terça-feira, 31 de agosto de 2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu vou invadir minha praia

A cortina que não cerrei na noite anterior providenciou um jeito de me acordar às sete da manhã. O sol entrava pela janela com uma urgência desmedida, e gritava: “acorda, que hoje é dia de praia”. 
Não resisti ao chamado e corri para Ponta Negra, no meu costumeiro biquíni azul, por baixo do vestidinho azul , pisando o azul das minhas havaianas, porque quando o céu me brinda com o azul mais azul que possui, tenho vontade de sair assim, pra combinar com ele.  
E eu estava numa alegria exuberante. Era um daqueles dias em que você não sabe bem o porquê, mas você não cabe em si.  
Do alto da ladeira que desemboca no calçadão, olhei aquele mar imenso. O sorriso foi inevitável. Enchi o pulmão de ar e pensei: nada como um dia perfeito !   
 E nesse enlevo desci o calçadão, tirei as sandálias, pisei a terra... Mas tal qual uma música que vai baixando, baixando, até desaparecer num final desafinado, meu sorriso foi diminuindo quando dei de cara com a beira mar completamente ocupada por cadeiras vazias e guarda-sóis imensos. Os melhores lugares, todos ocupados! Ok, ok, isso não iria estragar meu dia. Decidi engolir a chateação e pagar dois reais para sentar numa cadeira. Cheguei para o dono-das-cadeiras:
- quanto custa sentar?
- na pequena é  cinco e na maior é oito. 
- cinco o quê, cinco reais? Eu não sou gringa não, ó. Sou branquela e avermelhada mas moro aqui em Natal. Deixa de conversa e diz quanto é.
-  é isso mesmo, moça, na pequena, cinco, na maior, oito.  
 Olhei pra ele com a cara mais idiota que consegui fazer. Minhas opções: me apertar entre uma cadeira e outra, no chão, ou pagar cinco reais (porque oito é impensável!)  
Mas nesse momento me veio a iluminação, aquela que gera as grandes e revolucionárias idéias, que só acomete certas pessoas que têm o dom de realizar feitos memoráveis. Com a certeza de estar dando um passo irreversível para a construção de uma praia mais democrática e mais natalense, peguei a cadeira e fiz  um arremesso à distância. A pobre da cadeira, de madeira roída e gasta, se quebrou num grande “crec”. Logo chegou o dono-das-cadeiras, perplexo, gritando:  “tá doida, é, moça?” 
E assim, de forma teatral, liberei MEU espaço na areia. Desenterrei o guarda-sol e girei com ele para arremessá-lo também, bem longe. A essa altura o dono-das-cadeiras se atracou comigo e o barraco estava armado.                    
Pois essa luta chamou a atenção de diversas pessoas. Puxa de lá, puxa de cá, e quando vi o público se formando larguei o guarda-sol e comecei um discurso inflamado, dizendo que tudo que eu queria era um lugar na praia. Ninguém comprou Ponta Negra, ela continua sendo pública, e se não quero pagar cinco reais para sentar à beira mar, posso muito bem tirar a cadeira e o guarda-sol e sentar naquele local. E prossegui, entusiasmada:
- Natal é nossa, não podemos mais admitir que nos espoliem dessa forma. Natalenses de todos os bairros, uni-vos. O morro do careca é nosso, Ponta negra é nossa. Chega de turismo sexual. Chega de exploração monetária. Chega de não poder andar no calçadão com medo de ser confundida com prostituta. Nosso salário é em real. Queremos comprar em real, não em euro. Queremos ter condições de comprar uma casinha aqui, ou pelo menos queremos sentar à beira mar de graça, ninguém pode nos tomar esse direito! Que venham os bons turistas, aqueles interessados no mar e nas belezas da nossa cidade, mas que se explodam os turistas predatórios.  Viva a liberdade, viva a nossa praia como era antigamente!!!
E todos se juntaram a mim, e começaram a atirar os guarda-sóis, e entre aplausos comovidos, cadeiras e guarda-sóis voadores, sentei dramaticamente no meu pedaço de chão, num momento apoteótico.  
 Acordei sorrindo, me remexendo e repetindo “obrigada, obrigada”.  Quando percebi o que ocorreu, dei grande uma risada. Eu e meus sonhos cinematográficos! 
 A essa altura, passava das sete, o calor já tomava conta do meu quarto.  A cortina aberta balançava. O despertador que não tocou me disse, com seu silêncio, que era domingo.  
Sentei na cama, acostumando os olhos com a claridade,  espreguicei gostoso, olhei o azul lá de fora e pensei, entusiasmada e diabolicamente premonitória:
“ Hoje é dia de praia…”   

(brincadeirinha escrita em 2006, depois de uma manhã em Ponta Negra e depois de muita indignação com o que vem ocorrendo com a praia...)

