quarta-feira, 28 de julho de 2010

Babylon, as portas da percepção ou qualquer coisa assim

"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito." (Blake)

Flutuo em um tempo
que não se mede em horas, minutos ou segundos
Meu tempo particular
Que me conduz
etérea
a brincar de ser, de vez em quando,
eterna


Vivo em um lugar
que não tem chão, não tem paredes
Que me deu o hábito de voar
e conhecer outras paragens sem nenhum esforço


Nesse tempo que não dói
Nesse lugar no qual não me firmo
perdi o medo de fantasmas
agora eu os convido
e quando eles chegam
Abro a porta de madeira de sonho
e bebemos juntos
numa alegria depurada por lágrimas
(já que, de bom grado, dei tudo, eles nada mais podem me tirar)


E assim eu vou
Amando
Morrendo
Ressuscitando
Percorrendo linhas tortas
impulsionada pelo vento
ao encontro do que sou:
o mais puro sentimento. 

(2007)

terça-feira, 27 de julho de 2010

A viagem de Agenor

Quando o despertador tocou às cinco e meia, ele acordou. Abriu o olho direito (para dar sorte. Sempre abria primeiro o direito). Depois o esquerdo.  Mexeu os dedos do pé direito. Do esquerdo. Sentou na cama. Calçou os chinelos. Levantou. Pé direito, depois o esquerdo.  Lembrou que hoje não iria trabalhar. Férias. Mais do que férias: viagem.   Caminhou em direção ao banheiro e iniciou com prazer o ritual já conhecido. Mas, dessa vez, ao invés da repartição, era o avião que o aguardava. 
 Sorriu satisfeito. Não que não gostasse do trabalho. Não, não era isso. Ele amava o  trabalho. Mesmo que sua chefe fosse uma mulherzinha sem competência, mulherzinha ridícula, que ficava fazendo charme (sim, ele percebia) para aos homens que ia atender no balcão.  Atendia primeiro os homens, deixava as mulheres esperando. A fêmea nojenta. A meretriz. E ainda chegava atrasada, sempre atrasada. Desorganizada, o gabinete dela é um horror.  Ele não.  Ele, Agenor, é outra história. Um primor.  Cada cadeira em seu lugar. Na mesinha, um porta-retratos com a foto da  mãe. Canetas no porta-lápis.  Arquivos rigorosamente arrumados, primeiro por assunto, e em seguida, dentro de cada assunto, em ordem alfabética. Trabalho é método. Vida é método.
Terminou o banho com esses pensamentos. Vestiu cuidadosamente a calça social, depois a camisa, abotoou até o colarinho, fechou os botões do punho. Cinto. Meias. Sapatos.
Sapatos. Sapatos são peças essenciais. A não ser que esteja na segurança de seu quarto, não os tira nem mesmo para dormir.
Saiu do quarto. Apagou a luz. Encostou a porta. Caminhou até a cozinha. Dona Maria das Dores já o esperava, colocando a mesa com um café de aroma sem igual.  Aliás, qualquer comida que ela preparasse adquiria esse cheiro característico, cheiro de esmero, de limpeza.  Tomou café, despediu-se da mãe com um beijo na mão e saiu em direção ao aeroporto carregando sua bagagem. Destino:  Manaus.
O vôo transcorreu sem maiores desarranjos.  As aeromoças ofereceram balas, refrigerante e suco ( as viagens de avião não são mais como antigamente!).   
Ao desembarcar, dirigiu-se ao hotel.  Instalou-se, passou a tarde vendo TV. Veio a noite, e a ansiedade lhe tocava os nervos.  Rezou de joelhos, pediu perdão antecipadamente ao seu bom deus e tomou a decisão. Como sempre. Era assim que as coisas aconteciam quando viajava de férias.
Pegou o jornal comprado ainda no aeroporto e começou a pesquisar:

Ronaldo – “Realizo suas mais secretas fantasias
James – “Companhia agradável e muito quente
Lover boy - "Sou alto, moreno, musculoso...o resto só conto pessoalmente"
Vanny – “Boneca que gosta de levar, mas também tem pra meter

