice se destaca a prosa; em Leminski, a poesia (apesar de “Catatau” ser tido por muitos como um livro à altura de Finnegan’s Wake ou Ulisses, foi pouco lido e sequer é vendido atualmente em livrarias). Clarice é conhecida por ser uma autora “hermética”; Leminski é um “cachorro louco”, “Kamiquase”, bandido, samurai malandro, cheio de humor e ironia.  Então de onde tirei a idéia de traçar uma linha diagonal e estabelecer uma conexão entre os dois?
Tudo começou quando li a biografia de Leminski: O bandido que sabia latim, de Toninho Vaz.  Paulo Leminski era mesmo um cachorro louco, como consta no seu poema de autodefinição. Viveu com a intensidade de mil raios. Casou, foi professor de cursinho, descasou, morou em comunidade, lutou judô, encheu a cara, trabalhou com publicidade, encheu a cara de novo, flertou com o zen, fez hai cai, construiu poesias de rara beleza, foi parar num hospital de queimados, encheu a cara, teve um filho que morreu de câncer ainda criança, namorou com a tropicália, foi chamado de “poeta realce”, encheu a cara e morreu. Mas tudo isso foi consciente. Ele tinha dentro de si uma urgência, uma voz que gritava, que discordava, que lhe impunha um sentimento de estranheza e  dizia que o fato de viver neste mundo era uma “simples coincidência”. Ele tinha vida demais, autenticidade demais, lirismo demais, erudição em excesso. Um cara que sabia de cabeça se uma determinada citação estava ou não no livro “Finnegan’s Wake”, de Joyce. Capaz de um rigor técnico incrível em poesias curtas, de revelar uma nostalgia irônica, uma alegria triste e uma felicidade que se sabe imperfeita e precária (e talvez por isso mesmo tão boa!). 
Minha teoria é a seguinte: Leminski não cabia em si, não cabia em uma vida. Então ele explodiu. Explodiu nas poesias e no consumo excessivo de álcool. Ele sabia que não dava para continuar, que se continuasse morreria, mas mesmo assim seguiu em frente. 
E Clarice?
Bom, ano passado li também a biografia dela, que me causou uma grande impressão. Li sobre detalhes antes desconhecidos, como o sofrimento de sua família antes de chegar ao Brasil, a doença da sua mãe, a infância difícil, a morte do pai antes da publicação do primeiro livro. O casamento com um diplomata, as viagens, o sofrimento por viver uma vida que não parecia ser dela. A estranheza de si mesma quando participava dos jantares requintados e formais. A necessidade de dizer à irmã, nas cartas, que nunca desejasse ser uma pessoa diferente, que fosse apenas ela mesma. 
Então a impressão que tive foi a de que Clarice tinha dentro de si esse mesmo impulso incontrolável de vida,  espécie de pulsão de transcendência, um não caber em si. No fundo, ela era bastante parecida com Leminski nesse sentido. Mas viveu aprisionada por muito tempo...usando as palavras de um verso de Leminski, Clarice tinha o silêncio de quem grita.  Enquanto Leminski explodiu, Clarice implodiu. Construiu uma literatura introspectiva, e com ela lidava com as partes tempestuosas e obscuras de seu próprio ser. Nos livros ela podia ser má, confusa, podia dar livre curso às complicadas teias de pensamento e, no fim, morrer atropelada.
E na “vida real” cada um morreu como viveu: Leminski morreu de excesso, de cirrose hepática. Clarice morreu de câncer (e já dizia uma personagem de  João Ubaldo, que o câncer é a revolta das células insatisfeitas e reprimidas). 
Cada um lidou com os excessos e inquietações à sua maneira, e os dois deixaram uma literatura incrível, que fala de vida, de verdade, de disfarces, de morte e de redenção. E com essa literatura realizaram uma profecia poética de Leminski: tudo o que eles disseram, ainda que em prosa,  virou poesia. 