Até minh'alma se sentir beijada

Qual o elogio supremo, inesquecível, que faria uma mulher prender involuntariamente a respiração?
“Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão”
(Chico Buarque)
Impressão minha ou são as vitrines que ficam olhando enquanto ela passa? Ela passa, e se multiplica, e entorna poesia pelo chão. Se alguém tivesse me dito isso alguma vez, eu jamais esqueceria. Entornar poesia pelo chão, ao passar. Não se esquece uma coisa tão linda. É um elogio de tirar o fôlego. 
Falar em Chico Buarque às vezes é meio incômodo, porque soa como clichê. Porque ele é praticamente unanimidade, é considerado o maior letrista deste país, desvenda a alma das mulheres, etc etc etc. Mas me rendo ao clichê, porque ele traduz a mais pura verdade. Sou fascinada por algumas músicas dele, de outras apenas gosto. Deve ter alguma que não me agrade, mas agora nenhuma desse tipo me vem à mente. O fato é que às vezes escuto com um pouco mais de atenção algumas dessas de que apenas gosto e me surpreendo vendo que também são perfeitas. Assim foi com “as vitrines” neste fim de semana. 
Fiquei imaginando a história: eles são amigos. Talvez até trabalhem juntos. Ele a ama, ela não sabe, ou, se sabe, finge que não. É sábado à tarde, ela vai ao cinema com as amigas. O clima está ameno, e é uma cidade que ainda tem um cinema fora do shopping,  ao lado de uma daquelas galerias comerciais, típicas dos velhos centros. Ela sai da sessão, leve, frouxa de rir. Ele está lá, sentado, observando, à distância, como um vigia, com inveja e ciúme do mundo inteiro, que também pode observá-la à vontade, impunemente. E ela passa, distraída. E a cada passo...é como se exalasse poesia através do riso, através do movimento do corpo. E ele sai catando essa poesia, um servo, um arauto, que faz sua aclamação silenciosamente. 
Ah...
Mas  não vamos deixar assim, tão desconsolado e apaixonado e sedento esse pobre vigia. 
Vamos supor que em um belo dia ela perceba a presença dele. Um dia ele chega, "diferente do seu jeito de sempre chegar...” e então é notado, e faz o convite, e ela aceita, e os dois vão juntos ao cinema, e se divertem, e riem, e  se beijam, e viram amantes. 
E ela se surpreende, e o relacionamento dos dois é pura emoção. Ela se apaixona. E certo dia vai falar sobre ele pra uma amiga, e diz assim:
“O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada”
Não queria interromper a história e estragar o clima com um palavrão, mas putaquepariu. Até a alma se sentir beijada. Essa é uma das músicas mais sensuais que eu conheço. A alma se sentir beijada é de uma fineza de sensações e de sentimentos muito difícil de ser alcançada. É delicado e avassalador ao mesmo tempo. É de arrepiar. 
E não sei dizer se esse amor entre o vigia-voyeur e a bela moça que entornava poesia durou, ou se acabou logo, mas só sei que foi de uma intensidade tão grande e tão bonita e tão luminosa, “que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.”


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Estranhamento

Nada sei do que me habita, me consome e me comprime
Sei apenas do que me chega:
um sorriso fraco, quase um suspiro
uma alegria ingrata
simulacro de contentamento
(eu sei do vômito, não da náusea)
Ignoro, mas não me engano:
em algum recanto eu sofro. 
(2005)

Namastê

Namastê ou namasté é uma saudação bastante utilizada pelo praticantes de yoga. Eu considero uma das saudações mais lindas que existem, pois significa: o divino que há em mim saúda o divino que há em você. 
É lindo porque pressupõe que todos nós, humanos, temos algo de sagrado em nosso ser. 
Yoga possui em sua origem o significado de unir, ligar. Alguns confundem Yoga com religião a partir da suposta base etimológica comum.  “Religião” viria do latim “religare”, com idêntico significado, porém o certo é que, segundo a doutrina mais abalizada, religião vem de outra palavra latina, religione
Existe uma diferença sutil, porém essencial entre a união proposta pelo Yoga e a união proposta pelas religiões, especialmente as de base cristã. O Yoga é teísta, mas não impõe um deus personalizado. Além disso, não prega a noção de que tudo que é carnal inspira asco e vergonha. A relação com o corpo é substancialmente diferente da relação proposta pelo cristianismo, que possui uma abordagem fundada na culpa e na necessidade de expiação. 
 “Essa relação especial com a carne deve-se provavelmente ao fato de o cristianismo ser a única religião em que Deus assumiu a forma de um corpo humano a fim de viver e morrer como humano e como vítima. Daí o status atribuído ao corpo. De um lado, este é visto como a parte viciosa do homem, oceano de miséria ou abominável vestimenta da alma e, de outro, é destinado à purificação e à ressurreição. (Trecho do livro "A parte obscura de nós mesmos", de Roudinesco.)
Para o Yoga, o corpo é instrumento que pode auxiliar no propósito de obter a conexão com o divino; sendo o corpo físico uma parte de nós mesmos, deve haver uma comunhão perfeita, que possibilite que o indivíduo, inteiro, entre em comunhão com o próprio universo. 
Curiosamente, Santa Teresa de Ávila, penitente convicta, escreveu um belo poema que foge totalmente à tradição católica, pois fala de uma comunhão entre o humano e o divino: 
"E se acaso não souberes em que lugar me escondi não busques aqui e ali, mas se me encontrar quiseres a Mim, buscar-me-ás em ti. Porque tu és meu aposento, és minha casa e morada, e assim chamo em qualquer tempo, se acho em teu pensamento estar a porta cerrada."
Então “Namastê” para os dois ou três leitores deste blog, e que tudo que há de mais belo em nós dure mais que nós mesmos. 