Pronto. Vanny. Seu coração bateu apressado ao ler o anúncio. A afinidade foi instantânea. Ele sentiu o querer entrando,  infiltrando-se, passo a passo, no seu corpo. Boneca…multiuso, sim, multiuso, faz as duas coisas. “Aquelas” coisas.
Sobressalto no peito.  Mas o pedido de perdão já foi feito, e, além disso, ao retornar iria subir a escadaria da catedral de joelhos e passaria mais onze meses vivendo na virtude, ao lado da mãe. Esses pensamentos desanuviaram sua mente. 
Pegou o telefone.  Discou. Primeiro o três, depois o seis. Dois. Três de novo.  Lentamente.  Saboreando. Com um misto de satisfação e terror. Para sua alegria, quem atendeu foi a própria Vanny. Boneca. E que voz! Marcaram o encontro para dali a uma hora,  no apartamento dela.
Começou então um novo ritual. Banho demorado. Calça social. Camisa. Colarinho. Punhos. Meias. E sapatos. Ah, os sapatos…
Quando chegou, não se surpreendeu com o apartamento de sua boneca, por mais que não fosse de seu agrado um lugar como aquele.  Minúsculo. Sujo. Paredes nojentas. Roupas espalhadas. Cama desfeita. Cheiro de pecado.  Mas quando Vanny acariciou seu rosto, enquanto lentamente passava a língua pelos lábios, com um olhar insinuante que o media de cima a baixo, levantando as sobrancelhas num convite, todo o resto perdeu importância.  Os cabelos, muito loiros, pendiam sobre os ombros. Não, ultrapassavam os ombros, eram lindos e longos aqueles cabelos. Os olhos, muito pintados, davam-lhe um aspecto “noir”, deixavam-na parecida com uma entediada dama francesa.  Os seios, ah, os seios…Imensos e duros, duros como nenhuma daquelas meretrizes lá do trabalho era capaz de ter.  Saltando da blusa levemente transparente.  A saia curta,  rodada, aumentava ainda mais o mistério e alimentava seu ar de francesinha.
Beijaram-se, isso mesmo, beijaram-se. Porque para Agenor o beijo era sinal de amor, e como que purificava e elevava e purgava todo aquele nojo. E o beijo, claro, estava no acerto prévio que fizeram. Não podia faltar. Mas ele sentiu que, apesar de tudo, aquele não foi um beijo comprado. Vanny, sua boneca, ela também o amou desde o primeiro momento.
Depois do beijo, ele cuidadosa e lentamente desabotoou sua camisa. Tirou a calça. Sempre escolhia uma calça larga, que pudesse passar pelos sapatos. Pendurou a roupa no cabide, com cuidado para não amassar.  Caminhou com Vanny até a cama.  Sentou, pediu que ela ficasse de pé junto a ele. Queria olhá-la em silêncio, sem pressa.  Apreciou seus cabelos. Deixou que ela mordesse seus dedos. Deslizou a mão pelos seus seios. Desceu até a barriga. Depois, quadris.  E então parou. Queria conferir dramaticidade ao momento.  Respirou fundo. E lentamente, concentrado como quem faz uma oração, levantou a saia. Seu coração disparou. Como era lindo aquilo, como era lindo! Daquele corpo de mulher brotava, ereto, o segredo da sua boneca, da sua francesinha.  Só não quis morrer naquela mesma hora porque ainda precisava subir as escadarias da catedral, não poderia morrer em pecado. Mas felicidade como aquela, ah, felicidade como aquela não existia.
E se esbaldaram, exatamente como ela prometera no anúncio.  Seu único defeito era querer desamarrar os cadarços dos seus sapatos. Era a única coisa que fazia com que ele se zangasse um pouco com sua bonequinha, afinal só ia para a cama sem sapatos na segurança do seu quarto. Isso desde menino. O que sempre foi e é não se muda, não se deve tentar mudar.
Depois do amor, Agenor sustentava em seu ombro a cabeça adormecida de Vanny. Os sapatos desamarrados incomodavam um pouco, mas continuavam nos pés, então não havia problema.  Desfrutava dessa felicidade, dessa calma, quando a porta foi aberta de chofre e dois homens invadiram o apartamento, arma em punho. Antes de possibilitar qualquer reação, correram para a cama, acordaram Vanny puxando-a pelos cabelos.   
Traveco safado, paga essa porra agora ou vai comer formiga”. 
Sequer deram importância à sua presença, à sua cara de horror.  E começaram uma sessão de tapas no rosto (o lindo e francês rosto de sua bonequinha), empurrões, "só não arranco esse pau porque tenho nojo de pegar, seu traveco imundo”, socos.  
Agenor perguntou o que era, quanto ela devia, e a resposta: “fica na sua, coroa boiola”.
Quando tiraram uma tesoura e começaram a cortar o cabelo da sua Vanny, ele não suportou.  Num lance de coragem e falta de método, saltou da cama. Um dos sapatos caiu dos pés. O outro saiu também, logo depois dos primeiros passos. Avançou num dos homens, distribuiu pernadas, socos, pontapés, agarrou-se com um deles.
Aí sentiu o impacto. À queima-roupa. O projétil penetrou no seu corpo abriu um buraco enorme rasgou sua carne explodiu lá dentro saltou sangue suas vísceras se despedaçaram seu interior se desmanchava de forma caótica incontrolável estômago pulmão coração tudo era uma coisa só uma mesma massa sem forma definida sem padrão sem divisão sem ordem. Tombou. Caiu.
Os dois, assustados, saíram correndo, deixando a porta aberta, Vanny histérica e Agenor jogado no chão, sem sapatos. Feliz. Sua boneca francesa estava salva. 
Quando ligaram avisando, Dona Maria das Dores não acreditou. Entrou em desespero. Seu único filho, como podia? E tinha certeza de que o local em que encontraram o corpo foi uma armação, uma sórdida armação. Assaltaram seu bebê, mataram e depois o jogaram naquele apartamento imundo. Bandidos dos infernos! Este mundo está perdido, só há salvação no outro. Providenciaria para seu filho um enterro digno, limpo, austero, como ele merecia. Uma coisa, porém, Dona Maria das Dores nunca compreendeu e nunca teve coragem de comentar com ninguém: o sorriso lascivo, desordenado, torto, de Agenor, seu nonôzinho, seu santo menino, naquela foto de jornal.   