segunda-feira, 14 de junho de 2010

A ternura que vai no fio da lâmina samurai


Quem viu “O último samurai” certamente se recorda do suicídio ritual que eles realizavam, o chamado seppuku (ou harakiri). O objetivo do suicídio é restabelecer a honra do samurai ou da sua família,  evitar a rendição e o aprisionamento por tropas inimigas, ou ainda a demonstração de devoção ou lealdade ao seu senhor. O suicídio em si é precedido de diversos atos, como banhos, purificações etc. O samurai corta o seu ventre e morre por evisceração. Caso o processo esteja muito lento e doloroso, uma espécie de assistente, chamado kaishakunin, decepa a sua cabeça, a qual, todavia, não pode rolar no chão, pois isso é considerado desonra. A cabeça tem que ficar pendendo. Informações interessantes podem ser encontradas aqui.

Mas apesar do caráter singular desse suicídio, o ritual em si não foi o que mais despertou a minha atenção, e sim o modo como esses guerreiros lidavam com a morte. Para nós, ocidentais, a morte é tabu, é o fim, e mesmo entre os mais religiosos é raro encontrar alguém que encare a sua proximidade e a sua certeza  com serenidade. É difícil, por exemplo,  falar sobre a morte com crianças. É um assunto duro, e tanto a morte, quanto o assunto “morte”, são evitados a todo custo.  Os samurais, todavia, parecem ter uma visão completamente diferente. Um dos tópicos de seu código de conduta é eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e morte. Sábios samurais. Vida e morte são mesmo inseparáveis. Uma contém a outra. Para ilustrar essa grande diferença de concepção da mesma idéia, conto a história de Yukio Mishima.

Yukio  era descendente de família samurai. Foi um escritor de diversos romances e também de narrativas curtas (espécies de contos). Chegou a atuar num filme de gângsters, a gravar discos e participar de programas de televisão. Era conhecido por um certo exibicionismo, e também pelo homossexualismo. Cultuava as artes marciais e era existencialista. Ufa...Mas é isso mesmo. Mishima não era um só. E ele cresceu numa época difícil para o seu país, vendo a cultura e os valores antigos serem estilhaçados.  E foi esse japonês, que se multiplicou durante a vida, quem resolveu unir as pontas da sua obra literária e filosófica e de sua própria existência com um harakiri.

Em um belo dia do mês de novembro de 1970, ele seqüestrou o comandante do quartel das forças armadas de Tóquio, junto com os companheiros do grupo Tate no Kai. Fez um discurso contra a ocidentalização do Japão e a decadência dos códigos de honra, discurso do qual muitos riram. Depois, para surpresa e terror de quem assistia, praticou o harakiri. 

O que impressiona é justamente a preparação do escritor. Antes do suicídio ele terminou seus livros, sendo o último, Sol e aço, uma reflexão sobre as relações entre o corpo e a mente, o fundo e a superfície, a vida mental e a existência corpórea (In: Leminski).  E o mais surpreendente: Yukio estava, então, no auge da sua forma física. E era proposital. Ele se preparou para o momento, pois quis dar à morte o melhor de si. Não um corpo decrépito ou frágil. Não a rendição de quem não tem perspectivas ou perdeu o “gosto” pela vida. A morte parece ter sido o ápice de todo o seu trabalho, de todo o seu esforço...de toda a sua vida. O que movia Yukio? Não sei...rigidez, loucura, anacronismos, lealdade, busca de algo que não existia mais...Paulo Leminski, poeta curitibano, muitas vezes apelidado de “samurai malandro”, disse que Yukio, com seu sangue, escreveu com aço na pele da sua vida as letras de sangue que diziam: “Eu não concordo”. Mishima não concordava com o que via ao seu redor e decidiu agir, costurando as suas contradições com o fio brilhante e polêmico do suicídio ritual. 
Leminski  fez um belo poema chamado Aço e Flor inspirado em Yukio:

Quem nunca viu 
que a flor, a faca e a fera 
tanto fez como tanto faz, 
e a forte flor que a faca faz 
na fraca carne, 
um pouco menos, um pouco mais, 
quem nunca viu 
a ternura que vai 
no fio da lâmina samurai, 
esse, nunca vai ser capaz

Particularmente não tenho nenhum juízo de valor sobre o harakiri ou sobre o controverso Yukio; apenas deixo que o meu espanto e o meu encanto fluam diante de um mundo conceitual totalmente diverso do que eu conhecia, repleto de lâminas, sangue e...uma estranha delicadeza. 


sábado, 12 de junho de 2010

Minha livraria ideal

Pode ter livro de vampiro, eu não me importo. Até li um há poucos dias, que me foi emprestado por um rapazinho, e me diverti bastante. Mas Fabio de Melo (o padre) é demais pra mim. Auto-ajuda, nem pensar. Eu deixo entrar Paulo Coelho (confesso: na adolescência li "O Alquimista" e gostei. Não vou cuspir no pratinho em que comi).  Sidney Sheldon, alguém ainda lê? Por consideração ele também pode entrar, pois há milênios eu li com muito gosto “Se houver amanhã”. Mas um exemplar de cada, todos juntos numa prateleira só, pelarmodedeus não me vai misturar nenhum desses com Hesse ou Garcia Márquez. 

Livros de direito, medicina, engenharia e afins, por favor, passem longe. Mas psicologia não pode faltar, como também filosofia. 

A arrumação tem que seguir critérios diferentes e sempre mutáveis.  Compreendo que a ordem alfabética facilita na hora de procurar um autor numa livraria normal, mas essa é especial. Aqui os vendedores são apaixonados por literatura e sabem onde achar cada livro, e mais: são ótimos de papo. Um diálogo comum na minha livraria ideal, entre um cliente e um vendedor:

- estou querendo ler a biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamim Moser, mas estou em dúvida...você sabe se o livro é bom?

- ah, tá brincando. É mais do que bom, é apaixonante. Moser fez uma pesquisa que durou oito anos, foi bater na Ucrânia, e além disso é um estudioso da obra de Clarice, então o tempo todo ele faz correlações entre a vida e a obra da escritora, fala muito sobre suas influências literárias e filosóficas, além disso existem trechos emocionantes da correspondência dela com outros escritores... ela trocou cartas lindas com Fernando Sabino, você precisa ver. Li em dois dias, freneticamente, e recomendo bastante!

- puxa, que bom. Vou levar, então! Onde é que tá o livro?

- na segunda prateleira do lado esquerdo. Começando por Spinoza, segue uma linha reta e perto de Virginia Wolf, logo depois do “Lobo da Estepe”, de Hesse, você  vai dar em Clarice.  A biografia está amparada no “Encontro Marcado” de Fernando Sabino...

- Valeu...

Então...a arrumação dos livros é temática e baseada em correlações misteriosas, cabendo ao freqüentador e leitor descobrir quais são e até mesmo sugerir outras novas.  Por exemplo, Thiago de Mello fica ao lado de Cora Coralina; logo depois vem Adélia Prado e em seguida Hilda Hilst. Paulo Leminski obrigatoriamente tem que estar ao lado de Alice Ruiz, sua eterna esposa e parceira poética, como também de Torquato Neto e Ana Cristina César.  Sartre perto de Simone de Beauvoir, naturalmente.  É justo que  Jorge Luis Borges fique ao lado dos três volumes do Livro das Mil e Uma Noites, pois ele adorava essas histórias. Junto de Borges, do outro lado, tem que estar Garcia Márquez, o Gabo. Depois vem Julio Cortazar, numa linha de “latinidade” e estilo. Muito cuidado: jamais deixar Gabriel perto de Vargas Llosa, senão no dia seguinte a livraria pode acordar uma bagunça, uma quebradeira só, se Garcia Márquez resolver vingar o soco que recebeu de Llosa em 1976.

