terça-feira, 5 de outubro de 2010

Consumidor rima com sofredor

É triste constatar que no Brasil as coisas só se resolvem no grito. O consumidor é continuamente enganado, menosprezado e ultrajado. E só consegue reparação quando dá uma de doido ou quando entra na justiça. 
Na minha trajetória “consumerista” me deparei com os mais variados absurdos. Tá, eu tenho cara de idiota. Tá, eu tenho uma boa-fé que beira a lerdeza.  E tá, tenho o hábito de “deixar pra lá”, por não querer me envolver em confusão, não querer perder tempo em audiência na justiça etc etc etc. Por isso talvez eu até mereça sofrer o que sofri. Mas vou contar alguns episódios mostrando como consegui resolver problemas, ou ao menos consegui atenção, no grito. 
1) Em Recife, eu cheguei às 12h00min na rodoviária para pegar um ônibus que iria sair às 14h00min. Passei uma hora e vinte minutos na fila da empresa de ônibus para comprar a passagem. Quando comprei, foi uma catarse, aquela felicidade! Mas quando me dirigi ao embarque, uns dez minutos depois, vi que o bilhete tinha a data errada, era para dali a cinco dias. Voltei ao guichê para corrigir, e a resposta: não havia mais vagas no ônibus das 14h00min. Claro que fiquei transtornada. Eles disseram que eu tinha a obrigação de conferir os dados da passagem. Eu disse que o vendedor tinha a obrigação de me vender corretamente, conforme as especificações que eu tinha dado, sobretudo depois do martírio da fila. O atendente fez um muxoxo e me deu as costas. Simples assim. 
Então eu peguei o chaveiro da minha casa (de metal) e comecei a bater no vidro, de modo forte e ritmado. Logo ele voltou perguntando o que eu estava fazendo, preocupado com o vidro, com medo de que eu o quebrasse, e eu disse que só iria parar de bater quando fosse atendida. Fui chamada para dentro da cabine e com o mesmo desdém ele me disse que sentia muito, mas a culpa era minha e eu não tinha mais como viajar naquele dia. Eu disse que entendia, mas que era o seguinte:  dali eu só saía ou para aquele ônibus, em direção a Natal, às 14:00, ou para a delegacia, porque se eles não me colocassem no ônibus eu iria quebrar tudo ali dentro. E comecei a chutar mesas e cadeiras. O resultado? Rapidinho eles conseguiram a vaga para a “louca” e eu embarquei, feliz e satisfeita;
2) Ano passado eu e meu marido voltávamos de uma viagem. Por causa de um atraso no primeiro vôo, perdemos a conexão. Eles nos colocaram para voar dez horas mais do que o programado, e quando desembarcarmos, cadê as malas? Não apareceram. Então garantiram que seriam entregues em casa, que ficássemos despreocupados. Dois dias depois chegam as benditas malas, plastificadas (coisa que não tínhamos feito), arrumadinhas, mas ao abrir constatei que os cadeados haviam sido arrombados e todos os presentes que havíamos trazido para a família tinham sido levados, além de um casaco lindo do meu marido e uma bolsa minha. Comunicamos à empresa aérea, tiramos fotos e pedimos o ressarcimento. No início, da parte deles, indiferença total. Não estavam nem aí. Então eu resolvi partir para o grito. Escrevi um e-mail “entendido”, alertando para a aplicação do código de defesa do consumidor, com liberdade do juiz para fixar o valor da indenização,  e ao mesmo tempo já ajuizei uma ação, pedindo, além do ressarcimento do prejuízo, indenização por danos morais. E o que fez a Companhia aérea? Ora, um lindo pedido de desculpas pelo transtorno, e ofereceu o pagamento integral e imediato das despesas, sem sequer pedir para ver as notas fiscais do que havíamos comprado. Lindo isso. Porque eles perceberam que se continuassem com a mesma atitude iriam pagar muito mais de indenização. 