YOGA – Para além das posturas

Aqui no ocidente é muito comum confundir yoga com os asanas ou posturas. Praticar yoga, então, é ir toda semana para uma salinha, ouvir as instruções do professor, dizer “ooommm” e, com um pouco de coragem, força e  flexibilidade, ficar de cabeça pra baixo. Os alunos mais aplicados aprendem nomes como "Swami" e usam a saudação Namastê, além de camisetas com desenhos de elefantes. 
Mas a verdade é que yoga é muito mais. 
Yuj é a raiz sânscrita da palavra Yoga, e segundo os estudiosos significa “atar, unir, ligar”. Dessa mesma raiz derivam as palavras Yoke, em inglês, Jungo, em latim e Joch, em alemão, com significados semelhantes. 
O Yoga, pois, propõe-se a unir, atar. A questão que se coloca então é: o que em nós precisa ser unido, atado, religado? 
O Yoga pretende unir o corpo e a mente, integrar o indivíduo, e ao mesmo tempo unir esse indivíduo ao universo, ao que há de divino. Trata-se de uma filosofia originada na Índia, constituída de preceitos que indicam o caminho a ser seguido  para alcançar a transcendência e um estado permanente de êxtase espiritual, mediante um conjunto de práticas com vistas a aquietar a mente. 
Segundo o sábio Patanjali, o Yoga é o estado de quietude plena, de controle dos sentidos e de afastamento de toda e qualquer distração.  Nesse sentido, chega a se confundir com meditação. Muitos falam em um estado de Superconsciência, que pode ser  considerado uma espécie de paz perene, suprema. 
Yoga é caminho e realização ao mesmo tempo. A sua regra de outro  é permanecer consciente a todo o momento, não se perdendo nas teias do automatismo e entre os devaneios dos sentidos. A consciência possibilita a quebra dos condicionamentos, e trilhar esse caminho conduzirá à liberdade.  
Quando nos livramos dos condicionamentos, chegamos cada vez mais perto da liberdade, e a liberdade é capaz de descortinar nossa verdadeira essência. 
Com muita propriedade Sri Swami Sivananda  afirma: 
Yoga é eqüanimidade. Yoga é serenidade. A destreza nas ações é Yoga. O Yoga é, desta forma, o que tudo abraça, o que tudo inclui, e a sua aplicação universal conduz ao desenvolvimento de todas as qualidades do corpo, da mente e da alma.
Primariamente, o Yoga é um estilo de vida, não é alguma coisa pela qual se separa da vida. Yoga não é o abandono da ação, mas a sua execução eficiente, de boa vontade. Yoga é não o fugir de casa e da habitação humana, mas um processo de modelagem das atitudes de alguém na sua casa, na sociedade, com um novo entendimento. Yoga não é afastar-se da vida, é a espiritualização da vida. 
E Mario Quintana, que nem era Yogue, utilizando outras palavras disse basicamente a mesma coisa: 
"Não foge ao mundo o verdadeiro asceta,
Pois em si mesmo tem seu próprio asilo.
E em meio à humana turba, arrebatada e inquieta,
Só ele é simples e tranqüilo."
[Mario Quintana)

Odeio mesinhas

No fim do mês haverá show de Roberta Sá no Boulevard e eu não vou. É que gosto dela, mas odeio mesinhas.
Aqui em Natal existe essa moda de venda de mesas em todos os shows. Em primeiro lugar, é muito inconveniente: se você quiser ir ao show só, não dá. A não ser que queira pagar por quatro lugares e ficar lá com cara de tacho. Então tem que sair à cata de outras três pessoas ou outro casal para dividir. Mas o pior mesmo é ver, no meio do show, o povão enchendo o bucho de filé com fritas enquanto o artista se apresenta. Como se estivessem numa churrascaria, ouvindo seu Dedé dos teclados. Acho uma falta de respeito. Na última vez em que estive no Boulevard foi pra ver Ney Matogrosso, que eu adoro, mas um garçom ficava passando com bandejas o tempo inteiro na minha frente, até que eu montei uma barricada pra que ele não passasse mais. Tá, coitado do garçom, não tem culpa, estava só fazendo o serviço dele, mas eu é que não ia pagar por isso. Estava lá pra ver a performance (e que performance) de Ney, e não o vaivém de um prato de batata frita. Além disso, o Boulevard é terrível, não tem acústica. É casa de recepção, e não de shows. 
Recentemente houve show de uma banda cover dos beatles em outra casa de recepções, o La mouette, e  também só havia mesas. Não fui. Porque ou você é o primeiro a saber e consegue pegar a mesa em frente ao palco, pagando caro, ou fica lá no fundão, sem conseguir enxergar a banda, e nesse caso acho muito mais econômico ficar na minha casinha ouvindo Beatles – original. 
Outro dia fui também pra um festival de jazz, e lá estavam as malditas mesinhas e cadeiras de plástico brancas, ainda por cima todas vestidas com uma sainha, tipo aquelas usadas nos buffets, em casamentos. Parecia que eu tinha ido a uma recepção de casamento e não sabia. 
Não nego: sou radical. Pra mim, show em ambiente fechado só serve de duas maneiras: sentada confortavelmente na cadeira de um belo teatro, curtindo tranquila e comportada uma boa apresentação, ou de pé, na pista, tomando uma caipirinha ou uma dose de vodka (ou cerveja, vai do gosto do cliente), dançando bastante se o show for legal ou conversando e falando mal das bandas se estiver ruim (ehehe, como no recente Festival Mormaço). 
Odeio mesinha em show. Mesinha é pra restaurante, boteco, barzinho (com música ambiente ou mesmo com uma banda, dependendo do som)  e, claro, recepção de casamento. 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Medo, medo, medo.