E assim eu passaria tardes inteiras, só olhando as prateleiras, imaginando as conexões e discutindo com o vendedor:

- Mark Twain não tem nada a ver com Albert Camus, separa esses dois...

- Bom, considerando "Tom Sawyer" você tem razão, eles são totalmente diferentes, mas lembre daquele livro dele, “O estranho misterioso”...nesse ele pega pesado em questões existenciais!

- ah, é verdade, eu tinha esquecido. Esse realmente se aproxima do Camus. Olha, vou dar uma sugestão: eu colocaria Leminski e Clarice não na mesma linha, mas unidos, assim, por uma linha diagonal, meio torta, sabe? 

- Clarice e Leminski? Essa é nova pra mim, eu não vejo relação entre os dois...

- ah, mas tem. Só que é assunto pra outra conversa, porque agora eu tô de saída. Mas só uma coisa, sem querer pentelhar mas já pentelhando: fora o fato de que são dois velhinhos narigudos e poetas excepcionais, não tem muito a ver Mario Quintana junto de João Cabral. Não dá pé, viu?


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Amor e seu tempo

- Você me ama? - perguntou Marthe, sem transição.
De repente, Mersault animou-se e riu muito alto. 
- Eis uma pergunta muito séria. 
- Responda.
- Mas na nossa idade não se ama. Um agrada ao outro, só isso. É só mais tarde, quando se fica velho e impotente, que se consegue amar. Na nossa idade, a gente pensa que ama. É só isso, nada mais. 


(Trecho de "A morte feliz", de Albert Camus. Já o título é de uma poesia de Drummond)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Let's play that



Eu andava muito curiosa em busca de Torquato Neto, ávida por conhecer um pouco mais do poeta/multi mil coisas, depois que descobri a relação entre seu suicídio a música Cajuína. Olhei no Google, li um pouco e “arquivei” para continuar a busca em outro momento.
Até que em um fim de tarde, no trabalho, escuto a música “Um dia desses”, do belo CD “Maré” de Adriana Calcanhoto. Penso que deve ficar ótima no violão e decido pegar a cifra quando estiver em casa. Qual não é minha surpresa quando descubro que foi composta por Torquato Neto. Suprema sincronicidade. Foi o estopim para que eu “desarquivasse” o assunto Torquato e começasse a ler bastante sobre ele, no entanto as fontes na internet não são muito boas. Então em um belo domingo, estou na Siciliano fazendo hora quando, de brincadeira, vou ver se acho alguma coisa de Torquato. Digo de brincadeira porque a Siciliano só vende “best sellers” ou alguns clássicos. Torquato é tido como poeta marginal e não é tão conhecido. Mas para minha absoluta surpresa encontrei, e disponível no estoque aqui em Natal, o primeiro volume da obra completa – Torquatália, que estou lendo.

Uma das coisas mais bacanas de pessoas e poetas como Torquato é a contradição, a urgência, o tudo ao mesmo tempo agora. É lindo ver a ironia convivendo com a doçura, a rebeldia com a precisão e o rigor técnico. O “desafino do coro dos contentes” dançando com uma certa nostalgia...
Ele, o mesmo Torquato, foi capaz de letras que só posso definir como fofas, com grande apelo sentimental, como a já citada “Um dia desses”, que tem um trecho assim:
meu pobre coração não vale nada
anda perdido, não tem solução
mas se você quiser ser minha namorada
vamos tentar, não é?
não custa nada
até pode dar certo ai ai
e se não der eu pego um avião,
vou pra xangai
e nunca mais eu volto pra te ver.


E “cometeu” também poesias maravilhosamente malucas como “Let´s play That”, pegando carona no anjo de Drummond:


Quando eu nasci um anjo louco muito louco
Veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes


E o anjo estava certo. Ele desafinou um bocado...