(2006)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O direito de odiar

Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. 
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa)

O ódio é considerado um sentimento ruim. As religiões, a moral e as regras do politicamente correto determinam que não se deve odiar.  Mas será que os sentimentos são bons ou ruins por si mesmos, e estão subordinados à nossa vontade? 
Antes de qualquer coisa, um esclarecimento: não falo aqui do ódio institucionalizado, como o que motivou o nazismo, ou do ódio enraizado pelo preconceito, ou ainda do ódio cultivado e praticamente exercitado como estilo de vida. Esses são casos extremos, casos de distorção. Falo do ódio como justa reação a um mal, como indignação, revolta e reflexo. Ódio como processo, como caminho. Vou chamar esse sentimento de ódio justo. 
Sentir raiva, ódio e desejo de vingança é humano e instintivo. Querer sufocar essa raiva é cultural. Os sentimentos simplesmente surgem, e lutar contra eles de modo repressivo é uma luta vã. O ódio é um tipo de paixão, é um sentimento arrebatador. Ninguém decide odiar, como ninguém decide, também, amar. Sendo assim, decidir perdoar é uma medida totalmente inócua. O perdão vem quando há espaço para ele. Aos que argumentam que perdoar é divino, respondo que somos simplesmente humanos e estamos continuamente aprendendo a viver. E lembro que no novo testamento consta uma passagem em que Jesus expulsou comerciantes do templo, virou mesas e derramou dinheiro pelo chão. Ou seja, ele reagiu, e reagiu com fúria. 
Devemos nos permitir a fúria, a raiva. Odiar faz bem ao estômago, à respiração. Um ódio sufocado gera gastrite, deixa a respiração presa, dá dor de cabeça, nó na garganta. Reprimir os sentimentos a pretexto de perdoar não conduz à paz verdadeira. Quem nunca odiou nada ou ninguém ou atingiu um altíssimo nível de elevação espiritual ou está mentindo. 
Mas como exercitar o sagrado direito de odiar sem se envenenar, sem deixar que a vida fique parada nessa estação? 
Acredito que a melhor maneira é, em primeiro lugar, permitir-se sentir. Os psicólogos costumam ressaltar, por exemplo, a importância do luto, da vivência da dor na superação de uma perda. É preciso ficar triste, é preciso encarar de frente o sofrimento para poder se reerguer. Sem isso, a recuperação é superficial. Então defendo a mesma coisa: é preciso viver o ódio justo. Ninguém pode ser obrigado a perdoar uma maldade deliberada, sobretudo quando o malfeitor não expressa nenhum arrependimento; ao contrário, vangloria-se de suas atitudes. Quem não conhece pessoas assim? Consideram-se onipotentes e se acham no direito de ofender e humilhar. 
Pois então fica decretado: Todo ser humano tem o direito de odiar com ódio justo, de não interromper o passeio vigoroso desse sentimento pela alma. Porque crescer significa conhecer e aceitar a própria condição humana, e não se esquivar dela. Um dia o ódio se cansa, vai embora,  e o perdão vem com naturalidade e ocupa o seu lugar. Ou não.   


quarta-feira, 21 de julho de 2010

O que vem depois de sábado

Li hoje uma reportagem sobre astrologia. Segundo o astrólogo, quem está preocupado com 2012 pode relaxar (ou enlouquecer de vez) porque o mundo acaba mesmo é no dia 07 de agosto de 2010. Segue um trechinho:

"Nos meios astrológicos está circulando este horóscopo para o dia 7 de agosto próximo. Teremos em 2010, mais precisamente no final de Julho de 2010, um alinhamento que (felizmente) não acontece todo momento. Urano, planeta regente do signo de Aquário, um dos três “deuses da mudança”, geralmente associado a processos de quebras e rupturas radicais em modelos vigentes, completa uma volta e chega ao primeiro grau de Áries, que é também o primeiro grau de todo o Zodíaco. Só isto, já é um acontecimento astrológico significativo, que marca um momento de renovação.
Junto a Urano, vem Júpiter. Considerado pelos antigos como o grande “benéfico” do Zodíaco, Júpiter também está associado a avanços em paradigmas ideológicos.
(...) Como podemos ver, este alinhamento marca o início de uma mudança radical. As pessoas estão fazendo barulho a respeito de 2012 mas, na verdade, o mundo acaba mesmo é em 2010. Pelo menos o mundo tal qual o conhecemos até aqui.
O céu de 2012 não apresenta nenhum aspecto astrológico radical. Nenhum que chegue próximo ao que teremos esse ano. E não bastasse o encontro de Júpiter e Urano em Áries, temos ainda a posição de Saturno, senhor do tempo e das colheitas nos primeiros graus de Libra, fazendo uma “oposição” exata à conjunção Júpiter-Urano. E Saturno não está só. Com ele vem Marte que, como todos sabem, é o senhor da guerra. Se isso tudo não bastasse, Plutão, outro “deus da mudança”, implacável e compulsivo, faz uma “quadratura” a esse povo todo, nos primeiros graus de Capricórnio, outros signo cardinal.
O céu está pesado. De todas as conjunções anteriores que eu citei, essa é, sem dúvida, a mais tensa e a mais radical. O velho e o novo estão cara-a-cara para um confronto que já se anuncia há uns três anos. O que está vindo pela frente?
Quem tiver olhos, verá… Um velho mundo morrendo, e um outro, novo, nascendo…"

Quando li isso, me veio logo à cabeça o trecho de um poema de Leminski:

você nunca vai saber 
o que vem depois de sábado 
quem sabe um século 
muito mais lindo e mais sábio 
quem sabe apenas 
mais um domingo 

Olhei no calendário e...bingo! 07 de agosto é precisamente um sábado. 