Congresso internacional do medo
Provisoriamente não cantaremos o amor, 
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. 
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, 
não cantaremos o ódio porque esse não existe, 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, 
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, 
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, 
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, 
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, 
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. 
(Carlos Drummond de Andrade)

Temos muito medo. Medo do assalto na esquina, do seqüestro-relâmpago, do chefe, do envolvimento dos filhos com drogas, das brigas no trânsito. De perder o emprego, de ficar endividado. Medo do escândalo. Medos, digamos, sociais. Mas também temos medo da solidão, de não sermos aceitos, de sermos traídos e abandonados. Medo de mau-olhado. Medo terrível de câncer. Medo de morrer. E não só morrer, mas também de ir para o inferno. Medo de não ser uma boa pessoa. Medo dos próprios pensamentos. Medo do que os outros vão falar ou pensar. Medo de magoar. Medo de dizer “não”. De dizer “basta”. De contrariar. Vamos chamá-los de medos interpessoais.
O medo é essencial para a sobrevivência. Por força dele, o hipotálamo ativa as reações de luta ou fuga.  O problema é quando a reação de fuga é a única escolhida, por anos a fio. Torna-se um vício. 
Ter coragem não significa necessariamente agir com agressividade, nem falar o que bem entender quando bem entender. Não significa inconseqüência; ter coragem é dominar a arte de impor limites e exigir respeito. Isso é difícil, pois fomos alimentados com um pegajoso e falsamento nutritivo medo. Uma postura mais assertiva é a base de uma existência aberta e livre de amarras. Deveria ser  um dos propósitos, um dos objetivos da vida. Para que nos nossos túmulos nasçam flores vermelhas e alegres. 


terça-feira, 17 de agosto de 2010

O gosto das coisas

Estava no supermercado ouvindo uma música do REM, uma de minhas bandas internacionais preferidas, e me controlando para não sair dançando em meio às frutas e verduras. Voltei pra casa ouvindo a mesma música, umas três vezes seguidas, numa alegria absolutamente estranha pra quem tem à frente a ingrata tarefa de guardar as compras, e então me dei conta do motivo: é que a música em questão tem gosto de um passeio a pé pela cidade, de férias...tem gosto de um encontro com os amigos, tem gosto de...liberdade!
E existem outras que têm gosto de praia (Winter in the Hamptons, de Josh Rouse), muitas que têm gosto de solidão, fossa e desespero (que tal... One Day The Sun Will Shine On You ou Still Got The Blues, de Gary Moore? Ou ainda Love Hurts, de Nazareth?)
Mas não só as músicas têm gosto. Noite fria tem gosto de vinho. Um bom livro tem gosto de viagem (e Paulo Leminski tem gosto de aventura). Tenho um quadro na minha casa que tem gosto de festa. Recife tem gosto de saudade. Natal tem gosto de axé e “forró elétrico” (afe...). Carnaval, pra mim, não tem jeito: ou tem gosto de frevo, ou de cinema e filminho com pipoca em casa. Certos perfumes têm gosto de beijo. Alguns cortes de cabelo têm um indefectível gosto de passado. Existem roupas que são impregnadas de um gostinho chato de trabalho. Peixe frito na peixada da comadre tem gosto de caipirinha. Domingo à noite tem gosto de preguiça. Sexta à tarde tem gosto de expectativa. E viver tem que ter um gostinho de leveza e descontração.  :)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

No tempo da delicadeza

(onde não diremos nada, nada aconteceu.
Apenas seguirei, como encantado ao lado teu).

Octavio Paz, pensador e escritor mexicano, no livro "O labirinto da solidão", diz que a experiência autêntica do amor é algo muito raro na nossa sociedade, praticamente inacessível, porque colocamos diversas balizas no sentimento. Em primeiro lugar, as nossas escolhas são todas baseadas em critérios como nível social, cultural e econômico, além da aparência física. É evidente que, até mesmo no plano biológico, a aparência é importante, porém a aparência capaz de despertar o desejo, que pode não ter nenhuma relação com os critérios socialmente construídos do belo em uma determinada época. No entanto são os critérios, e não a verdadeira atração, que na maioria das vezes determinam o peso da aparência.  Além disso, “a mulher...nunca é dona de si. Seu ser se divide entre o que é realmente e a imagem que faz de si. Uma imagem que lhe foi impressa por família, classe, escola, amigas, religião e amante. Sua feminilidade nunca se expressa, porque se manifesta por meio de formas inventadas pelo homem”.  Quanto aos homens, submetem seus gostos à imagem feminina imposta pelo círculo social. “Incapazes de escolher”, selecionam as esposas entre as mulheres “convenientes”. E assim o amor, que deveria ser a união radical de duas pessoas para juntas experimentarem a vida e sublimarem a solidão que significa estar vivo e consciente, e que segundo esse mesmo autor é “a profundeza última da  condição humana”, passa a ser um simples acerto de conveniência. Não é à toa que Octavio paz cita Proust, com uma famosa frase de  Swan: “E pensar que perdi os melhores anos da minha vida com uma mulher que não era sequer o meu tipo”. 
Assim, por causa  dessas restrições e artificialismos, o amor verdadeiro passa a ser um ato “anti-social”, um ato revolucionário, que surpreende e causa choque. 
Recentemente lembrei desse belo texto de Octavio Paz quando li uma entrevista com o compositor Marcelo Camelo. Eu tive, há algum tempo, uma séria antipatia pelo namoro dele com a cantora adolescente Mallu Magalhães. Tinha admiração por Camelo, achava as letras dele interessantes. E afinal ele era um cara, na época, com uns trinta anos. Então essa imagem desmoronou bastante quando o vi envolvido com uma garota que não falava coisa com coisa, e muito mais jovem. No entanto me surpreendi com algumas declarações dele nessa entrevista:

Repórter: O que mais te encantou nela?
Marcelo: É como se, quando ela tocasse, virasse eterna. Ela sai do universo mais óbvio de percepção que se teria dela e vira uma coisa maior, um universo inteiro. Quando ela tocava vinha uma força que eu achava estranha. Além disso adoro o modo como ela cria melodias. Foi uma ligação espiritual, imaterial.

Repórter: Como você sentiu a cobrança pelo fato de ela ser muito mais nova?
Marcelo: Quando você se apaixona, você se apaixona. O radical da palavra é o mesmo de passividade. Porque, quando acontece, tu fica meio passivo. Não tem questionamento. Nosso encontro foi algo muito especial.

Talvez sem saber, Camelo foi puro Octavio Paz. O radical do amor é mesmo a passividade. É ser escolhido, é ser levado por um desejo mais profundo, que vai além das regras de escolha que normalmente nos são ensinadas.  Talvez amar seja recuperar a delicadeza perdida, seja lançar sobre o outro um olhar puro, límpido.
Claro que a duração do relacionamento depende da existência de compatibilidades, mas a brevidade do encontro não significa efemeridade do sentimento, nem o contrário. E compatibilidade não significa necessariamente identidade cultural, social e financeira. Na verdade, somente livres das máscaras e dos condicionamentos as pessoas são capazes de vislumbrar uma experiência amorosa autêntica. 
 “E pedimos ao amor – que, sendo desejo, é fome de comunhão, fome de cair e morrer tanto quanto de renascer – que nos dê um pedaço de vida verdadeira. Não lhe pedimos a felicidade, nem o repouso, mas sim um instante, apenas um instante, e vida plena, em que os contrários se fundam, e vida e morte, tempo e eternidade, compactuem”.

Obs.:  A entrevista com Camelo é da revista Trip. O título e a primeira citação  (em itálico) fazem parte da belíssima música "Todo Sentimento", de Chico Buarque.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Quem sabe a vida é não sonhar

 Minha vó já me dizia: pára de fingir que não repara nas verdades que eu te falo, dá um pouco de atenção, menina. Ouça-me bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó. Pois quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão. É que nem sempre o amor é tão azul. Então ouça um bom conselho, eu te dou de graça: sonhar só não dá em nada; o destino do amor é sempre a despedida. 
Juro que não acreditei. Eu achei que a vida fosse bela . Quando eu vim pra esse mundo, eu não atinava em nada. Eu nasci assim, eu cresci assim. Acreditando na ilusão. 
E quando te vi, tendo que viver comigo apenas e com o mundo, você me veio com um sonho bom. Me perdi de tanto amor, ah, eu enlouqueci. Ninguém podia amar assim e eu amei. Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios...rompi com o mundo, queimei meus navios. Vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia. Foi assim: nos amamos feito dois pagãos. Fiz de você o sol da noite primordial e o mundo fora nós se resumia a tédio e pó. Tinha cá pra mim, que agora sim, eu vivia enfim o grande amor.
Mas existem coisas na vida das quais até Deus duvida. Quando o meu mundo era mais mundo, quando a poesia realmente fez folia em minha vida, você partiu e me deixou. Você partiu para ver outras paisagens. Nunca mais você voltou pra me tirar da solidão. Partiu. Me disse pra ser feliz e passar bem. Chorei, chorei...até ficar com dó de mim. Amaldiçoei o dia em que te conheci.
 “Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem??”
Pouco adiantou.
Você me deixou, meu bem. Ah, coração leviano, não sabe o que fez do meu.  Desde então, minha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo: saudade. A saudade é o pior tormento, é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? E por ele quase morrer? Eu perco o chão, eu não acho as palavras.  De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho. Só sobraram restos. Hoje meu coração é só saudade, vive adversidade, a tristeza mora em mim. Ando tão à flor da pele, qualquer beijo de novela me faz chorar. Eu já não consigo mais viver dentro de mim e viver assim é quase morrer . Há tempos o encanto está ausente. Inutil dormir, a dor não passa.  Sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração. Meu coração tropical está coberto de neve. Porque só me ficou da história triste deste amor a história dolorosa de um fracasso. 
Desilusão, desilusão... A vida não é brincadeira, amigo. Tanta gente aí se engana, e cai da cama com toda a ilusão que sonhou. E você que está me ouvindo, quer saber o que está havendo com as flores do meu quintal? O amor-perfeito, traindo, a sempre-viva, morrendo, e a rosa, cheirando mal. 
Agora falando sério....filosofia ou poesia é o que dizia a minha vó! O mundo é um moinho! São demais os perigos desta vida. Quanto tempo de sonho perdido, quanto tempo esquecido, é melhor nem lembrar. Mas agora eu sei o que aconteceu. Me cansei de ter ilusão . Tudo o que se ganha nessa vida é pra perder. Tem que acontecer, tem que ser assim. Nada permanece inalterado até o fim. Viver não é brincadeira não!  Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem. Solidão é lava que cobre tudo.  Desilusão, desilusão. Já conheço os passos dessa estrada , sei que não vai dar em nada. Eu cansei de ser assim, cansei de procurar o pouco que sobrou. Quem sabe o amor – todo amor que houver nessa vida – tenha chegado ao final. Quem sabe a vida é não sonhar. 