3) Como 90% das pessoas, já caí nos contos do vigário dos planos ma-ra-vi-lho-sos de celular, de um milhão de minutos, um paraíso. Só que não informaram que havia uma carência. Tentei cancelar o plano, não podia, resolvi cancelar a linha. Passei umas três horas tentando cancelar, e quase fui à loucura. Só me atenderam quando comecei a xingar desesperadamente e a dizer que estava gravando a conversa e iria entrar na justiça.
4) Tive assinaturas de revistas renovadas automaticamente no meu cartão de crédito, sem minha autorização.  Cancelei os cartões. 
5) Triturei um cartão de crédito, mordi, dancei e fiz sapateado em cima dele por causa de uma raiva que eu tive, potencializada por um péssimo atendimento eletrônico que não se completava nunca. 
6) Comprei um carro zero quilômetro, porque odeio oficina, odeio conserto, odeio perder tempo com essas coisas, odeio aquela conversa de “rebimboca da parafuseta”, e com carro zero você teoricamente passa um tempo só tendo o trabalho de abastecer, calibrar pneu e fazer as revisões periódicas. Nada mais. Mas o maldito carro, da KIA MOTORS, veio com diversos problemas de fábrica. E a cada ida à concessionária os defeitos pioravam e surgiam outros novos. Por último apareceu um rangido insuportável nos bancos. Então de ontem pra hoje surtei. Enchi o carro de placas do tipo “Não compre carro desta marca. É mais barulhento do que carroça”. “Não compre. Este carro é pura enganação".  Bloqueei a entrada da concessionária  e disse que só saía de lá com o gerente. Ele veio, fomos dar um “passeio” no carro, filmei tudo, inclusive ele dizendo que eu estava “coberta de razão”, que não tinha condição um carro novo apresentar tantos problemas. Num instante eles me arranjaram outro carro pra rodar e ligaram para pedir uma peça que precisava ser trocada. Só assim, com grito, placas e demonstração de estresse no limite,  eles me deram alguma atenção. 
Esses são apenas alguns exemplos, mas houve muito mais...
Apesar de tudo, hoje sou uma pessoa mais feliz. Só tenho um celular, cancelei cartões de crédito, não faço mais assinatura de revista, sou mais livre assim. E ainda me divirto com as ligações e as perguntas do pessoal do telemarketing. Quando fui cancelar uma linha de celular este ano, a atendente perguntou o porquê, aí eu respondi que eram motivos pessoais. E ela: entendo...mas a Sra. tem essa linha há tanto tempo, não quer ficar com ela mudando o plano? Respondi que não dava, porque era bióloga e estava indo estudar o comportamento amoroso das formigas na Nova Zelândia. E ela: ah, entendo...mas não quer deixar o celular com alguém da família, ou amigo, pra quando voltar?
- ah, moça, não diga isso que assim me machuca. Minha família morreu toda num acidente de avião e meu marido me traiu com minhas três melhores amigas. Não tenho mais ninguém no Brasil, ninguém nesse mundo!
Tadinha da atendente, assim ela teve que cancelar. 
Agora ando doida pra receber uma daquelas ligações oferecendo cartão ou empréstimo, porque vou dizer que não quero porque minha religião não permite, e vou começar a pregar para a atendente, dizendo que dinheiro é coisa do diabo e tentando convertê-la a uma vida mais simples, largando esse emprego que fica fomentando as coisas do capeta!  

2 comentários:

Nira disse...

é o respeito que esse país tem pelo consumidor. Aí voc?ê entra no Juizado especial e teu processo demora um séculoe meio pra ser julgado e nisso você já esquentou tanto a cabeça que nem vale a pena prosseguir. Afff...

Luiz M@r Jr disse...

Pensei que essas coisas só acontecessem comigo. É a mais pura realidade o nosso sofrimento. As empresas não gostam de cliente.