Grande Leminski, agora além de samurai, cachorro louco e Kamiquase, é profeta!

Quanto a mim, com licença para uma meia-frase clichê: Non creo en las brujas, pero ...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Notas sobre o desamparo: Deus, fé e religiosidade nas músicas profanas (parte I)

Não a música dos “padres cantores”; nem mesmo a do padre Zezinho, por quem tenho admiração. A idéia é falar do deus presente nas letras de Gilberto Gil, Chico Buarque, Chico César e até mesmo Cazuza e Renato Russo, dentre outros. O deus da dúvida, da contradição, o Deus imenso em contraposição ao limitado sentimento humano (muito humano).
Trata-se de uma idéia sem nenhuma pretensão, fruto do ócio de alguns anos atrás (bons anos), com a intenção de refletir sobre o deus imaginado por esses compositores. A primeira música escolhida é bastante óbvia: Se eu quiser falar com Deus, de Gil.
Ele começa mencionando a necessidade de uma  preparação para esse encontro, que deve ser um momento íntimo:
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós,
Tenho que apagar a luz,
Tenho que calar a voz,
Tenho que encontrar a paz
Não se busca Deus para ter paz, e sim encontra-se a paz para poder ganhar uma “audiência” com ele. 
Logo na segunda estrofe vêm as diversas referências às idéias católicas de pecado, imperfeição e até mesmo humilhação. O homem é pequeno e vil diante de Deus, e para se aproximar dele precisa passar por diversas provações :
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor,
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou.
Tenho que virar um cão,
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho,
Tenho que me ver tristonho,
Tenho que me achar medonho
No final, a idéia do desamparo, da incerteza, da imensidão do que se pretendeu em vão compreender. Para falar com deus, é  preciso se aventurar, subir aos céus sem uma corda pra segurar, em busca de uma estrada...que ao findar vai dar em nada, nada..do que ele pensava encontrar. 
Essa música me dá a impressão de que, para Gil, Deus não cabe no nosso pensamento nem nas nossas perspectivas...Falar com Ele implica a opção consciente pelo risco, pela possibilidade do encontro com o inesperado, que está, para o bem ou para o mal, totalmente além de qualquer expectativa humana. No vídeo a seguir ele próprio  canta sua música. Atenção para o apresentador declamando, próximo do final, um texto de Guimarães Rosa:




Para finalizar essa primeira parte, trago a versão de Chico Buarque para Gesù Bambino, de Lucio Dalla. Não é uma música que fale explicitamente de Deus. Ela apresenta o destino irônico do personagem  nascido de um relacionamento passageiro entre um provável marinheiro e uma mulher que se entregou a ele com paixão. A criança  era venerada pela mãe e acalentada com cantigas de cabarés; por ironia e por amor, ganhou o nome do "menino Jesus":
Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Nessa música fica patente a ironia da vida, da fé, e também o próprio desamparo do homem frente ao seu destino:
Minha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus

Na voz de Maria Bethânia:



Para que servem os livros?

Ultimamente tenho visto discussões sobre internet e “emburrecimento”. 
Vim ter acesso à rede quando já estava na faculdade, por volta de 1997/1998, depois de comprar um computador com o dinheiro da bolsa de estágio. Se por um lado hoje não imagino a vida sem internet, por outro é indiscutível que ela está causando um tremendo mal para quem já nasceu com o “google” à disposição e se acostumou a um mundo restrito a 140 caracteres. 
A propósito desse assunto, saiu na revista “Isto é” desta semana uma reportagem intitulada “Torpedos literários”, falando de uma versão “supercondensada” de obras primas da literatura, que resume 90 livros, chamada de “Twitterature”. 
Transcrevo a seguir um trecho dessa reportagem: “o aparecimento desses livros aponta para dois fenômenos da atualidade. O primeiro é o reconhecimento de que os grandes livros pertencem definitivamente ao passado; o segundo é a sensação de que, nessa época de incessante informação on-line, as pessoas não estão encontrando tempo para conhecê-los”. 
É evidente que, hoje em dia, diante das múltiplas atividades de crianças, jovens e adultos, o tempo realmente é menor. Mas isso não significa que não exista tempo para os livros. Ora, se as pessoas podem passar duas/três horas por dia vendo “vídeos engraçados” no youtube, “imagens divertidas”, PPS recebidos por email, ou então digitando bobagens no twitter, enviando asneiras pelo orkut, facebook e afins, lendo cinco jornais on line (invariavelmente com as mesmas notícias) fica mesmo impossível conseguir ler.  Então se vê que tudo não passa de uma questão de prioridade. 
Não acho que um bom livro tenha que ser necessariamente grande; mas existem milhões de coisas que não podem ser ditas em apenas 140 caracteres. 
No Twitterature  “O estrangeiro”, de Camus,  é resumido assim:
Mersault é um camarada existencial que não acredita em nada. Ele pode suar, mas não chora no funeral da mãe. Certo dia de sol, Mersault mata um árabe na praia inspirando uma música do Cure. Ele pega a pena de morte e fica consolado quando percebe que o universo não se importa com qualquer um de nós. Isso deixa a gente feliz.” 
Com perdão pela expressão, mas que porra é essa? Não é uma historinha linear que faz de “O Estrangeiro” um grande livro. São os diálogos, são as entrelinhas...às vezes cabem dezenas de reflexões em um único diálogo. Isso com Camus e com todos os bons autores. 
Segundo a reportagem, Alexander Aciman, co-autor do Twitterature, ainda diz: “existem pessoas que nunca vão conhecer Marcel Proust ou James Joyce e, nesse caso, nosso trabalho oferece uma pequena porção dos romances desses autores. É infinitamente melhor ter acesso a esse aperitivo do que nunca ter ouvido falar deles.
Então o livro, segundo esse rapaz, serve apenas para dar um verniz cultural. Pra que o sujeito não fique boiando na conversa quando se falar em Proust. Eu nunca terminei de ler Proust, mas prefiro a dignidade da minha ignorância a esse tipo de engodo. 
Além disso, existe o prazer de ler, de descobrir estilos, de apreciar cada página. A leitura de um bom livro é uma viagem em que nem sempre o melhor é a chegada.  Como disse Paulinho Moska, “então me diz, qual é a graça de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada?