(texto construído com letras de músicas brasileiras. As únicas exceções são as palavras em negrito. Tem Chico Buarque, Roberto Carlos, Paulinho da Viola,  Lupicínio Rodrigues, Cazuza, Cartola, Renato Russo,  Zeca Baleiro, Adriana Calcanhoto, Erasmo Carlos, Raul Seixas, dentre muitos outros. O título é trecho da música malandragem, de Cazuza/Frejat)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Feliz aniversário

46 anos. Um marido, uma filha. E os penduricalhos: sogra, sogro. Nenhum amante, que o último já faz dois anos. 
Um marido, o meu marido. Desde menina já sabia que tinha que ser dona de um, só não esperava que fosse assim, essa coisa estranha, nojenta, essa barriga de cerveja, a careca espalhada na cabeça. E mais,  a agonia uma vez por semana, parecia uma humilhação, era uma humilhação, aquele jeito gordo de ficar respirando, babando em cima de mim, escorrendo um suor seboso, aquela coisa pesada. E a risada alta, escandalosa. As malditas camisas sem manga no fim de semana. 
Uma filha. Eu também sabia que ia ter uma.  Era com muito gosto que eu embalava as bonecas, cantava pra elas, trocava as roupinhas...Mas aquela menina...até que não era feia, não puxou ao pai, mas tem uma coisa longe, sei lá, de filha que não é minha. É uma menina meio besta, que eu crio, visto, dou de comer, mas é como se fosse filha dos outros.  Quando ela nasceu, não aconteceu nada do que eu tinha lido na revista Cláudia: “Amor incondicional”, “realização enquanto mulher”, palavreado, tudo palavreado. 
A minha sogra é uma velha insuportável, orgulhosa do filho professor, acha que ser professor é a coisa mais importante do mundo. Ela sabe que eu sei que as piadinhas sobre “não ter curso superior”, “não ter formação”, são todas pra mim. Ela sabe. Eu sei. Tudo dela é melhor, tudo é superior. O sogro, meu deus do céu, um panaca. Um manobrado. Vive com aquele olhar perdido no tempo, o jeitão embasbacado, e concorda com tudo que a mulher diz. Pelo menos não tem barriga, isso é verdade. Coroa enxuto, corre toda manhã, é conservado, o velho, apesar da idade.  Pensando bem, talvez a pasmaceira seja só disfarce, inda mais com essa historia de viagra, pode ser é que ele viva se esparramando nas outras mulheres, que mulher doida por homem é o que não falta. 
Homem é que tá difícil, ainda mais nessa idade, com os peitos caídos, sem dinheiro pra silicone nem pra botox. O último foi um rapaz de vinte e oito, ai meu deus, vinte e oito anos, dói de saudade só de pensar. Estudava na universidade, fazia filosofia e tinha essa história de que mulher mais velha é mais interessante...instigante, ele gostava de dizer “instigante”. Eu é que não ia contestar, ué...Tava era muito bom pra mim. Aquele corpo comprido, lisinho, aquele fogo...Mas veio outra e tirou. Ele me apareceu com uma lenga lenga danada, que eu era incrível, que isso e aquilo, mas é a velha história: começou a namorar com uma que é carne fresquinha, da faculdade também, quer noivar, fazer filho, e isso, meu amor, eu sei, eu sempre soube que ia acontecer. Homem é assim, pode estudar a filosofia do mundo inteiro, mas quer mesmo de verdade é uma cinturinha fina, uma carne dura, um lugarzinho só dele, por onde ainda não passou menino. 
E agora essa bendita festa de aniversário, um churrasco, o povo se empanturrando de carne e lingüiça de porco, enchendo as fuças de cerveja e fingindo que é por mim. Grande bosta, completar 46 anos desse jeito.  Ah, se eu pudesse dizer um dia a cada um o que eles são de verdade. Claro que eles  iam me xingar também, falar o que eu já sei: que eu tô velha, não tenho curso superior, envergonho o marido professor porque costuro pra fora, essa lenga lenga toda. Mas se a velha soubesse como ela é ridícula, como enche o peito pra louvar ninharia, se o velho soubesse como é panaca, se a menina soubesse que quero mais é que ela vá logo embora cuidar da vida, se o nojento soubesse o quanto me dá vontade de vomitar quando tá perto do sábado, quando ele vem babar em cima de mim, ah, se soubessem. Um dia eu ainda digo. Mas agora com licença senão daqui a pouco essa corja acaba com a  lingüiça e não vai sobrar nada pra mim. 


(PS: estorinha nitidamente inspirada no conto homônimo de Clarice Lispector)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O desejo e o sertão

Venho de um lugar quente
Dizem as más línguas que não apenas pelo sol opressivo
E pela paisagem cinza
Mas também pelas mulheres da terra
Vorazes
Com seus abraços sufocantes
Que intimidam e assustam e agradam


Mas é quando a chuva cai e desperta
O verde, há tanto tempo adormecido
É nos poucos dias em que o ar se torna frio e aconchegante
Quase gentil
Que solto meus cabelos
Que ganho olhos acesos
Que o sol nasce em mim
Denso, exigente e agressivo.

