domingo, 19 de dezembro de 2010

Então é natal

E Simone te persegue nos supermercados, padarias e shoppings cantando com aquela voz horrorosa, te fazendo lembrar não da morte de Jesus Cristo, e sim dos inúmeros assassinatos de músicas cometidos por intérpretes brasileiros e suas infames versões. Você tem vontade de mandar uma carta pra ela explicando que se o "nataaaalll é a festa cristãããããã", ficar mencionando mantras Hare Krishna na música não tem nada a ver. Ao diabo Simone com seu "Harehama", e também com "Hiroshima e Nagasaki". 

Então é natal. E você vai a dez confraternizações, às vezes duas ou três num mesmo dia, e em pelo menos uma delas existe pelo menos uma pessoa com quem você não faz a menor questão de confraternizar.

Então é natal. E se você trabalha no comércio, vai fazer um bocado de hora extra, e seu patrão provavelmente só vai pagar a metade delas.

Então é natal. E seu décimo terceiro vai embora rapidinho porque você tem que contribuir com o natal dos carteiros, dos garis, dos porteiros e dos funcionários da padaria;

Então é natal. E você sai feito louca fazendo listas e se batendo nas lojas LO-TA-DAS dos shoppings para comprar dezenas de lembrancinhas para dezenas de pessoas;

Então é natal. E você ganha dezenas de lembrancinhas que não te servem de nada.

Então é natal. E a cidade fica bonita, toda iluminada, mas você é uma pessoa chata, e ao invés de curtir toda a luminosidade, reclama que a prefeitura faria melhor se estivesse cuidando dos buracos no calçamento e nas pistas, que estão arruinando o seu carro;

Então é natal. E você come, come, come, e se culpa, se culpa, se culpa, e se consola pensando na dieta que vai iniciar ano que vem;

Então é natal. E você recebe aquelas mensagens via SMS de pessoas que você mal viu durante o ano, desejando um feliz natal pra você e sua família;

E como é natal, você faz o mesmo, ou no mínimo devolve as felicitações;

Então é natal. Mas pelo menos é feriado, ora essa!


Papai Noel às Avessas
(Carlos Drummond de Andrade)

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do  aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


PS: o simpático Papai Noel que me deixou tirar essa foto não tem nada a ver com a poesia acima!!!


2 comentários:

Nira disse...

E esse é o espírito do natal dos dias atuais. Infelizmente. Simples data comercial!

Anônimo disse...

Simone fica presa em uma caverna durante o ano todo. Sai na época de natal repetindo incontrolavelmente : "então é natal..."