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Música para o coração

Não consigo imaginar um mundo sem música, uma vida sem trilha sonora. A música é uma espécie de máquina do tempo: quem nunca foi pego de surpresa por uma melodia antiga, que não ouvia há anos, e de repente se viu em outro lugar, outra época, reviveu sentimentos, cheiros, cores…às vezes até sem lembrar nomes, datas, mas tendo de novo as mesmas sensações. 
 Bem pequena, eu escutava um rádio enorme, antigo, que só sintonizava AM. Meu primo me provocava dizendo que era uma “fubica velha”, mas eu amava aquele rádio. Passava horas ouvindo notícias e comerciais, esperando ansiosa pelos meus cinco minutos de êxtase, quando finalmente tocava alguma canção.  Depois ganhei um “radinho de pilha”, desses que os aposentados até hoje usam para ouvir jogos sentados em bancos de praças.  
Porém nada me fascinava mais do que os toca-discos e os discos que existiam na casa da minha tia, onde eu costumava passar férias.  Em uma determinada época, eis que surge uma novidade: o “três-em-um”, que tocava fitas cassetes, AM/FM e discos. Minha tia comprou e para minha felicidade doou para minha mãe o antigo toca-discos, junto com alguns compactos. Havia um compacto do Blitz, em que de um lado as vozes histéricas pediam “Garçom, traz uma porção de bata frita” e do outro não havia música, e sim apenas Evandro Mesquita dizendo: “nada, nada, nada, nada…” E tinha Gigliola Cinquetti, Perla, Fabio Junior, Balão Mágico, Gilbert, Roberto Carlos, Fagner... e o que eu mais adorava:  Lílian cantando “Eu sou rebelde”, a música-tema da minha infância. É que eu fui uma criança meio desajeitada, do tipo que nunca é escolhida “rainha do milho” e não se integrava nos grupos para participar das dancinhas na escola. Na época do “Ursinho Pimpão”, do Balão Mágico, eu cheguei a decorar alguns passinhos da dança, mas nunca apresentei. Fiquei só de longe invejando as roupinhas e a meia calça cor de rosa das minhas colegas.  Então ouvir “eu sou rebelde porque o mundo quis assim” enchia o meu mundo infantil de melodrama e de razão! 
Outra memória que tenho é a de Fagner invadindo a casa com aquela voz marcante, cantando “Fanatismo” em um disco que tinha também “Años”, em dueto com Mercedes Sosa. E me emocionava, ah, como me entristecia ouvi-lo dizer “que tu és como um deus, princípio e fim.” Só muitos anos depois, já adulta, descobri que a letra é na verdade uma poesia da portuguesa  Florbela Espanca.
Ainda nesse tempo, lembro também de como quis fugir do enterro do meu avô paterno, e meu modo de fugir foi me escondendo atrás de uma porta para cantar. Cantar e esquecer. Naquela época, quando alguém morria a gente tinha que ficar uns dias sem ligar rádio, televisão, enfim, o luto era bem rígido.  Eu me escondi para cantar, e estava nesse encontro clandestino com o meu avô ainda vivo, longe do caixão, longe das pessoas de preto, quando fui repreendida por alguém que disse que era pecado ficar cantando em enterro. E assim aquela mulher de véu preto e temente ao seu Deus e à sua noção trôpega de pecado me encheu de culpa e me trouxe de volta a uma realidade muda e surreal, de sentimentos afetados, em que a obediência aos códigos de conduta reprimia a mais sincera forma de sentir saudade de que eu era capaz. 


