quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sobre olhinhos infantis e programas sociais

Não vou fazer nenhuma análise sobre os programas sociais criados e/ou intensificados no governo Lula, pois não tenho cacife para tanto. Além disso, existem muitos artigos disponíveis na internet, com dados econômicos, indicativos, estatísticas, enfim. 
Vou apenas contar uma história que me fez refletir  sobre o assunto.
Morei uns anos em Recife, que é a nossa São Paulo nordestina, nossa “cidade grande”. Lá, eu tinha uma faxineira muito espirituosa, de quem gostava bastante. O nome dela era Célia. E um dia Célia me chamou para ir conhecer o filhinho recém-nascido de uma parente/amiga.  Aceitei o convite, e saímos rumo a um bairro muito pobre do Recife, no qual, confesso, não entraria sozinha, sem as orientações e a proteção de Célia. Chegando lá, nos dirigimos a um barraco. A amiga dela estava sentada na cama, com o filhinho ao lado. Ela parecia ter de quarenta e três a quarenta e cinco anos. Mas eu sou capaz de jurar que ela teria apenas entre 32 e 33. Intuição. Porque aprendi que, enquanto algumas pessoas aparentam ser bem mais jovens do que realmente são, outras (e essas a gente conhece também pelo olhar) têm tracejadas no rosto linhas que foram resultado não só da passagem dos anos, mas sobretudo da passagem do sofrimento. Sem os cuidados pós-gestação, ela parecia  ainda ter uns dois meninos na barriga. Falou das dificuldades, mas sem ressentimento. Mencionou a despensa vazia, sem mantimentos, mas estava feliz porque tinha leite e ia garantir a alimentação do bebê com a amamentação. 
E então reparei no bebê. Vi os olhos dele.  Azuis. E bem vivos. Soube que ele havia nascido há oito dias e ainda não tinha nome. 
“Diga aí um nome pra ele”.
Eu? Dizer um nome? Eu, uma estranha, sugerir uma marca que iria acompanhá-lo por toda a vida? Aquela criança ali, com apenas oito dias e com aqueles olhos tão vivos inibiu toda a minha criatividade. Nenhum nome me pareceu bom o suficiente. 
Nesse mesmo momento lembrei que estava prestes a ser tia. Minha irmã tinha acabado de saber o sexo do bebê: seria menino, e antes de nascer já tinha um nome, um quartinho todo arrumado, uma guarda-roupa cheinho e uma tia irremediavelmente apaixonada e coruja. Mas aquela criaturinha, já nascida, não tinha sequer um nome. Durante muito tempo fiquei com a imagem daqueles olhinhos na cabeça, tão ativos, de um lado para o outro, atentos, mas sem ter consciência de nada. Sem suspeitar que ali já havia um destino traçado. Mal nascido, e já sem nome. Já sem esperança. O bebê, claro, não sabia ainda o que era não ter esperança, e como me doeu saber aquilo por ele. 
Naquele momento tive a consciência aguda do que é a verdadeira injustiça social. Como as pessoas podem nascer tão diferentes? Quem pode explicar  porque duas crianças, esse bebê e o meu sobrinho, que não fizeram nada, simplesmente "aconteceram", foram concebidos,  podem desde já ser tão diferentes? Podem ter perspectivas tão diversas? Creio que só haveria explicação se partíssemos para premissas religiosas, que têm seu valor, mas apenas no campo da fé. Racionalmente não dá para entender e muito menos para aceitar. 
E no Brasil são milhões de olhinhos, azuis, negros, castanhos, espertos, sem nome, sem comida no armário. Qual a opção deles? 
Aqui entram os programas sociais. Nosso país ainda tem um longo caminho a percorrer, e existem pessoas que simplesmente não têm como sair do lugar, como sobreviver, sem o apoio de tais programas. Existem pessoas que já nasceram sem o mínimo necessário, que vão crescer subnutridas, que não vão ter estímulo para estudar, que vão tentar ganhar dinheiro nos sinais, e que precisam, sim, de ajuda do governo.
Às vezes é muito fácil para quem é de classe média e teve pais pobres, estudou com alguma dificuldade e, como diz a linguagem comum, “venceu na vida”, dizer que quem quer, vence, que quem tem vontade, tudo alcança. Mas para mim isso é literatura barata de auto-ajuda ou coisa de quem assistiu a muito programa da Xuxa (querer é poder, baixinhos!). Eu mesma não estudei sem algum esforço, não vivi sem dificuldades. Mas é radicalmente diferente o ter alguma coisa do não ter absolutamente nada. 
É impossível que o dono dos olhinhos azuis um dia faça uma universidade, consiga um bom trabalho, saia do bairro miserável em que nasceu e tenha uma vida boa e confortável? Não, não é impossível. Só que se não tiver incentivo, se não tiver ajuda, para isso ele terá que fazer um esforço grande demais, ele terá que ser quase um super herói.  E à medida que a gente vai crescendo, vai deixando de acreditar em super herói, não é mesmo?
Então o Brasil precisa, sim, de programas sociais. Precisa, sim, dar dinheiro aos pobres. Há o risco de desvios? Sim, claro. Há o risco de acomodar quem recebe o dinheiro? Sim, existe. Mas isso é motivo para acabar ou reduzir a extensão desses programas? Não creio.  Em primeiro lugar, o valor que cada pessoa recebe pela inclusão não é nenhuma fortuna; não há o risco de criar marajás com o bolsa-familia, podemos ficar tranqüilos. Em segundo lugar, a possibilidade de ajudar e incentivar quem realmente precisa supera o impacto da acomodação. 
O Brasil é um país injusto, muito mais injusto do que supomos na maior parte do nosso dia, enquanto estamos envolvidos com nosso trabalho, nossas obrigações e nosso lazer. Muito mais injusto do que conseguimos sentir ao ver os noticiários. Só o impacto "ao vivo e a cores" é capaz de mostrar o fosso que existe entre as classes sociais.  E esse fosso foi amenizado com o governo Lula, isso é fato. Não foi resolvido, Lula não salvou a pátria (heróis não freqüentam mais o nosso mundo de adultos, lembram?). Mas ele teve um governo em grande parte voltado para os mais necessitados. Claro que só a assistência não resolve, é preciso avançar. É preciso investir muito mais em educação. Ainda vale aquela antiga máxima de que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe, mas é preciso que o pescador tenha forças para poder lançar a sua isca mais longe, é preciso que ele não seja subnutrido e tenha condição de  puxar o peixe, para não deixar que ele escape. 
E nós, que somos privilegiados, porque tivemos educação formal, porque temos um trabalho, precisamos disso, precisamos que os pobres deixem de ser tão pobres, porque a redução de todos os problemas, inclusive da violência, passa pela melhoria das condições de vida da população. Eu adoraria reencontrar aqueles olhinhos azuis numa biblioteca, numa livraria, ou numa empresa, como vendedor, supervisor, quem sabe professor! Mesmo tendo a certeza de que obviamente não os reconheceria. Mas se o abismo não se retrai, se não lutamos pela sua redução, o risco bem maior é de encontrá-los nas páginas policiais, esbugalhados, ou que Deus me proteja e nos proteja a todos, de encontrá-los em alguma esquina, à espreita, marcados pelo ódio e refletindo a arma na mão.

2 comentários:

Nira disse...

Faz a gente pensar em tantas crianças que não tem a esperança de um futuro com conforto...é dolorido!

Cdoq disse...

Feliz o dia em que encontrei seu blog.
Adoro seus textos.
Estou praticando! Depois dê uma olhada no meu blog.
Ah, como o próprio nome diz, são rascunhos. rs.