(1996. Aproximadamente)


Plunct plact zum, autoritarismo e frustração.

O ano era, digamos, 2055. Alguns grupos haviam tomado o poder na terra e há tempos vinham doutrinando a população no sentido de que democracia era um sistema arcaico e falho. Desde 2040 um Super Rei governava o planeta, e cada país tinha seu sub-rei, que chamaremos aqui simplesmente de sub.
Em 2030 havia sido descoberto que Marte também eram habitado. Mas ao invés dos simpáticos homenzinhos verdes, ou ainda dos temíveis seres dominadores que nas histórias sempre exigiam conversar com o líder, foram encontrados nesse planeta seres muito semelhantes aos humanos, porém mais rudimentares, que viviam em tribos e se envolviam em sangrentas batalhas. Os recursos naturais eram escassos, e as lutas geralmente eram por comida. E não havia, lá, nenhum mediador, ninguém que se interessasse em dar fim a tais conflitos. Marte era o caos. 
A terra, por outro lado, era um lugar bastante pacífico. Guerras? Coisas do passado. Quem ousasse falar em conflito era sumariamente executado, e assim a boa e justa ordem era sempre mantida. Vários soldados estavam imiscuídos na população, nas lojas, nas repartições públicas, prontos a denunciar suspeitas de desobediência.  Além disso, para praticar qualquer ato o habitante tinha que preencher formulários e formulários. Ficou doente? Preenche um formulário. Vai casar? Dá-lhe  formulário. 
Nessa época, Zig, Art e Zen eram três amigos e todos trabalhavam para o sub do Brasil, numa pequena província chamada Natal. Funcionários dedicados, deixavam na repartição, diariamente, dez horas de suas vidas.  Acreditavam nos propósitos declarados na TV pelo sub: justiça, paz, ética, cumprimento de metas. Cumprimento do dever social. 
Porém tinham lá seus segredos...sim, os três eram sonhadores. Zig tinha conseguido esconder no seu capsulamento (ou apartamento-cápsula) alguns objetos do passado: um livro de história, que falava sobre a tal democracia, e um livro de poesia. Este último era especialmente intrigante, pois quando lia os versos sobre liberdade ele era invadido por estranhas sensações químicas e psicológicas...o livro era perigoso,  dava-lhe vontade de perder a razão e sair contestando e querendo viver em um mundo diferente. O horror! Por isso lia no máximo uns três versos de cada vez e depois fechava o livro, assombrado. Acreditava que havia alguma coisa misteriosa e proibida naquelas páginas.  Na escola tinha aprendido sobre os malefícios de umas  ervas alucinógenas que eram usadas pelos humanos na era da barbárie...eles fumavam essa erva, sofriam alterações da consciência e depois morriam. Zig desconfiava, temeroso, que as páginas do livro tivessem sido confeccionadas com a tal erva. Mas mesmo assim não conseguia deixar de ler. Na verdade, os três amigos se reuniam toda semana para ler e reler e reler e sonhar.  
E foi assim que nossos heróis, com a cabeça secretamente pervertida por história, sonhos e poesia, decidiram inovar e tiveram uma idéia: ora, por que não ajudar os companheiros de universo, os marcianos? Poderiam tentar levar um pouco de justiça e assistência para que eles parassem de se digladiar diariamente. E de sobra ainda poderiam viajar pelo espaço! Então tiveram um plano: partir em uma missão com a finalidade de criar núcleos de justiça e assistência aos necessitados em Marte. Batizaram a missão de “Plunct plact zum” . Não tiveram dúvidas de que iam ter todo o apoio do sub, até porque, além de a missão estar em consonância com os objetivos declarados do reinado, iria cair muito bem nas estatísticas e contar ponto junto ao Super Rei.  Então desenvolveram o projeto, analisaram os custos, os benefícios, e satisfeitos e certos do êxito agendaram uma visita ao sub. Um ano depois conseguiram ser atendidos. Quando o sub viu o projeto,  examinou distraidamente e disse que o foguete não iria a lugar nenhum, que eles jamais sairiam da terra, pois para isso precisavam de selo, registro e um carimbo do próprio sub autorizando a missão, a qual estava sendo sumariamente negada.  Timidamente nossos heróis perguntaram os motivos na negativa, e tiveram como resposta uma raivosa declaração de que as decisões do sub são soberanas e ele não precisa compartilhar os motivos com meros subordinados. 
Os três amigos ficaram bastante frustrados; pensaram, pensaram e não entenderam como um projeto tão bom poderia ser barrado, se tinha tudo a ver com os objetivos e a propaganda do reinado do sub. Depois de muito refletir concluíram, perplexos, que a única resposta possível é que a política e a propaganda do sub não coincidiam com seus atos. 
A partir daí, perderam toda a alegria com o trabalho e caíram num vazio existencial, numa grande falta de objetivos. Mas por outro lado não havia boas opções de emprego lá fora. Então Zig tentou se matar de overdose, fumando o seu livro de poesia. A idéia era ter a tal alteração de consciência e depois morrer, mas tudo que conseguiu foram umas queimaduras no rosto e a conseqüente obrigação de preencher três formulários explicando o ocorrido. Depois que se recuperou das queimaduras,  passou o resto da vida carimbando. Art envelheceu em frente ao seu computador. Zen, que parecia ser o mais calmo dos três,  não suportou a desilusão: sua pressão disparou, ele teve um AVC e foi aposentado por invalidez. 