quarta-feira, 14 de julho de 2010

Meu próximo filósofo preferido

Será o francês Michel Onfray. Ontem, por acaso, chegou às minhas maõs uma revista antiga e não menos por acaso abri na página de uma entrevista com ele. Viva o acaso, que frequentemente está ao meu lado (e, como diria Paulo Leminski, ai dele se não estiver!)
Li a entrevista e procurei diversas outras informações sobre o autor, pois fiquei muito curiosa. Ele defende, dentre outras coisas, a substituição da religião pela filosofia e o que chama de hedonismo ético. Defende a liberdade no sentido mais complexo da palavra. Explico: muitos interpretam liberdade apenas como poder ir e vir e ter autonomia para pagar as próprias contas. Mas quase sempre se vêem presos à burocracia, a esquemas de vida que não foram livremente escolhidos, e sim  simplesmente seguidos por falta de questionamento. Em resumo, ele postula o "não ir com os outros" só por convenção. Na verdade, ter que definir o próprio destino é tarefa cansativa e muito difícil (quem sabe um dia eu consiga). Diz o filósofo em uma de suas entrevistas: "É preciso inventar novas possibilidades de existência". Esta é uma idéia que me vem à mente constantemente, mas poucas vezes tenho coragem de expressar, porque ou parece coisa de quem não tem mais nada de prático ou importante para pensar, ou parece coisa de doido. Mas quem foi que disse que temos que viver exatamente assim, desse modo linear, trabalhando oito horas por dia, casando, tendo filhos, nos aposentando  para, finalmente, sentar "no trono de um apartamento" para esperar a morte chegar? Trata-se de um modelo de vida eminentemente histórico, construído, mas desde sempre nos parece algo imutável, uma espécie de lei universal (ok, já houve época em que eram 14 horas de trabalho por dia, mas isso não vem ao caso agora).
Essas mesmas idéias, de construção do próprio destino, estão presentes em Camus, outro autor que eu adoro. 
Onfray critica também o sistema de ensino. Na verdade, ele considera que tal sistema é de adestramento, e não de educação. E afirma: Nietzsche dizia que um bom mestre é aquele que ensina os alunos a se desligarem dele. Então é preciso ensinar as pessoas a se desligarem de seus mestres, a serem mestres de si mesmas. É um estranho paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir. O que interessa é que as pessoas tenham uma relação direta com a filosofia, na qual eu serei apenas um mediador. Eu sou feito para desaparecer.
Outro ponto interessante é que Michel Onfray, pelo que pude ver, é bastante coerente...na piscina dele não existem ratos. Por não concordar com esse sistema de ensino, ele  pediu demissão das universidades francesas e fundou uma universidade Popular Gratuita, mas sem diplomas, onde o essencial é aprender. E vive hoje dos seus direitos autorais. Sobre quem afirma que ele repete idéias e argumentos antigos, sobretudo no que diz respeito às críticas à religão, ele responde: Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. 
Alguns livros dele em português: A política do rebelde; O ventre dos filósofos; Contra história da filosofia; Tratado de ateologia.
Ainda não li nenhum, mas ele está como prioridade na minha lista. 
Agora, para finalizar esse texto de modo não linear, bagunçando a linha de argumentação até agora empregada, que vinha sendo no sentido de salientar as prováveis qualidades do texto do Sr. Michel, devo dizer que, além de libertário e ético, ele é um "coroa" francês super charmoso, com aquela carinha fofa de intelectual abusado!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Letras brasileiras

Oswaldo Montenegro conta que em 1997  encontrou Roberto Menescau em um aeroporto. O vôo tinha atrasado e os dois começaram a conversar sobre letras de músicas brasileiras e a citar trechos que consideravam verdadeiros poemas, a exemplo de calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo ainda era flor. Daí surgiu o projeto letras brasileiras, com alguns CDs em que Oswaldo canta poesia. 

Às vezes me pego pensando, também, em certas letras, no quanto parecem ter sido milimetricamente construídas e ao mesmo tempo fruto de grande inspiração (uma coisa não exclui a outra!). Não cito Chico Buarque nem Caetano, porque é covardia.  Também estou dando preferência, neste momento, a compositores mais recentes, daí a ausência de Cartola e outros. E afinal de contas isto aqui é apenas uma pequena e modesta lista, e listas são sempre falhas e incompletas.
Seguem, então, alguns trechos que considero muito bonitos ou que simplesmente me tocam:

Poesia vã
Pobre verso meu
Que brota quando feneceu
A mesma flor que concebeu
Perdido na alucinação
Do amor
Acreditando na ilusão.
(Teresa Cristina e Pedro Amorim)

xxx

Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro
(...) Eu sou pelo avesso sua pele
O seu casaco
(Adriana Calcanhoto)


xxx

Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida vida, noves fora, zero
Quero viver, quero ouvir, quero ver
(Zeca Baleiro)

xxx

Um barco sem porto sem rumo sem vela cavalo sem sela
Um bicho solto um cão sem dono um menino um bandido
Às vezes me preservo noutras suicido
(Waly Salomão / Jards Macalé / Zeca Baleiro)

xxx

E acende a luz, mas essa luz me cega
E abre em rosa a pedra que no peito eu trago
(Chico César)

xxx

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
(Cazuza)

xxx

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
(Cazuza)

xxx

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
(Cazuza)

xxx

Quem gritou pelos bares
Que amava (e amar dói)
Nos livrou do bom senso
Nos salvou do juízo
É um herói
(Oswaldo Montenegro)

xxx

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
(Arnando Antunes/Alice Ruiz)

xxx

Viver ou morrer é o de menos
a vida inteira pode ser qualquer momento
ser feliz ou não: questão de talento
(Iara Rennó / Alice Ruiz)


Festival Mormaço


Aconteceu em Natal neste fim de semana o Festival de Rock Mormaço. Estive lá no segundo dia, quando se apresentaram as seguintes bandas:
  • Driveout
  • Clara e a noite
  • Lunares
  • Bon Vivant (PE)
  • Camarones
  • Móveis Coloniais de Acaju.
A primeira banda foi um espetáculo...de barulhos dissonantes, de sons metálicos e estridentes, que literalmente doíam nos ouvidos. Se a proposta era incomodar, eles conseguiram.
A segunda banda foi anunciada como revelação. A vocalista chegou, muito estilosa, com os demais músicos, e o baterista bombadinho usava apenas uma bermuda e uma gravata. Cantaram uma versão terrível de come together, dos Beatles, e tudo o mais que tocaram, ainda que não fosse versão, parecia com alguma música que eu já tinha ouvido. E a vocalista o tempo todo fazia caras e bocas e umas dancinhas totalmente forjadas. Eu penso assim: não dá pra começar já querendo ser “celebridade”. Se você não é louco igual ao Ian Curtis (que misturava passinhos de dança com ataques epilépticos reais), se não é irreverente igual ao cazuza, melhor não se exibir demais, porque vai soar falso.  O que não significa você não possa "arrasar"  um dia, depois de alguma estrada, depois de ter um estilo próprio. Que o diga Michael Stipe, vocalista de uma das melhores bandas do rock recente (pra mim a melhor), o REM. Stipe praticamente se escondia das câmeras no início, mas com o tempo desenvolveu um jeito autêntico e inconfundível de se apresentar. 
Bom, depois da performance de Clara e a Noite veio Lunares, que só queria ser o U2, sem nenhum êxito. Também não senti originalidade nem ouvi boa música. 
Até que entrou o pessoal do Bon Vivant. Detesto reforçar esse complexo de inferioridade cultural que já temos em relação a Pernambuco, mas eis o melhor da noite até então. Os rapazes tocaram bem, cantarem bem e as músicas eram legais. E me arrisco a dizer que eles ouvem Los hermanos, pois senti uma certa referência dos hermanos no som. Ah, detalhe: nem precisaram de grandes “ousadias” no palco. Eu diria que o único destaque visual ficou com o all star vermelho do vocalista!! E eles foram super simpáticos, conversaram com o público, agradeceram várias vezes a oportunidade de tocar, enfim, umas gracinhas.
Em seguida veio a orquestra de guitarras, com muitos cabelos ao vento. Confesso que foi barulho demais para meus ouvidinhos sensíveis. 
Não fiquei para ver a atração principal (Móveis coloniais de Acaju), que já conhecia pelo Youtube. 
Mas no fim das contas pra mim o melhor do festival foi mesmo o público. Logo que entramos, éramos três e mais os garçons, seguranças etc. Fiquei decepcionada, mas depois o pessoal começou a chegar. A casa não lotou, mas até que encheu, e tinha muita gente dançando e se divertindo de verdade. No fim das contas, o melhor do festival foi a sensação alentadora de que  nem só de forró e axé vive esta cidade. 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Justina

Num tempo em que o tempo não tinha pressa
E a vida não era urgente 
Ela nasceu, amou, cantou e teve filhos.
Diz a lenda que não rejeitava uma "branquinha"
mas só de vez em quando, 
como convinha a uma senhora de respeito 
nascida nos idos de 1904.
Fico às vezes tentando adivinhar
Quantos segredos escondia
No que pensava quando sentava na calçada
Com o olhar distante...
Nas suas palavras, os livros de história ganhavam vida
Uma vez eu disse a ela que quando crescesse iria ser comunista
“pelamordedeus, deixe disso menina
comunista mata criança e depois come”
É doce lembrar das nossas brigas
“vem já  pra dentro,
Jogo de pedra é brincadeira do cão”
“ deixa de ser desobediente, larga essa bola,  menina não brinca dessas coisas!”
E só ela tinha o direito de interromper meus banhos de chuva
Ganhei dela um violão
E alguns cascudinhos  leves
(não necessariamente nessa ordem)
Minha avó. 
Cabelos brancos, pele branca.
Alma não tem cor, mas se tivesse a dela seria laranja. 
Amarelo resplandecente, cheio de luz
Temperado com gotinhas vermelhas de pimenta.

(Para minha avó e segunda mãe. 2006, seis anos após sua morte) 

terça-feira, 6 de julho de 2010

Confissões de uma mente perigosa

PRIMEIRA:
"Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida."
(James Joyce)

SEGUNDA:
- Não compreendo por que você vai embora, se está feliz aqui - dissera-lhe Catherine.
- Correria o risco de ser amado aqui, minha pequena Catherine, e isso me impediria de ser feliz.
Catherine, enroscada no sofá, com a cabeça um pouco baixa, olhava para Patrice com o seu belo olhar sem fundo. Sem se voltar, ele disse:
- Muitos homens complicam sua existência e inventam destinos para si mesmos.
(...) Nunca renuncie, Catherine. Você tem tantas coisas dentro de si, e a mais nobre de todas, a noção de felicidade.
(Albert Camus)

TERCEIRA:
Um jovem americano termina os estudos, praticamente entrega o diploma nas mãos dos pais e parte em uma viagem rumo ao Alasca. Livra-se do carro, queima (literalmente) o dinheiro. Ele não suporta a farsa da "felicidade" dos pais e da sociedade em geral. E quer encontrar um sentido através de uma jornada solitária e desapegada.
(breve sinopse do filme "Into the wild", dirigido por Sean Penn)

QUARTA: "Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada". (Oswaldo Montenegro)


...porque metade de mim é Hermógenes, mas a outra metade é Camus.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A vida por entre as frestas

Imersa em idéias 
alheia ao tempo 
Saio pelo mundo 
Faço mil viagens 
Avisto milhões de paisagens 
Deixo que o vento bagunce os meus cabelos
Componho músicas
Bebo nos bares 
Danço 
Me alegro 
Me surpreendo 
Vivo filmes inteiros  
Sempre e necessariamente como atriz principal 
Encontro um amor eterno e apaixonado
Sorrio, conheço e acaricio a vida
Da janela. 

(2004. Qualquer semelhança com a música "Paisagem da janela" não é mera coincidência. É plágio mesmo :)








Crime e consumo

Se eu pudesse, dava um toque em meu destino
Não seria um peregrino nesse imenso mundo cão
Nem um bom menino que vendeu limão.
Trabalhou na feira pra comprar seu pão.
Não aprendia as maldades que essa vida tem
Mataria a minha fome sem ter que roubar ninguém
(Guará/Fernandinho)


Há muito tempo o perfil dos criminosos vem mudando. Não se trata de negligenciar ou subestimar a realidade social dura enfrentada por milhões de brasileiros, que já nascem sem qualquer expectativa e crescem sem nenhum amparo. No entanto não se pode negar que atualmente, na maioria dos casos, não se rouba mais para matar a fome; não é mais a pobreza ou a falta de alternativas que impulsiona as pessoas para a criminalidade.  
É notória a participação da classe média no cometimento de crimes. Aqui em Natal isso é muito visível. Qual a motivação para delinqüir de alguém que nunca passou fome, nunca teve grandes dificuldades na vida? Essa é uma questão que vem incomodando. 

Embora não seja possível encontrar uma resposta definitiva, certos indícios podem ser identificados com base na observação da vida cotidiana: dos programas de televisão, das músicas de sucesso, das festas, revistas,  internet, e sobretudo da observação das pessoas que circulam em supermercados, shoppings,  enfim, da observação dos padrões sociais vigentes.  

Na televisão são freqüentes os programas que, seja sob a forma de documentário, seja sob a forma de ficção, incentivam a sexualização excessiva, a beleza física, o sucesso financeiro e o que se convencionou chamar de “felicidade”.  Isso sem falar nos reality shows, que mostram diariamente a cultura da futilidade e a venda da dignidade de pessoas que literalmente topam tudo por fama (por mais transitória e precária que seja) e dinheiro. Em programas sobre cirurgia plástica ou simplesmente “incrementos no visual” é freqüente ouvir que fazer uma cirurgia vai implicar um recomeço na vida das pessoas; trocar o guarda-roupa vai significar renascimento e a beleza exterior vai despertar todo um leque de boas sensações, vai revelar a pessoa como ela é. Nesse contexto, o esvaziamento de sentido das palavras reflete o esvaziamento de sentido da própria vida. 

Há muito nos afastamos, também, dos tempos em que o trabalho era um valor. Há alguns anos Gonzaguinha cantava: Vida é trabalho; sem o seu trabalho, um homem não tem honra”. Falar de honra soa, no mínimo, antiquado. As pessoas não são mais admiradas pelo seu trabalho, nem buscam isso. Querem somente o dinheiro fácil, que possibilite ter os carrões da moda, as roupas da moda, o corpo perfeito. E a vaidade e o consumo não são mais “privilégios” das mulheres. Não é a toa que proliferam os “bombadinhos” dando cavalos de pau em seus carros importados. Com isso, surgem as grandes riquezas desprovidas de legitimidade. Ora, se os playboys não trabalham, não fazem nada e são cheios da grana, por que os garotos que moram em favelas vão suportar calados essa humilhação? Por que têm que viver com tão pouco, por que têm que trabalhar como idiotas? E assim uma coisa alimenta a outra; o desejo de consumir conduz ao crime sem levar em conta a classe social. 

E como deixar de mencionar as ansiosas mãe “gatinhas”, que desfilam pelos shoppings competindo com suas filhas, as quais desde cedo aprendem a lógica do consumo. E os filhinhos do papai, que nunca souberam o que é limite e que são protegidos na alegria e na tristeza (tristeza dos outros, das vítimas).  

O professor Hermógenes , citando Erich Fromm, diz que a sociedade contemporânea está doente e todo indivíduo bem ajustado a ela não deixa de, consequentemente, ser um doente.
Sofremos de uma epidemia consumista e de uma carência crônica de valores. É a sociedade da busca da perfeição física, do consumo excessivo como requisito para a satisfação interior; é a sociedade da aparência e da ostentação, dos limites frouxos e do vale tudo.
Vale tudo para ter o dinheiro da farra e da droga no fim de semana, a camisa de marca para vestir, o carro para impressionar as mulheres ou, no caso delas, para colocar silicone, fazer lipo e usar as roupas da moda. Vale dar golpes, vale fraudar, vale traficar. Hoje se pode tudo. Pode até, também,  estuprar e matar. 

Na nossa pobre e provinciana cidade vemos os exemplos. Natal é uma terra sem dono e sem lei, governada por interesses particulares e regida pelo nepotismo e pelo apadrinhamento. Uma cidade em que todo mundo tem que saber "com quem está falando". Triste cidade,  que produz pouco, mas que transpira “riqueza”, vide os carrões que circulam, vide a ostentação da classe alta. Para completar, temos a estagnação moral e a impunidade.  

A única esperança de que esse ciclo se feche é a de que um dia os responsáveis por ele sejam atingidos em sua própria carne. Sim, estou rogando uma praga. É que sinceramente não vejo outra saída para fechar esse ciclo de crime que jamais vem seguido de castigo.