Welcome to the jungle, pós feministas

O feminismo é tido hoje em dia como um tema datado e ultrapassado. Como sou uma pessoa extremamente datada e ultrapassada, penso sobre o assunto com certa freqüência. 

Atualmente fala-se em pós feminismo. Há controvérsias quanto ao real sentido dessa expressão; uns aproximam o conceito de pós modernismo e de desconstrução, e acreditam que o gênero não pode mais ser considerado “uma categoria fixa e imutável”; mas outros vêm como uma nova configuração em que os direitos das mulheres já foram alcançados, e a idéia de feminismo deixou de representar os anseios individuais das mulheres nos dias de hoje. A julgar pelo que se vê na mídia em geral, os anseios das mulheres se resumem a evitar rugas, combater a celulite, colocar silicone e aprender a enlouquecer um homem na cama. Preocupa-me bastante o fato de as revistas e programas femininos se limitarem a isso. Na internet não é diferente. Existem sites/blogs com discussões intermináveis sobre as cores de um determinado esmalte (é sério. Setecentos e tantos comentários em um post sobre esmalte). Preocupam-me os comerciais em que as mulheres sempre aparecem em posição de submissão: desde o do perfume one million, da Paco Rabanne (o rapaz coloca o perfume – que tem referência monetária no nome- e à medida que vai estalando os dedos uma mulher vai se despindo) até os de sachê de carro e produtos de limpeza.  Em relação ao uso indiscriminado do corpo e da pornografia, como no caso das “paniquetes” da TV, por exemplo, eu nem comento. 
E esse assunto me veio à mente especificamente hoje porque:
- antes de ontem conversei com uma mulher que levou recentemente uma surra do marido com o cabo de uma foice. Repito: o cabo de uma foice. Quando indaguei se ela não achava importante denunciar esse sujeito, ela disse que não, que isso foi apenas uma “crise” que ele teve;
- hoje fiquei sabendo de uma moça que está sendo perseguida por um rapaz. O “dito cujo” alega que, já que ela não quer ter relacionamento com ele, não vai poder se relacionar com mais ninguém. A juíza que analisa o caso primeiro aconselhou a moça a mudar de bairro, depois a mudar de cidade. Ou seja, não é o rapaz que tem que ser detido, é a moça que tem que se esconder e fugir;
- fiquei sabendo também de outra situação em que a mulher apanhou, tentou fugir para a casa da mãe e a mãe disse que ela voltasse para a casa do marido. Ou seja, praticamente afirmou que ela tinha o dever de agüentar. 
- por fim, li recendente na Isto é que, segundo o mapa de violência 2010, uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil.

A conclusão é de que o machismo faz parte da nossa cultura, e as próprias mulheres fecham os olhos a essa realidade. Não se trata de abrir uma guerra contra os homens, até porque, pelos casos que eu citei acima, as mulheres cuidam de ratificar e perpetuar a situação. Não faço a menor idéia de qual seja a solução, mas tenho certeza de que passa sobretudo pela questão da educação. E talvez por isso mesmo seja tão difícil de resolver. 


Ps: Welcome do the jungle é título de uma música da banda  guns n’roses 


domingo, 1 de agosto de 2010

Dez coisas que acho muito lindas e muito românticas

1) Visitar alguém no hospital levando flores. Acho lindo isso. Quando eu era adolescente, houve uma moda de cirurgia de apendicite, e a turma toda ia visitar o "cirurgiado", levando vários buquês. Eu tinha muitas fantasias a respeito: eu lá na cama, em recuperação, toda compadecida, recebendo rosas e mais rosas. Ah...Mas não aconteceu. Nunca tive problema de apêndice. E recentemente perdi a oportunidade de levar flores pra um amigo que quebrou a perna; quando fui visitá-lo, ele já estava em casa, e no lugar de flores só deu pra levar um chocolate prestígio :(

2) andar pelas ruas da cidade, num tempinho frio, vestindo um sobretudo,  com cara de quem está pensando em importantes questões da humanidade (obviamente não dá pra fazer isso em Natal)

3) usar vestido com meia-calça, especialmente  essas rendadas, com poás, florzinhas...Amo muito tudo isso! Mas o certo é que elas também não combinam muito com a cidade;

4) deitar na grama pra ler um livro ou ouvir música;

5) ainda de sobretudo, sentar num café, desses com mesinhas nas calçadas e tomar um capuccino enquanto leio um livro (outra coisa improvável em Natal);

6) tomar vinho tinto naquelas taças enormes, segurando a taça pela haste;

7) esfregar as mãos e fumar um cigarro no frio (mesmo sem saber fumar direito) pra dar aquela esquentadinha;

8) ver o pôr do sol na praia (a-há...isso dá pra fazer aqui em Natal);

9) tomar banho de mar de manhã, bem cedo, pra acabar com a mofina e o corpo ficar jeitoso;

10) entrar em um bar meio dark, sentar naqueles banquinhos  do balcão, pedir uma bebida  e ficar curtindo o som, de preferência uma música que dê uma leve (quase doce) vontade de chorar: